Pura emoção para os Blues

O ar ficou mais pesado em Londres quando o chute despretensioso de Ryan Babel foi desviado para as redes por um soco mal planejado de Petr Cech. Faltavam apenas quatro minutos na prorrogação e o Liverpool ainda teria de marcar novamente para matar, pela terceira vez, o sonho do Chelsea de chegar a sua primeira final na Liga dos Campeões. Só que o palco do jogo decisivo desta vez não era Anfield. Era Stamford Bridge. Em sua fortaleza, os Blues se seguraram até o final, venceram por 3 a 2 e riram por último sobre os Reds.

Um desfecho diferente teria sido especialmente frustrante para três figuras emblemáticas do atual Chelsea. A começar por seu técnico, Avram Grant, que lidou com uma onda de desconfiança, de fora e de dentro do clube, para levar o time aonde nem seu antecessor, José Mourinho, conseguiu. Não significa que o israelense, homem de confiança de Roman Abramovich, seja melhor – até porque ele guia um time elaborado por Mourinho – mas já é hora de dar-lhe sua parcela de méritos na caminhada.

Quando se ajoelhou no gramado após o apito final, Grant não estava apenas dando graças pela classificação. Ele pensava em seu pai, um sobrevivente do Holocausto, que teve de enterrar com as próprias mãos familiares mortos em Auschwitz. Coincidentemente, naquele dia se celebrava a memória do Holocausto em Israel, e para o dia seguinte o técnico tinha planejado uma visita aos antigos campos de concentração.

Frank Lampard teve de tomar uma importante decisão antes do jogo: voltar ou não ao time, depois de perder sua mãe na quinta-feira anterior? O delicado estado de saúde de Pat Lampard já havia influenciado negativamente em suas atuações, como no empate por 1 a 1 em Anfield, quando falhou no lance que originou o gol do Liverpool.

Lampard decidiu jogar, e foi um dos melhores em campo. Mais do que isso, assumiu a responsabilidade por cobrar o pênalti na prorrogação quando o jogo estava empatado. A coragem do meia foi recompensada com o gol, e quem acompanhava a partida pôde ver sua emoção ao comemorar sob o olhar do pai, Frank Lampard Sr., que assistia a tudo das tribunas.

Didier Drogba havia sido assunto nas declarações de Rafa Benítez antes da partida. O técnico do Liverpool não falava sobre o perigo que o marfinense representava como artilheiro, mas sobre sua tendência a se jogar para ludibriar a arbitragem. Cutucou a onça com vara curta e levou o troco.

Depois de marcar o primeiro gol, Drogba fez questão de comemorar deslizando de joelhos no chão diante do banco de reservas do Liverpool. A grande atuação foi coroada na prorrogação, com o gol que deixou o placar em 3 a 1.

Benítez havia abusado do direito de fazer pressão psicológica sobre os personagens do jogo. Acusou o árbitro italiano Roberto Rosetti de ser “caseiro”, e é até possível argumentar que tenha alcançado seu objetivo com a declaração, já que o gol anulado por impedimento passivo no tempo extra foi no mínimo controverso, ainda que o argumento seja aceitável.

Jogos mentais à parte, o treinador espanhol não esteve em seu melhor dia. Quando Benayoun enfim começou a entrar na partida, depois de fazer a jogada para o gol de Fernando Torres, foi retirado de campo para a entrada do fraco Pennant. E na prorrogação, depois que o Chelsea fez 2 a 1, Benítez inexplicavelmente substituiu Torres por Babel. Nem o gol do holandês justifica a alteração. Peter Crouch, que poderia ter um papel decisivo por sua imposição física no ataque, não foi nem considerado.

Assim, o Liverpool sucumbiu. E o Chelsea chegou a uma final que já estava amadurecendo – afinal, são quatro semifinais nas últimas cinco temporadas. A glória continental tão almejada por Abramovich pode chegar justamente em Moscou. Talvez seja o mais propício.

Aprendendo a sofrer

Ter um time brilhante ofensivamente nem sempre é a senha para conquistar títulos como a Liga dos Campeões. É preciso saber sofrer nas horas decisivas. Ao vencer o Barcelona por 1 a 0 em Old Trafford e voltar a uma final depois de nove anos, o Manchester United mostrou que agora sabe.

É verdade que poderia ter sido mais difícil se o Barça não fosse uma sombra do time que já foi. Seus esforços no ataque se limitavam a chutes sem direção de fora da área e a tentativas individuais de Messi, que foi o melhor jogador do confronto, mas não tem como resolver tudo sozinho. A participação de Samuel Eto’o foi um espetáculo patético.

Depois que Paul Scholes retribuiu com um chute no ângulo o belo presente que Zambrotta lhe deu na intermediária, o time de Alex Ferguson precisou exibir novamente as qualidades que lhe ajudaram a resistir no Camp Nou. Na zaga, Ferdinand esteve impecável como de costume, e ajudou até a elevar o nível do normalmente mediano Brown. Não passou nada por ali.

Quem também merece destaque como personagem da classificação do United é Carlos Tevez. O argentino não se importa em fazer sacrifícios. Pelo contrário, é algo que está em seu DNA. Carlitos tem de ser usado como exemplo pelo técnico que gosta de dizer que o trabalho de marcação começa pelos atacantes. Ele corre como se o mundo fosse acabar em alguns minutos.

Não é a mesma característica de Cristiano Ronaldo, por exemplo. Com o time jogando de uma forma que não lhe favorecia, o português foi um jogador omisso no confronto, e pela primeira vez na temporada levantou dúvidas sobre sua condição de favorito aos prêmios de melhor do mundo no final do ano.

Ferguson já deve ter na cabeça o time da final. Se existe um titular certo, é Scholes, que ficou fora da decisão de 1999 contra o Bayern de Munique por estar suspenso. A valorização dos senadores do grupo é uma qualidade louvável do treinador escocês, que consegue atravessar gerações e manter em cada uma delas o sentimento especial de vestir a camisa dos Red Devils.

Ter apenas um título europeu é muito pouco para um técnico deste nível. Com o segundo, começaria a se aproximar de algo à sua altura.

A grande final

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