“O presidente manda tirar jogadores do time”

A Chechênia “perdeu”, recentemente, o posto de lugar mais perigoso da Europa para o Daguestão, em matéria publicada pela BBC. Não à toa as duas repúblicas fazem divisa e tornam o Cáucaso um calo na política da Rússia. Lá estão dois clubes bem distintos, o Terek Grozny, representante checheno na primeira divisão, e o Anzhi Makhachkala, o novo rico do país. E a realidade deles é bem distinta mesmo.

Entrevistei o atacante brasileiro Ewerthon, revelado pelo Corinthians, com longa carreira na Europa e que defendeu o Palmeiras em 2010. Ele foi contratado pelo Terek no segundo semestre de 2011 e durou pouco por lá – rescindiu o contrato amigavelmente. Não quis se aprofundar em temas mais delicados, mas deixou claro, por exemplo, que o polêmico presidente do clube, e governador da Chechênia, Ramzan Kadyrov, interfere diretamente na escalação.

Abaixo, a entrevista.

Como foi sua passagem pelo Terek Grozny?
Não sabia bem como eram as coisas na região. E há algumas coisas no futebol que a gente não concorda, lá vi o presidente mandar tirar jogador do time. Fora que a vida era casa/treino, treino/casa, não tinha mais nada para fazer.

A estrutura para os jogadores era muito ruim?
Para chegarmos no hotel onde concentrávamos, por exemplo, tínhamos que passar por duas barreiras com homens fortemente armados.Os times de Moscou são sérios, têm uma ótima infra-estrutura, o time do Roberto Carlos também. Vivem outra realidade, bem diferente da que vive o meu clube. Eram muito problemas para treinar, até mesmo para viajar. Usávamos um ônibus antigo, viajávamos por horas em estradas precárias, era muito complicado.

Os problemas maiores então foram com o presidente Razvam Kadyrov?
Tive pouco contato com ele no dia a dia. Isso que falei foi no intervalo de um jogo, ele desceu nos vestiários e mandou o técnico tirar alguns jogadores da equipe.

A Rússia enfrenta muitos problemas com manipulação de resultados no futebol. Você viu algo suspeito enquanto esteve por lá?
Claro que vemos coisas estranhas, mas não dá para acusar sem ter provas. Algumas coisas eu estranhei bastante…

Você conversou com seus compatriotas do elenco, o Maurício e o Antônio Ferreira, sobre sua decisão?
Sim, conversei com os outros brasileiros, mas estou com 30 anos, tenho currículo, cheguei na Europa para jogar no Borussia Dortmund, uma experiência inesquecível. O dinheiro é importante, mas não é tudo. A felicidade da minha família vale muito mais. Vi muitas coisas lá que não concordo, e isso não vale a pena na vida.

Eu ia te perguntar se você conversou com o técnico, Stanislav Cherchesov, mas parece que ele não apita em nada lá…
Tem o treinador, os diretores, quem manda… É complicado dizer… Ele afirmou que não queria que eu deixasse o clube, mas pensei bastante antes de tomar a decisão. Fico feliz por ter jogado na Rússia, por ter defendido o Terek Grozny.

E como é o cotidiano na região, uma das mais perigosas e conturbadas politicamente da Rússia?
O time vive em uma cidade próxima a Grozny, vai para lá somente em dias de jogo. É uma vida tranquila, onde somente treinamos. Não há shoppings, cinemas, nada para fazer. Não vi nada em relação a violência separatista.

Agora pretende voltar ao futebol brasileiro ou ficar na Europa?
Não tenho nada agora, mas estou esperando, negociando. Vou decidir o que é melhor para mim. Não tenho preferência, jogador de futebol não pode ter preferência.
 

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo