Pelé não é Virgem Maria

Roma locuta, causa finita. Assim, em latim, a Igreja Católica defendia a infalibilidade (Tite tinha antecessores) do Papa. Roma falou, não se discute mais. É hora de aceitar. Um dos muitos dogmas da religião e sua estrutura vertical. A virgindade de Maria é outro. Maria continuou virgem após o nascimento de Jesus, seu filho. Explicação? O Espírito Santo. E ponto. E pronto. Não se discute. É um dogma. Roma falou.

Muitos saudosistas tratam o futebol assim. Tudo de antes era melhor. E o maior dogma refere-se a Pelé. Ele foi o maior de todos e continuará sendo por todos os tempos. Impossível ter alguém como Pelé. Por quê? Porque sim. É um dogma. Roma locuta.

Pelé advoga em causa própria. Para ele, nunca haverá outro porque Dondinho e Celeste fecharam a fábrica. Ou, como diz sempre, só haverá um Pelé porque só houve um Beethoven.

Ora, Pelé, tem muita gente que prefere Mozart. E, sinto informá-lo, há um número cada vez maior de pessoas que colocam sua infalibilidade à prova.

Eu acredito ser perfeitamente possível haver um jogador melhor do que Pelé. Por que não? A vida continua e outros gênios vão aparecer.

O que eu não gosto é que muita gente, ao defender a possibilidade de existir um novo Rei, em vez de apontar qualidades em Messi – o novo candidato – busca desqualificar as conquistas de Pelé.

Dizem que a Liga dos Campeões atualmente tem mais valor do que uma Copa do Mundo. Argumentam que a Copa, realizada de quatro em quatro anos, em um período em que os atletas não estão em seu melhor condicionamento físico, não pode mais ser o único item considerado quando se elege o melhor do mundo.

Tudo bem, vamos aceitar que sim. Mas, no tempo de Pelé, era. E Pelé brilhou nas Copas como ninguém. Sua estréia em 1958 não pode ser comparada a nada. O gol contra Gales, com um chapéu e o toque no canto baixo do goleiro, foi uma obra de arte minimalista. E houve outros gols.

Ora, se Menotti não levou Maradona ao Mundial de 78 e se Pekerman deixou Messi no banco de Saviola em 2006, não é culpa de Pelé. Ele foi escalado por Feola e mudou o campeonato. Mudou o futebol, contribuindo e muito para que o Brasil – o maior de todos os campeões – vencesse pela primeira vez.

É muito forte o argumento de que Messi ganhou três Ligas dos Campeões. Mas não se pode enfraquecer as conquistas de Pelé.

Outro argumento contra Pelé é hilário. Ele teria jogador ao lado de monstros da bola, enquanto Maradona, coitadinho, teve poucos grandes jogadores ao seu lado. Em 58, havia Nilton Santos, Didi e Garrincha. Em 70, Carlos Alberto Torres, Gerson, Tostão e Rivellino. Sem dúvida, Maradona nunca teve tanta gente boa a seu lado, mas quem mandou ser argentino e não brasileiro? E, em 94, Maradona tinha Redondo, Balbo, Batistuta e Caniggia, um time fantástico. Destruído pelo seu doping – muito mal explicado até hoje. E se não tivesse sido dopado? Ah, não sei. Eu acho que seria campeão do mundo, mas correu o risco e não foi. 

Interessante é que os que “acusam” Pelé de haver jogado com craques não valorizam esses craques. Não colocam Garrinhca, Didi, Rivellino e outros entre os 10 mais. Esse argumento de jogar bem com jogadores de menor nível não enfraquece Pelé. Enfraquece Messi, que, mesmo jogando bem e sendo o melhor da Argentina, não a leva a finais de Copa como Maradona levou.  Acredito que, por isso, a maioria dos argentinos ainda prefira o Pibe.

A carreira de Messi está em construção. Acredito que estará no auge em 2014. Pode vencer a Copa aqui no Brasil e se aproximar de Pelé. Pode até ser melhor do que Pelé (embora eu não acredite). Mas, para que isso tenha valor, não é necessário tentar desqualificar as três Copas, os dois Mundiais e as duas Libertadores de Pelé. Quem faz isso está desqualificando inclusive o novo Rei do Futebol. Quando houver um.

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Equipe Trivela

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