Que isso, companheiro Valckinho, que isso!

Aldo Rebelo se preparava para deixar sua sala em mais um dia cansativo no Ministério dos Esportes. Eis que um assessor irrompe à sua frente com um papel.

– Companheiro ministro, você não sabe o que aquele gringo de merda falou? Leia aqui.

Rebelo passa os olhos sobre as linhas impressas da folha com informe da Reuters. A cada linha a cara de espanto aumenta. Possesso, ele diz:

– O que é isso, companheiro assessor? Esta merda está toda em inglês. Inglês é o cacete. Não quero nem saber que porra é essa – esbraveja em bom português Rebelo, autor do projeto de lei contra “estrangeirismos” e em proteção da língua portuguesa.

O assessor explica que Valcke disse que o assunto era importante, que era um insulto diplomático, que o secretário mandou o Brasil tomar um “kick up the backside”.

– Mas que deselegante esse companheiro. Você está falando sério? Isso não pode acontecer com um país que quer receber Copa do Mundo. Vamos fazer um pronunciamento oficial. Toma nota aí!

E Rebelo começa a ditar algumas palavras ao assessor do Ministério dos Esportes.

“É com profunda tristeza que recebo as palavras do secretário da Fifa Jérome Valcke. Este senhor não pode falar desta forma com ninguém, muito menos com o país do futebol. Esta chuleza… (Peraí, existe chuleza? Chulo flexiona?)

(Bom, vamos lá, troca isso).

Esta falta de consideração para com nosso povo me deixa estupefato. Este ordinário, que não conheço como droga nenhuma, era um relés jornalista do Canal +. Agora já fala em chutar a bunda dos outros.  Ele quer a Copa pronta e ainda quer raspada? E tem mais: está muito mal informado. Como ele pode dizer que estamos mais interessados em ganhar a Copa do que organizar a Copa? Ele sabe quem é o nosso treinador? (Interrupção)

– Mas, ministro, desta forma você vai acabar provocando mais polêmica. O Mano vai ficar brabo com você. Não cutuca o homem – pede, calmamente, o assessor.

– Huuummm… Verdade. Vou mudar. Vou maneirar. Vamos lá…

“Ele está mal informado sobre nossas providências. Estamos empenhados em resolver tudo para que façamos a melhor Copa de todos os tempos. Portanto, em contrapartida, não vamos dar hotel nem almoço em Copacabana para esse gringo descansar quando vir ao Brasil. Manda ele para São Paulo. Além disso, eu não recebo mais esse senhor. Quando ele ligar, o papo vai ser de secretário para secretária. Dona Carminha, secretária do terceiro andar do Ministério dos Esportes, será a interlocutora para assuntos com este senhor.” E aí, ficou bom? Entendeu a sacada, agora vai ser coisa de secretário para secretário, para ficar do mesmo nível.


O assessor lê a nota em voz alta. Diz que lhe parece um pouco infantil, mas Aldo Rebelo nega. Diz que já leu coisas piores por aí. E lembra que quem fala o que quer, lê o que não quer.

– Na próxima, vou colocar ditados populares para esses gringos se desdobrarem em entender. A gente já começa assim: “Este secretário acha que fazer estádio, privatizar aeroporto, licitar obra é igual a abrir uma conta na Suíça, no tempo que se amarrava cachorro com línguiça”.

O assessor ri, mas decide marcar uma coletiva de imprensa para o dia seguinte. Aldo, consternado, pega sua pasta e vai para casa. 

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