Pelé tem direito de defender seu legado

As palavras de Pelé já me indignaram. É lógico que estou falando daquela entrevista em que decretou a impossibilidade de o povo brasileiro saber votar. Um ídolo popular dizendo, durante a ditadura militar,  que o povo não sabe votar, é muito triste.

As atitudes de Pelé também me indignaram. Não reconhecer a filha e não reconhecer os netos é algo muito triste, atitude mesquinha e criminosa.

Os fãs de Pelé e ele mesmo – e não há maior fã de Pelé do que o próprio Pelé – creditam essas frases ao Edson, mas me recuso a fazer a distinção. O ídolo e o cidadão são a mesma pessoa. Não vamos aceitar um personagem que fique com as merdas e outro que aproveite as glórias. A Lei Pelé, que considero o fim da escravidão do jogador de futebol, é de Pelé ou de Edon?

O modo como entendo a vida, os meus valores fazem com que geralmente eu me irrite com as idéias de Pelé. Gostaria de vê-lo lutando contra o racismo, por exemplo. Mas não é assim. Fazer quê?

Diante de tantas desilusões que já sofri com as palavras de Pelé, não vejo nada de errado na defesa que faz de seu legado. Tento me colocar em seu lugar. Tricampeão do mundo, bicampeão do mundo, maior artilheiro da história do futebol, atleta do século e sempre tendo os argentinos como parâmetro de inimigo, vejo meus compatriotas me comparando com um …. argentino. Um, não. Porque antes de Messi houve Maradona. E antes de Maradona, houve Di Stefano.

Ah, como seria bom se Pelé se portasse como um lorde inglês. “Realmente, eu fui ótimo, fui o melhor, mas Lionel Messi está conquistando coisas que eu vi de longe. Penso realmente que deveria ter aceitado uma transferência para o futebol europeu…” Seria bonito, seria lindo, mas não é assim.

Pelé não é um lorde. Não é um gentleman. É politicamente incorreto, gosta de lembrar que comeu a Xuxa, desafia Roberto Carlos a ter um filho depois de velho, falou besteiras mil. Mas jogou muita bola. E é isso que está defendendo. Aos 70 anos, sente-se desafiado, desrespeitado, não quer ser esquecido, não quer ser confrontado.

É feio, mas tem o direito de dizer que Messi não é bom como Neymar. Talvez ele pense isso mesmo. Seria apenas mais um erro de avaliação.

Prefiro me indignar com a sua falta de cidadania do que com sua falta de modéstia.

Observação – Eu acho que Pelé pode ser alcançado um dia. Não creio que será alcançado por Messi.

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Equipe Trivela

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