Onde as zebras não têm vez

Sem contestação. Foi assim que transcorreram as quartas de final da Euro 2012, onde os melhores seguiram adiante. Nos jogos com favoritos declarados, poucos sustos. Na partida mais aguardada, nenhum. Nenhuma emoção também, em compensação. E no único 0x0 da competição até aqui, ironicamente, muita diversão. Se faltou aquele resultado inesperado que torna o futebol tão apaixonante (e agoniante), sobrou a certeza de que todas as crianças foram tiradas da sala. As quatro seleções de melhor desempenho passaram pelo funil e não terão a companhia de intrusos na disputa pelo título.

Nas semifinais, clássicos de significado histórico: um entre vizinhos, outro entre duas das três seleções mais vencedoras do mundo. Alemanha e Espanha, tidas como favoritas desde o início das eliminatórias, só se contentarão com uma vaga na decisão, enquanto Itália e Portugal, inicialmente desacreditadas, já estão no lucro. A atual campeã encara quem nunca teve o gostinho de levantar a taça. E a maior vencedora da Euro enfrenta quem carrega um jejum de 44 anos no torneio. Três equipes que valorizam a posse de bola e contam com maestros refinados de um lado. De outro, um time brigador, que conta com o melhor jogador nascido no continente. Tem como dar errado? Não tem.

Acelera, Del Bosque

Até tem como dar errado, se a Espanha seguir conduzindo seus jogos em câmera lenta, como fez contra a França. Com Xavi, Iniesta e David Silva em noite de pouca inspiração, foi a vez de Xabi Alonso mostrar que não é apenas um coadjuvante de luxo. É ele quem mais arrisca passes verticais na Fúria e é justamente isso que tem feito falta a um time que controla a partida como nenhum outro, mas que tem sérias dificuldades em ser objetivo. Uma boa opção para mudar isso seria a entrada de Pedro, que parece recuperado de sua esquecível temporada pelo Barcelona e tem a ousadia (para os parâmetros espanhóis) de invadir a área adversária com a bola dominada, em direção à barra (Que audácia!).

Como nenhum figurão deve perder a vaga, a tendência é que Del Bosque continue guardando seus ponteiros e centroavantes para o segundo tempo. À exceção de Llorente, que parece estar sendo guardado mesmo é para 2014. Se a Espanha não empolgou, foi também porque os franceses não souberam desafiá-la. Blanc se mostrou perdido de novo, ao escalar a quarta formação diferente em quatro partidas da Euro. Se o infantil Nasri merecia a reserva, pôr Malouda de meia central foi uma piada. Os dois laterais direitos empilhados também não funcionaram, como mostrou Jordi Alba, na jogada do primeiro tento espanhol. A França tem para onde evoluir, mas não dará o passo que falta enquanto o elenco não souber conviver em harmonia. Ou, mais provável, enquanto não surgir o sucessor de Platini e Zidane.

Mandou bem, Paulo Bento

Inegavelmente, Portugal tem o elenco mais limitado entre os semifinalistas. Quando saiu a convocação para a Euro, brinquei que Cristiano Ronaldo se despediria da família como quem tem certeza de que vai morrer na guerra. Não só não morreu, como ainda pode voltar para casa com a mais alta condecoração possível. Boa parte do mérito é do técnico Paulo Bento, que montou um time sem brilho, mas muito esforçado. Contra os tchecos, mostrou inteligência, ao ordenar que Moutinho e Nani trocassem de posições. Com a participação de ambos, saiu a jogada na qual Ronaldo marcou o gol da vitória, cujo placar merecia ter sido mais amplo. Diante da Fúria, os lusitanos jogarão do jeito que gostam, no erro do adversário. Se é que eles erram. Mas com seu craque inspirado, a chance de surpreender não é desprezível.

Grazie, Prandelli

Apreciar uma saborosa massa regada a um bom vinho italiano, na companhia de uma bela e suculenta mulher de mesma procedência. Antes, para não quebrar o clima, você só deveria fazer isso enquanto via um filme ou ouvia uma canção romântica daquelas bandas. Agora, já pode desligar o DVD, dar um descanso à vitrola (taí um tipo de música que combina com o aposentado disco de vinil) e ligar a TV para ver uma agradável Azzurra em campo. Prandelli ainda sofre com a falta de renovação e de um trequartista incontestável, mas conseguiu mudar o estilo da consagrada seleção italiana. Nada de só defender, a Itália agora “propõe o jogo”, como reza o clichê boleiro da estação.

É verdade que, para ser atraente, o futebol da Azzurra ainda depende muito de Pirlo, dedicado na defesa, monstruoso na criação. Mas só a intenção de mudar a característica da equipe para adequá-la a novos tempos já merece aplausos. Um recado claro ao espanhol que acha que sua seleção não precisa chutar mais a gol ou ao brasileiro que torce o nariz para laterais que não chegam à linha de fundo o tempo todo. Não se trata de se render a modismos, mas de aprimorar o estilo de seleções já vitoriosas. Manter a identidade é essencial, o que não implica na reciclagem eterna de velhas obsessões. Pela ousadia, Prandelli já é um grande vencedor desta Euro.

Acredite nos meninos, Löw

O torcedor alemão tem bons motivos para estar confiante na sua seleção. Ela tem 100% de aproveitamento em jogos oficiais disputados após a eliminação na Copa de 2010 e apresenta um futebol convincente. O mais animador, no entanto, é que todos sabem que ela ainda pode jogar bem mais do que vem apresentando. E se o esquema começar a parecer manjado, as individualidades podem evitar que isso se torne um problema. Contra a Grécia, Reus e Schürrle trouxeram técnica e entusiasmo, superando as atuações anteriores de Müller e Podolski, que trabalham mais para o time, mas raramente desequilibram.

Joachim Löw fez bem em apostar neles, mas pode também optar pela experiência contra a Itália. A certeza é que serão municiados por um Özil cada vez mais participativo e pela cada vez mais afinada dupla formada por Schweinsteiger e Khedira. E que terão um centroavante que marca gols a rodo no comando de ataque. Com uma linha defensiva muito mais segura do que há dois anos, o que separa esta geração da glória é a necessidade de vencer suas revanches. Contra a Itália, carrasca de 2006, e, possivelmente, a Espanha, estraga-prazeres em 2008 e 2010. O Nationalelf é uma seleção na encruzilhada entre o céu e o trauma.

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Equipe Trivela

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