Pela metade

 Com a vitória do Bragantino sobre o ABC por 3 a 0 na noite do sábado (22), terminou o primeiro turno do Campeonato Brasileiro da Série B. Hora de analisar como foi a caminhada dos vinte clubes até a metade desta que é considerada, por quem já conhece e até mesmo por quem nunca caiu ou subiu, uma das jornadas mais difíceis do futebol nacional.

A compreensão da Segundona de 2009 é importante para saber qual o impacto causado pela participação do Corinthians no ano passado. De fato, a competição não desperta tanto a atenção, mesmo tendo um clube de massa como o Vasco. Mas, ainda assim, cada presença de um dos grandes faz com que a importância da Série B aumente consideravelmente, junto com sua dificuldade. Até por isso, a CBF mudou a Série C e criou a Série D, ajudando a conferir à segunda divisão um status inédito de torneio rentável e atrativo.

Tamanha atração, contudo, ainda não foi suficiente para alavancar a média de público. Pelo contrário: de 2006 para cá, o número só tem caído: de 7.958 no ano do acesso do Galo para 6.291 em 2008, mesmo com a participação do Corinthians. A edição atual registra míseros 5.665 pagantes por jogo, mas com a ressalva de que nas rodadas decisivas a procura aumenta. Um fator que tem se mostrado decisivo é a participação de clubes com torcida reduzida, como Duque de Caxias, Bragantino, São Caetano e Ipatinga. Neste fator, os nordestinos dão show e têm sempre médias muito boas – foi assim em 2006 com Sport, Ceará, Remo e Paysandu.

A torcida pode estar avessa aos estádios também pelo nível do futebol apresentado. Se o empolgante Corinthians foi uma exceção, esta temporada tem mantido a regra. Nem mesmo o Vasco, notadamente dono do melhor elenco, consegue engatar dois ou três jogos empolgantes.

Durante o turno, três equipes destacaram-se por alcançarem uma sequência de resultados positivos: o Guarani, recém-promovido, começou fulminante com oito vitórias em dez jogos, mas caiu demasiadamente de produção; o Ceará, que chegou a estar na lanterna, recuperou-se com PC Gusmão e venceu cinco seguidas a partir da décima rodada; e o São Caetano, que parecia fadado à figuração ou à luta contra o rebaixamento, encaixou seu sistema defensivo e terminou o turno com uma forma impressionante, registrando a maior série de vitórias até aqui. Tamanha é a irregularidade e o equilíbrio que, mesmo assim, nenhum dos três é aposta firme de ninguém para o acesso.

A maior surpresa do campeonato é, sim, o Atlético-GO. O Dragão venceu a Série C com tranquilidade e, após um início irregular, encontrou-se e posicionou-se de maneira sólida na luta por uma das quatro vagas. Desempenhos individuais como o do meia Robston, apontado por Dorival Junior como o melhor jogador do primeiro turno, credenciam o rubro-negro goiano como um candidato sólido a figurar na Série A em 2010. Mais para o Avaí de 2008, que o tempo todo acompanhou o Corinthians de perto, do que para o Vila Nova, que na hora decisiva não soube se concentrar.

Concentração que faltou até aqui aos clubes grandes que chegaram à disputa como candidatos ao retorno à elite. Esperava-se de Portuguesa, Figueirense e Bahia (especialmente dos dois primeiros) um futebol mais consistente e uma maior força dentro de casa. No caso da Lusa, a ausência de Edno e dos resultados no Canindé transformaram o ambiente numa panela de pressão que estourou na primeira rodada do segundo turno, com invasão de vestiário e ameaças.

O Figueira, sempre tão forte no Orlando Scarpelli, teve campanha melhor fora do que dentro de seus domínios e paga o preço de ter perdido muitos jogadores importantes, ainda que esteja muito próximo do G-4. Só os gols de Rafael Coelho, artilheiro do campeonato mas que estagnou no final do turno, podem não ser suficientes. Junto à Ponte Preta, que insiste em tropeçar quando pode chegar nas primeiras colocações, este parece ser o grupo dos postulantes à comemoração em 28 de novembro.

Assim como abordado em coluna recente, o Bahia é uma equipe que de campanha tão irregular, possui números bastante parecidos. Times como Bragantino, Vila Nova, Ipatinga, Brasiliense e Paraná também não conseguiram decolar na tabela, patinando durante todo o turno com atuações bestiais e resultados bestas. Em todos estes casos, o problema é atuar como visitante – a queda na performance sob tais circunstâncias é típica de elencos desbalanceados, ainda que haja destaques individuais como Rafinha, do Paraná.

Finalmente, parecem restar ao final deste turno apenas duas vagas em “disputa” para a Série C do ano que vem. ABC e Campinense tiveram desempenhos pífios durante toda a trajetória, com incríveis 44 gols sofridos pelos paraibanos e apenas 13 marcados pelos potiguares. Nos dois casos, times extremamente voluntariosos mas sem criatividade ou organização.

