Problemas diplomáticos

Entre os confrontos de Eliminatórias programados para 2008 ou 2009, há alguns que despertam especial interesse, como Brasil x Argentina, Nigéria x África do Sul, Inglaterra x Croácia e Alemanha x Rússia. Grupos da morte como a chave 1 da Europa – que tem Portugal, Suécia e Dinamarca, além de Hungria, Albânia e Malta -, ou a chave 1 da Ásia – que juntou Austrália, Iraque, Catar e China – também dão várias contribuições à lista de embates imperdíveis da qualificação para 2010.

A expectativa que cerca os duelos acima citados está ligada, primordialmente, a razões esportivas, como a rivalidade, o peso das seleções, a sede de revanche e outras. Em outros casos, porém, o suspense que emana da disputa deve-se a motivos políticos. Não foi pequeno o número de saias-justas diplomáticas provocadas pelo sorteio de Durban, no fim de novembro. Para cada confederação continental submetida à loteria das bolinhas, houve pelo menos um cruzamento entre países que não têm, digamos, muitas afinidades, tampouco simpatia mútua.

Antes de fazermos menção aos jogos que, daqui para a frente, farão a faceta política do futebol ficar em evidência, vale acrescentar que eles não serão os primeiros destas Eliminatórias. Em 2007, questões diplomáticas já haviam afetado confrontos como Nova Zelândia x Fiji (o goleiro fijiano Simione Tamanisau foi impedido de entrar na Nova Zelândia, por conta das relações de seu sogro com o golpe militar em Fiji) e Palestina x Cingapura (restrições à liberdade de ir e vir impediram que os palestinos comparecessem ao jogo fora de casa).

Abaixo, a relação dos jogos politicamente problemáticos que ainda vêm por aí.

Chade x Sudão

O acaso pôs, no mesmo grupo das Eliminatórias africanas, Chade e Sudão, países cheios de rusgas entre si. Se houvesse alguma possibilidade de o jogo servir para amenizar a crise que se instaurou entre tais nações, a coincidência até poderia ser qualificada como “feliz’, mas, no estágio em que a contenda se encontra, não parece haver “jogo da paz” ou “fair play” que dê jeito.

No início, a discórdia era apenas de sudaneses contra sudaneses – grupos rebeldes da região de Darfur, que se considera negligenciada pelo poder central, atacaram alvos do governo, ao que se seguiu uma dura resposta, dada não somente pelas forças oficiais governistas, mas também pela milícia Janjaweed, constituída por muçulmanos de origem árabe. Os habitantes da área de Darfur, majoritariamente negros, buscaram refúgio além da divisa com o leste de Chade. Desde então, o bárbaro conflito, que já ceifou a vida de centenas de milhares de pessoas, passou a incluir um segundo país. De relações rompidas, Chade e Sudão começaram a trocar acusações, ameaças e agressões.

Depois de certa demora, equipes da ONU estão sendo enviadas ao local, formando a maior força de paz do mundo atual. Aparentemente, o futebol pouco pode fazer nesse caso. Se as partidas transcorrerem sem distúrbios, já será lucro. Por falar nelas, estão marcadas para 30 de maio e 5 de setembro deste ano. O Sudão entre em ambas como favorito. Seu currículo apresenta a recente classificação para a Copa Africana de Nações e, em toda a história, não chegou a perder para Chade: obteve três vitórias e um empate. O grupo dos rivais políticos ainda tem Mali e Congo.

Turquia x Armênia

Esses dois países protagonizam uma das mais delicadas querelas diplomáticas da atualidade. E a razão remonta à época da I guerra Mundial. Uma grande massa de armênios residentes nos domínios do Império Otomano (talvez mais de um milhão) foi morta pelos turcos, que, segundo alguns registros históricos, pretendiam realizar uma “limpeza étnica” em seu território. Para os armênios, genocídio é a palavra que define o ocorrido. Essa também é a posição oficial de outros países. Na visão das autoridades turcas, entretanto, as baixas foram decorrências naturais do período de guerra, não tendo sido, portanto, deliberadamente causadas pelos turcos otomanos.

Hoje, a Armênia deseja o reconhecimento de culpa por parte da Turquia, que se nega a fazê-lo. A hostilidade entre os dois países é grande, e a fronteira está fechada.

