Quando o futebol para no tempo

Na velocidade dos tempos modernos, que atropela e arrasta o futebol junto – e cria um distanciamento criminoso entre o jogo e o seu principal personagem, o torcedor – venho destacar que sou um felizardo! Sim, encontrei algo que povoa a exasperação de todo torcedor, que já tratou esse assunto como um sonho e agora está nos autos da paixão como um devaneio impossível. 

Descobri um lugar onde o futebol parou no tempo. Antes de tudo, quero frisar: não sou um romântico e nem prego a máxima apaixonada (e descontrolada) “futebol bom está morto, fazendo companhia ao passado”. Mas é uma dádiva para quem aprecia realmente o dito cujo poder falar, altivo, que vai a um estádio e se sente realmente próximo da sua paixão. 

Estou me referindo ao “João José Silva Simplório”, gloriosa casa e palco das pelejas do igualmente destacado e ilustríssimo “Folha Seca Associados e Futeboleiros” – a equipe ganhou alguma notoriedade após o mestre Didi ter o seu venenoso e elegante chute batizado também de “folha seca”. Muitos, inclusive acreditam que o clube foi fundado após o sucesso do arremate do Príncipe Etíope. Mais uma injustiça que os anos ainda não conseguiram corrigir para o “Folha Seca Associados e Futeboleiros”. 

Assistir a um jogo de futebol é igual em qualquer lugar, pode garantir alguém prontamente. Um estádio, dois times, trio de arbitragem, torcida… Contudo, não é a conjuntura da obra que transforma algo em uma coisa única, diferente, mas sim as suas nuanças. No “João José Silva Simplório”, um chute desferido do campo pode atingir uma antena, uma caixa d'água de uma residência próxima ou até mesmo um azarado torcedor, dependendo do local que ele estiver sentado na arquibancada. 

O futebol globalizado desaparece no “João José” e sinto como se estivesse no passado, como se um parêntese fosse feito no presente e me apresentasse como a paixão era tratada em tempos distantes: “eis aqui meu amigo, como os homens honrados e íntegros, dentro do campo e fora dele respeitavam o futebol como ele merece.” Parece que por um momento o estádio se torna íntimo de cada um que está lá, o que vira motivo de orgulho. O lugar parece uma homenagem àqueles que fizeram do futebol o que ele é hoje. Uma honraria correta aos correlatos desprezados por tempos que prezam e valorizam tudo o que não tem importância. 

Infelizmente o “João José Silva Simplório” é esquecido por muitos e não é lembrado por tantos outros. Nos dias de hoje, preterimos a origem de tudo e muitas vezes nem lembramos quem somos. E dentro desse espírito de imediatismo e superficialidade em que convivemos e passamos a adotar, o futebol entra nesse contexto e caminha nessa vala comum da ignorância humana. Mesmo que em muitos lugares existam outros estádios “João José Silva Simplório” para deixar vivo na nossa memória que o futebol é justamente diferente pela simplicidade que sempre ostentou. 

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Equipe Trivela

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