Perseguição contra brasileiros

“Joguei sim…. Joguei um monte de salgadinho pra barriga lá na área vip,rsrsrs”. “Nao entrei porq o chefe não sabe o que eh futebol”. “Ta complicado!!!! Tão me impedindo de trabalhar…”. “Pois eh…. O cara não coloca nenhum brazuca…. Brincadeira!!!!”. “Contrata pra que? Pra iludir agente? Pensam que somos idiotas!!! Ta de brincadeira…”. “99% dos clubes usam o que tem de melhor,,,só aqui que não… “Ai galera!!!! Ta de brincadeira ou não?”.

Todas essas frases, transcritas acima no original, foram escritas pelo atacante Guilherme, do Dynamo Kiev, em seu twitter (@Guilherme_G11). Ele se refere à derrota do seu time para o Sheriff Tiraspol, nesta quinta-feira, pela Liga Europa, por 2 a 0, pela segunda rodada do torneio, e ao técnico da equipe, o russo Valery Gazzaev.

O brasileiro foi relacionado para a partida, viajou com o grupo para Moldova, mas não ficou no banco de reservas.

Não vou me alongar em uma questão básica: um jogador não pode fazer essas críticas, desta maneira, publicamente. Isso para mim está bem claro. Mas Guilherme, como a maioria dos companheiros de profissão, não tem a menor ideia da dimensão que as redes sociais possuem. Ele, ao escrever tudo isso, certamente nunca imaginou que repercutirá na Rússia. E garanto: irá.

Vamos, então, analisar alguns pontos colocados pelo talentosíssimo atacante, revelado pelo Cruzeiro. Pontos, aliás, clichês em discursos de “brazucas”.

Guilherme diz que Valery Gazzaev não sabe o que é futebol. Além disso, afirma que ele não coloca os brasileiros para jogar. Por fim, diz que o Dynamo não usa o que tem de melhor no elenco.

Gazzaev, para quem não sabe, é um treinador de 56 anos, que está no clube ucraniano desde o ano passado. Seu período mais vitorioso na carreira foi no comando do CSKA Moscou, entre 2004 e 2008. Pelo Exército Vermelho, ganhou três campeonatos nacionais, três Copas e uma Copa da Uefa. Foi nesse período que os brasileiros ganharam espaço no futebol russo.

O bigodudo treinador é fã confesso do futebol “brazuca”. Levou para o CSKA vários jogadores, como Vagner Love, Daniel Carvalho, Dudu Cearense, Jô e outros com menos talento, como Ramón e Ricardo Jesus. Ele foi um dos principais responsáveis por abrir o mercado russo para os brasileiros.

Agora, no Dynamo, tem escalado, sim, atletas brasileiros. Contra o Sheriff, é verdade, nenhum foi titular, mas nos últimos jogos do Campeonato Ucraniano, da Copa da Ucrânia e na primeira partida da Liga Europa os “brazucas” estiveram presentes.

O elenco do Dynamo conta com Danilo Silva (operou o nariz há duas semanas), Betão, Gerson Magrão, André, Leandro Almeida e Guilherme. Destes, apenas os dois últimos não têm jogado com regularidade.

Fiz um pequeno levantamento dos últimos jogos:

30/09: Sheriff 2×0 Dynamo Kiev – Liga Europa (nenhum brasileiro)
26/09: Dynamo Kiev 3×2 Arsenal Kiev – Camp. Ucraniano (Betão entrou no segundo tempo)
22/09: Krymteplytsa 0x1 Dynamo Kiev – Copa da Ucrânia (Betão, Leandro Almeida, André e Guilherme titulares)
19/09: Zorya 1×2 Dynamo Kiev – Camp. Ucraniano (Betão e Gerson Magrão titulares, André entrou no segundo tempo)
16/09: Dynamo Kiev 2×2 BATE Borisov – Liga Europa (Betão, Magrão e Leandro Almeida titulares, André entrou no segundo tempo)
11/09: Dynamo Kiev 2×0 Metalurh Zaporizhya – Camp. Ucraniano (Danilo Silva e Gerson Magrão titulares, Betão entrou no segundo tempo)

Ou seja, dá para perceber que eles, na maioria, são reservas, mas também recebem oportunidades. Pela Copa, enfrentaram o fraquíssimo Krymteplytsa, da segunda divisão, e sofreram.

O Dynamo joga com dois atacantes, Artem Milevskiy e Andriy Shevchenko. O primeiro sempre teve muita moral no clube e na seleção, e o segundo, apesar de não ser mais o mesmo dos tempos de Milan, é provavelmente o melhor jogador ucraniano de todos os tempos.

Outro detalhe importante: em 17 de setembro Gazzaev pediu para deixar o cargo, mas a diretoria não aceitou. Ou seja, ele tem total apoio.

Guilherme tem todo o direito de reclamar, mas não com os argumentos utilizados. Essa suposta perseguição a brasileiros é ridícula, ainda mais tratando-se de Valery Gazzaev.

Adendo: acho válido lembrar também que Guilherme foi contratado pelo Dynamo em 2009 e emprestado ao CSKA Moscou (já sem Gazzaev) no mesmo ano. Foi muito bem na Rússia, mas não houve acordo entre os clubes para sua transferência. Por isso voltou à Ucrânia.

Atualização, 01/10, às 15h00: Valery Gazzaev deixou o comando do Dynamo Kiev. Ele, mais uma vez, entregou uma carta de demissão à diretoria e o pedido, agora, foi aceito.

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