Queremos um futebol leite com pêra?

Desafio o leitor a encontrar um estádio com nome mais maneiro do que Moça Bonita. Nem tente, não há nada melhor no mundo. E olha que o nome verdadeiro do estádio é Proletário Guilherme da Silveira Filho, e você pode chamar só de Estádio Proletário. Francamente, com um concorrente desses quem é que vai querer visitar o Camp Nou (ou Nou Camp, dependendo de sua corrente ideológica), o Giuseppe Meazza (e todo aquele lenga-lenga de San Siro) ou até a Bombonera (“Legal… É uma caixa de bombom!”)?

Por uma falha de caráter, estive em Moça Bonita apenas uma vez na vida. Era um jogo do Bangu pela Série B do Carioca. Havia menos de 300 pessoas por ali, mas tinha mais de uma facção de torcidas organizadas, charanga, uma placa na bilheteria dizendo: “Não peça ingressos. Colabore com o Bangu” e até um torcedor irlandês do eterno clube do bicheiro Castor de Andrade. Se isso não é um estádio com muita vida (e olha que eu não falei da tia vendendo café), já não entendo mais nada de futebol.

Acontece que o futebol tem passado por um revolução de costumes. Enquanto os velhinhos da International Board ficam tentando conter a presença de tecnologia no jogo, o que eles deviam escrever lá no livro de regras é que estádio de futebol tem que ter cerveja, torcidas com sinalizadores e, é claro, aquele cimento sujo. Ao invés disso, o nosso esporte tão querido está cada dia mais leite com pêra. Daqui a pouco aquibancada vai virar cenário do Mulheres Ricas.

Deve ser por isso que os recentes jogos de Fluminense, Vasco e Botafogo em Moça Bonita e Conselheiro Galvão renderam tantos comentários do tipo: “parece que voltamos ao amadorismo” (o que, na verdade, nem seria uma coisa de toda ruim). Vivemos numa sociedade em que o sujeito que vai a um estádio desses vê um vestiário com porta de madeira e faz cara de nojinho, olha um placar manual old school e solta um “ai, que absurdo!” e, ainda por cima, pede refrigerante light no bar que só vende refresco.

Esses campos guardam parte da história do futebol carioca. Ao lado dos estádios do Bangu e do Madureira estão Rua Bariri, Figueiro de Melo, Leônidas da Silva, Ítalo del Cima e Luso-Brasileiro (Estádio dos Ventos Uivantes, outro Top 10 de nome), uns com mais e outros com menos importância. Esses estádios são o que de mais próximo ao futebol profissional existem nos bairros que os cercam, mas de fato quase todos estão largados às traças, o que é uma falta de respeito com jogadores e torcedores. A parte boa é que o Carioca de 2012 tem feito o serviço público dar visibilidade ao problema.

Se num primeiro momento a reação coletiva tem sido questionar a volta dos times grandes aos pequenos estádios, o rumo da discussão merece mudar logo. O sucateamento dos nossos campos, da arquibancada ao gramado passando pela bilheteria e alambrados, acontece apenas cinco meses depois da federação estadual inaugurar sua luxuosa sede. Extravagâncias à parte, é preciso repensar como esse dinheiro poderia ter sido melhor gasto e se queremos viver numa cidade (e num país) em que as memórias vivas mais distantes de estádios são os Jogos Pan-Americanos de 2007.

PS: O Bonsucesso mandou sua partida contra o Macaé que teve apenas 10 pagantes, nesta quarta-feira, em Edson Passos (o estádio do América, em Mesquita). O simples fato do Leão da Leopoldina não poder mandar seu jogo em casa já diz muito sobre o esquecimento dos estádios carioca. Se fosse por lá, tenho certeza que veríamos mais do que o dobro de torcedores!

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo