O Mundo, em um lance

Por Leonardo Rossato

Quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela seleção holandesa, no dia 2 de julho, todos ficaram com uma sensação de impotência e de tristeza, começando a refletir sobre os erros e acertos da seleção de Dunga.

No entanto, creio que muitos, incluindo eu, não terminaram o dia pensando na eliminação da seleção brasileira, mas em estado de êxtase (ou de revolta, dependendo de sua torcida) com o ocorrido no jogo entre Uruguai e Gana, transmitido para o Brasil no fim de tarde daquela sexta-feira.

Vamos recapitular, para os poucos que não se lembram: Uruguai em Gana empataram em 1 a 1 no tempo normal. No último lance da prorrogação, o atacante Luiz Suárez colocou a mão na bola para impedir um gol certo de Gana e foi expulso. Asamoah Gyan cobrou a penalidade na trave e, na decisão por pênaltis, o Uruguai se classificou para a semifinal da Copa, com direito a cavadinha na cobrança decisiva, realizada por Loco Abreu.

Um jogo de Copa do Mundo para a história. Uma partida para contar para os filhos. Um dos jogos que marcou a Copa de 2010. Mas o que isso tem a ver com a história do futebol? Com o mundo? É o que explicarei agora.

Algo que precisa ser elucidado: a semifinal de uma Copa do Mundo é um local restrito. Em oitenta anos de Copa do Mundo, apenas 24 países alcançaram as semifinais da Copa do Mundo. Apenas dois eles não são europeus ou sul-americanos: os EUA, em 1930, na primeira Copa do Mundo, e a Coréia do Sul, em 2002, na Copa que sediou (e contou com algumas colaborações da arbitragem, especialmente contra Itália e Espanha). África e Oceania nunca chegaram às semifinais da Copa do Mundo. Gana passou perto.

O que eu quero provar, aqui, não é a óbvia predominância de dois continentes no futebol, em relação aos outros.. É como a cultura futebolística explica o lance que definiu a vaga para a semifinal da Copa do Mundo: a mão de Luiz Suárez. Para isso, uma definição óbvia é necessária: o confronto era entre uma “escola sul-americana”, o Uruguai, e uma “escola africana”, Gana.

O futebol surgiu na América do Sul no final do século XIX, e logo ganhou popularidade, principalmente no Brasil, na Argentina e no Uruguai. Enquanto os brasileiros desenvolveram um jogo baseado na técnica e na habilidade, argentinos e uruguaios passaram o aliar boa técnica com muita raça e disposição (e um pouco de truculência, às vezes). Assim, o continente conquistou nove Copas do Mundo, e tornou-se o grande contraponto à organização e à variedade de estilos de jogo do futebol europeu.

Na África, por sua vez, a profissionalização do futebol é recente. O continente só conquistou seu primeiro triunfo em Copas do Mundo em 1978, com uma vitória da Tunísia sobre o México, e só passou a ter algum destaque após a ótima campanha camaronesa na Copa de 1990, em que os Leões Indomáveis de Roger Milla só foram parados pela seleção inglesa, nas quartas de final.

Desde então, alguns países africanos têm obtido destaque no cenário internacional. Exemplos disso são a seleção nigeriana da década de 90, que conquistou um título olímpico e chegou às oitavas de final da Copa do Mundo em duas oportunidades, a seleção de Senegal, quadrifinalista em 2002, e a própria seleção de Gana, que obteve bons desempenhos nas duas últimas Copas do Mundo.

Por sua vez, o Uruguai estava em trajetória decadente, surpreendendo a todos com o bom desempenho na Copa do Mundo, após se classificar apenas na repescagem contra a Costa Rica. Apesar da tradição, não freqüentava as fases eliminatórias de uma Copa do Mundo desde 1990.
A mão de Luiz Suárez, e, principalmente, as reações posteriores ao lance, expuseram as diferenças entre as duas culturas de forma gritante.
Enquanto os africanos, em geral, menosprezaram a atitude do uruguaio, vaiando a seleção charrua nos jogos seguintes, os sul-americanos, em geral, classificaram a atitude do atacante como um “ato de heroísmo”, e o elevaram à condição de “mártir” da brilhante campanha uruguaia na Copa do Mundo. Isso é reflexo da cultura futebolística dos continentes.

Explico: na América do Sul, você tem muito forte e arraigada a cultura de “ganhar de qualquer forma”. É honroso você utilizar qualquer meio para vencer uma partida de futebol. Hoje em dia, utilizam-se apenas meios lícitos, mas, até algum tempo atrás, intimidações e agressões também eram maneiras de vencer um jogo. Esse tipo de cultura futebolística era especialmente marcante entre as seleções do Cone Sul. Prova disso é que no lance em que Suárez evitou o gol certo de Gana com as mãos, Fucile também tentou fazê-lo. Qualquer uruguaio tentaria. É uma questão cultural.

Na África, por sua vez, o futebol tem se desenvolvido em um ambiente globalizado, marcado pela proeminência de seus jogadores em ligas européias e pela influência da FIFA, especialmente em assuntos como o Fair-Play e a luta ao racismo, bastante disseminados pela entidade nos últimos anos. Prova dessa afinidade entre a FIFA e os países africanos é a disposição de Sepp Blatter em modificar a regra do jogo em lances análogos ao ocorrido na partida entre Uruguai e Gana.

No momento em que Luis Suárez colocou a mão na bola, esses dois mundos entraram em choque: enquanto os sul-americanos viram uma história espetacular e dramática de heroísmo e entrega ser escrita, os africanos se revoltaram com a ofensa do uruguaio ao fair-play. A dimensão da reação negativa dos africanos ajuda a explicar porque eles ainda não chegaram a uma semifinal de Copa do Mundo: a maior parte deles ainda não sabe o que é “dar a vida por um jogo”, como o Uruguai fez aquele dia. E critica isso.

Como bom sul-americano, prefiro crer que o Uruguai foi heróico. E prefiro acreditar que a seleção charrua ensinou, naquele jogo, uma lição que deveria ser muito valiosa aos africanos (e aos jogadores de futebol, como um todo): a de se orgulhar da camisa de seu país, e ter a capacidade de se entregar a uma partida de futebol como se fosse a última na vida. Nisso os sul-americanos ainda são insuperáveis.

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Equipe Trivela

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