Pernambuco, ano 1 d.C.A.

As pessoas passam e a instituição fica, é o que dizem por aí. Só que algumas pessoas ficam por tanto tempo, que até parece que não passarão mais. No ano passado, faleceu Carlos Alberto de Oliveira, presidente da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), que estava no cargo há longos 16 anos. Nada de novo em uma sociedade onde senadores, deputados, vereadores, diretores de variados tipos de instituições e até síndicos de condomínio se perpetuam em seus cargos até que o corpo peça arrego ou a fonte de mamata seque. Como também não é novidade a sensação de terra arrasada que fica quando aquele sujeito finalmente larga o osso.

Os pontos mais festejados da gestão de Carlos Alberto são a interiorização do futebol pernambucano e as grandes médias de público dos clubes locais. De fato, quando ele assumiu a federação, Caruaru (a 130km do Recife) era uma espécie de limite não-declarado. Nos últimos anos, os times sertanejos conseguiram se firmar na primeira divisão. Petrolina, por exemplo, fica a 730km da capital, e chegou a ter dois representantes na 1ª divisão, simultaneamente. O destaque é o Salgueiro, que chegou a jogar a Série B do Brasileiro e, em 2012, incomoda os grandes, tendo perdido apenas uma das seis partidas disputadas contra eles. Mas há de se relativizar o mérito da federação nessa mudança, que é fruto também do crescimento econômico da região.

As médias de público são boas, mas o pernambucano sempre teve o hábito ir a campo em massa. A campanha que troca notas fiscais por ingressos é interessante para o torcedor, só que mascara a real capacidade dos clubes em atrair torcedores para seus defasado estádios. Defasados é até bondade, são sucateados mesmo, assim como o futebol local como um todo. Náutico, Santa Cruz e Sport não conseguem mais se firmar na Série A. O calvário pelo qual passam os tricolores, com direito a visita ao subsolo do inferno, poderia muito bem ter acontecido aos rivais, já que a forma com que os três são administrados é muito parecida.

Comparativamente, o inchaço do Campeonato Pernambucano é ainda mais danoso que o do Paulista. São 12 participantes, fazendo jogos de ida e volta para definir os classificados para as semifinais. Ou seja, absurdas 26 datas para o estadual. Em 2011, o ápice da bagunça: as 7 primeiras rodadas foram espremidas em 15 dias, arrebentando qualquer planejamento de pré-temporada. O nível técnico da edição atual é fraquíssimo, como prova a desastrada participação dos clubes na Copa do Brasil. O Santa parou no acanhado Penarol-AM; Sport e Náutico sofreram goleadas contra Paysandu e Fortaleza, respectivamente. Pra completar, o craque do estadual é o veterano Marcelinho Paraíba, por absoluta falta de concorrência.

Oportunidade desperdiçada

 

Os defensores de Carlos Alberto o enaltecem por ter sempre lutado pelos interesses de Pernambuco, chegando a ser um dos opositores mais ferrenhos da CBF. Mas a disputa entre Carlos Alberto e Ricardo Teixeira era puramente territorial, dois coronéis querendo empurrar a cerca de arame farpado para dentro da fazenda do outro. Quando esqueceram por que estavam brigando (ou acharam que o jogo de cena já não se fazia mais necessário), voltaram às boas. Carlos Alberto morreu dias antes de chefiar a delegação de um amistoso do Brasil em Londres e estava todo empolgado com essa camaradagem.

Diante de um regime intransigente, os clubes pernambucanos perderam o costume de opinar e se infantilizaram, aceitando passivamente as ordens que vinham de Carlos Alberto. Para se ter uma ideia do estilo de comando do dirigente, não era raro que ele reagisse a perguntas de jornalistas sobre as constantes mudanças de regulamento do Pernambucano com a frase “o campeonato é meu e eu faço o que eu quiser com ele”. Infelizmente, parte da imprensa esportiva pernambucana, que vivia às turras com o dirigente, confundiu respeito à família do defunto com conivência e as reportagens especiais sobre a sua morte chegavam quase a canonizá-lo.

A autocrítica do futebol pernambucano ficou para depois. Sport e Náutico subiram para a Série A e o Santa finalmente se livrou da D. Seguindo a ótica do futebol de resultados, a discussão sobre o legado de Carlos Alberto e a falta de estrutura do futebol local foram adiadas e só retomadas agora, que os clubes passaram vergonha em uma competição nacional. Amanhã, começam as semifinais do Pernambucano. O Salgueiro, sonhando ser o primeiro clube do interior a conquistar o título, pega o Santa, que fez as pazes com sua torcida, enquanto no domingo, Náutico e Sport fazem um clássico de times pressionados. Promessa, enfim, de emoções. Outra ótima oportunidade para abstrair de uma realidade inconveniente, empurrando mais um pouquinho com a barriga a urgente necessidade de lidar com ela.

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Equipe Trivela

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