Quem parece bastante encaminhado, após um início surpreendente, é o Duque de Caxias. A dependência exclusiva dos gols de Edivaldo têm sido prejudiciais ao caçula, já que o resultado só vem se o artilheiro comparece. Nem mesmo a ajuda de outros clubes cariocas, com vários jogadores emprestados, como Tony ex-Botafogo e Roberto Lopes ex-Vasco, têm surtido o efeito esperado.

Agonizando nesta virada de tabela, o Fortaleza sofre da síndrome do pós-gol: nas últimas rodadas, por diversas vezes sofreu gol instantes depois de marcar um, desestabilizando a equipe. O Leão deve brigar até o fim, como fez no ano passado – assim como fez e faz também o América-RN, dono de uma das melhores médias de público mas incapaz de transformar a pressão do Machadão em pontos. Pesa o fato do clube possuir muitas dívidas e não ter mais o retorno do investimento em veteranos como Souza e Sandro Hirosi: o primeiro tem atuado raramente e o segundo foi para o futebol coreano, interrompendo a ascensão que chegou a colocar o Dragão no G-4.

O Juventude, também bastante ameaçado, depende demais da criatividade do menino Zezinho, e é outro a falhar ao emular as campanhas de sucesso dentro do Alfredo Jaconi em tempos passados.

Com tudo isso, o cenário parece bastante delineado para as dezenove rodadas que faltam. Pode ser o momento de um upgrade na emoção do campeonato, que até aqui ficou devendo até mesmo na briga tão costumeira da Segundona. Perceber que o Vasco pode ter uma campanha igual à do Corinthians pode atestar, ao final desta temporada, que a distância entre os clubes da elite e os relegados ao segundo posto realmente aumentou, ao ponto de transformar os promovidos em meros bate-volta. Ainda assim, surpresas como o Atlético-GO e revelações como Zezinho, Luan e Alex Teixeira mostram que vale a pena continuar de olho na Série B até o fim – mesmo que ele seja bom para alguns e péssimo para outros.

Confira os números do primeiro turno

Jogos: 190
Gols: 532
Média: 2,8

Artilheiros: Rafael Coelho (FIG) e Edivaldo (DUQ): 12 gols; Marcelo Nicácio (FOR): 10 gols; Élton (VAS): 9 gols

Melhor ataque: Atlético-GO (38 gols)
Melhor defesa: Vasco (11 gols)
Pior ataque: ABC (13 gols)
Pior defesa: Campinense (44 gols)

Maior série de vitórias: São Caetano (seis, da 14ª à 19 ª rodada)
Maior série de derrotas: América-RN (cinco, da 11ª à 15ª rodada)
Maior série invicta: Ceará e Guarani (onze, da 6ª à 16ª e da 1ª à 11ª rodadas, respectivamente)
Maior série sem vencer: Duque de Caxias (oito, da 7ª à 14 rodada)

Melhor mandante: Atlético-GO (23 pontos, 7V / 2E / 0D)
Melhor visitante: Vasco (15 pontos, 4V/ 3E / 2D)
Pior mandante: América-RN (10 pontos, 3V / 1E / 5D)
Pior visitante: Campinense (3 pontos, 1V / 0E / 8D)

Vitórias dos mandantes: 100 (53%)
Vitórias dos visitantes: 49 (26%)
Empates: 41 (21%)

Total de público: 1.076.312
Média: 5.665

Cinco melhores médias de público:
1) Vasco (18.321)
2) Ceará (14.978)
3) Bahia (11.099)
4) América-RN (7.675)
5) Guarani (6.493)

Cinco piores médias de público:
1) Duque de Caxias (295)
2) Bragantino (749)
3) São Caetano (1.038)
4) Ipatinga (1.316)
5) Atlético-GO (2.911)

Cinco maiores públicos:
1) Vasco 4×0 Ipatinga – 76.211 (19ª rodada)
2) Ceará 0x2 Vasco – 27.629 (2ª)
3) Ceará 1×0 Atlético-GO – 27.543 (16ª)
4) Bahia 2×1 Vasco – 25.376 (13ª)
5) América-RN 2×2 Vasco – 22.191 (17ª)

Cinco menores públicos:
1) Duque de Caxias 2×3 Figueirense – 125 (18ª)
2) Duque de Caxias 1×2 Vila Nova – 172 (4ª)
3) Duque de Caxias 4×1 América-RN – 186 (6ª)
4) Duque de Caxias 4×2 Juventude – 201 (2ª)
5) Duque de Caxias 2×1 Juventude – 253 (15ª)

Árbitros que mais apitaram:
1) Devarly Lira do Rosário (ES) – 6
2) Nielson Nogueira Dias (PE) – 5
3) Renato Cardoso da Conceição (MG) – 5

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