Logo, o resultado do sorteio das Eliminatórias européias gerou certa apreensão. Espanha, Bélgica, Bósnia e Estônia completam o grupo 5 da Europa, que tem espanhóis e turcos como maiores candidatos às duas primeiras colocações. Os dois tensos confrontos entre Turquia e Armênia, tal como os demais jogos do grupo 5, serão agendados no dia 16 de janeiro. A Uefa acredita que as partidas serão realizadas sem problemas, mas está escaldada com um desagradável antecedente.

Embora a entidade sempre se esforce para fazer do futebol uma arma contra mazelas sociais, há situações que fogem ao controle, e o esporte, que poderia funcionar antídoto, acaba incrementando o veneno. Nas Eliminatórias para a Euro 2008, os jogos entre Armênia e Azerbaijão foram simplesmente cancelados, devido à inimizade entre as nações. Para evitarem esse tipo de contratempo, membros das federações da Turquia e da Armênia têm declarado que as partidas entre as duas seleções não têm nenhuma ligação com o debate político. Para ilustrar essa tese, Ruben Hayrapetyan, presidente da federação de futebol da Armênia, lembrou que, certa vez, jogadores turcos e armênios se hospedaram no mesmo hotel, sem que houvesse registro de comportamentos ofensivos.

Os dois times jamais haviam medido forças, salvo em categorias inferiores.

Estados Unidos x Cuba

É bastante provável que essas equipes venham a se enfrentar entre agosto e dezembro de 2008. Para isso, basta que os americanos superem o vencedor de Dominica x Barbados e que Cuba derrote o vencedor de Aruba x Antígua e Barbuda. Tarefas fáceis, dada a fragilidade dos oponentes. Confirmados esses resultados, deveremos ter o primeiro Cuba x Estados Unidos em solo cubano desde 1947. Valendo por Eliminatórias de Copa, os países se encontraram duas vezes, em 1949: 1×1 e 5×2 para os EUA, ambos os jogos na Cidade do México. Dois anos antes, ocorrera uma vitória de Cuba, em Havana – até hoje, foi esse o último confronto entre as duas seleções realizado na ilha.

A maior potência do mundo (não estamos falando de futebol, claro) cortou relações com a terra de Fidel em 1962 e lhe impôs um embargo. O futebol tendeu a acompanhar o distanciamento. Ao tomar conhecimento do resultado do sorteio, o capitão do time norte-americano, Carlos Bocanegra, disse: “Jogar em Cuba seria uma nova experiência”. A observação de Bocanegra parece um tanto óbvia, mas a sensação de novidade é tão intensa que justifica o entusiasmo.

Coréia do Sul x Coréia do Norte

Entre 1950 e 1953, as duas Coréias estiveram em guerra. Desde então, são adversárias políticas. Nos últimos tempos, contudo, tem havido evolução no processo de reconciliação.

Pelo fato de já ter acontecido várias vezes (sempre com vitória da Coréia do Sul), inclusive em Eliminatórias de Copa, a polêmica em torno do desafio já não é tão grande.

CURTAS

– Inglaterra e Cazaquistão, componentes do grupo 6 da Europa, também têm sua pequena desavença.

– Nada muito sério, porém.

– O comediante britânico Sacha Baron Cohen interpreta, na TV inglesa, o personagem Borat Sagdiyev, um tacanho jornalista cazaque.

– A figura fictícia não agrada às autoridades governamentais cazaques. Segundo elas, Borat cria uma imagem falsa e injusta do país.

– Ou melhor, criava, já que, em dezembro de 2007, poucos dias após o sorteio de Durban, Cohen anunciou a aposentadoria do personagem.

– No próximo dia 14, em Zagreb, será confeccionado o calendário dessa chave das eliminatórias européia.

– Outro duelo que suscita questões diplomáticas é Colômbia x Venezuela.

– No primeiro turno das eliminatórias sul-americanas, os colombianos venceram por 1 a 0. A partida ocorreu no último 17 de novembro, dias antes de Hugo Chávez declarar que estava pondo suas relações com a Colômbia “no freezer”.

– O jogo de volta vai acontecer em abril de 2009.

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Equipe Trivela

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