O mundo a seus pés

Documentário interessante, bem produzido e muito agradável que passou batido no mercado brasileiro enquanto todos os jornalistas tupiniquins se perguntavam embasbacados a respeito de como funciona o aparato de marketing do Real Madrid de Florentino Pérez. A coisa é muito simples. ‘O mundo a seus pés’ conta a história dos bastidores do NY Cosmos e trás imagens de arquivo da Rede ABC que transmitia a primeira liga norte-americana de soccer (hoje MLS) ainda na década de 70.

Naquele período, Steven Ross era o presidente de um conglomerado de entretenimento absurdo chamado Warner Brothers. Pertenciam a Warner na época a editora de quadrinhos DC Comics (que edita Batman e Superman) e a Atari (que produzia videogames). A Warner possuia estudios cinematográficos além de se apresentar também como uma gravadora. Seu cast tinha os valorizados Bob Dylan e The Rolling Stones (então em seus auges criativos e de popularidade) só para citar alguns.

A Warner compra a gravadora Atlantic Records que tinha entre seus poderosos os irmãos turcos Ahmet e Nesuhi Ertegun, figurinhas carimbadas do showbusiness musical. O catálogo da Atlantic ‘só’ detem todos os clássicos do blues/jazz norte-americano bem como os direitos sobre as gravações de algumas bandas lendárias de rock tal qual o Led Zeppelin (para citar apenas uma). Os irmãos Ertegun resolvem se manter alinhados a Ross. Nesuhi revela ao novo ‘chefe’ o desejo de ter uma…liga futebolistica. E Steven Ross queria aproveitar o boom causado pela novidade da transmissão de futebol televisiva posterior ao Mundial de 1966.

Os primórdios da primeira liga norte-americana de soccer são apresentados, bem como os primeiros semi-anônimos que formaram o primeiro plantél do New York Cosmos. Não haviam atlétas profissionais, quase todos mantinham outros empregos paralelamente. Managers, cartolas e empresários também surgem. Com um time anônimo numa liga inexpressiva a coisa apenas engrena depois de três ou quatro anos quando ‘alguém’ tem a idéia de contratar Pelé na segunda metade dos anos 70. ‘Alguém’ porque cada envolvido toma os meritos para si de maneira impagável. O futebol não tinha popularidade alguma nos EUA. A idéia de contratar um Ronaldo ou um Kaká para atrair investidores, tenha certeza, não é nova. O contrato de Pelé com a Warner previa a exploração de seus direitos de imagem em mil e uma quinquilharias (óculos, perfume, chuteiras, etc).

Entrelinhas da transação também surgem. O advogado da Warner negociava o contrato do astro Dustin Hoffman para o filme ‘Todos os homens do presidente’ quando recebeu a ordem de ir até o Brasil contratar Pelé. Como todos sabem, houve resistência até do presidente da república num Brasil que vivia em meio a ditadura. A ida de Pelé para os EUA garantiria melhoras nas relações diplomáticas entre Brasil e EUA, garantia essa atestada pela presença de Henry Kissinger (ex-secretário de defesa yankee) no filme. Ao término de seu vínculo com o Santos, Pelé estaria supostamente sendo sondado por Juventus e Real Madrid.

Para formar um time inteiro, outros atlétas foram sendo buscados. O centroavante italiano Giorigo Chinaglia (ex-Lazio e Seleção Italiana) surge enquanto maior artilheiro da liga americana (253 gols em 220 partidas), assim como um dos responsáveis pela queda do Cosmos. O kaiser Franz Beckenbauer também comparece e atesta que não haveria soccer hoje nos EUA se não fosse a popularidade do Cosmos. O capitão do tri Carlos Alberto também concede depoimentos aprovando inclusive aquele esquisito penalti com a bola em movimento que só existe na liga norte-americana.

O aparato de marketing em torno do Cosmos era semelhante a qualquer campanha que a Warner criaria no intuito de atrair público para qualquer produção de cinamatográfica de Hollywood. Ou para chamar atenção de fãs e imprensa ao divulgar uma nova tour do Led Zeppelin. Num mundo pré-futebol profissional, os bastidores e vestiários do Cosmos são retratados enquanto não muito diferentes de um backstage ou camarim de qualquer banda em tour pelos EUA durante os anos 70. Até o rolling stone Mick Jagger aparece em algumas fotos junto aos atlétas do Cosmos.

A queda tanto do time quanto da primeira liga norte-americana teria acontecido dada uma má negociação com os direitos televisivos na virada dos anos 70 para os anos 80. Apenas as finais seriam transmitidas e pesavam contra horários esdrúxulos de partidas com jogos ao meio dia. No começo dos anos 80 a Warner estaria em crise pois a Atari havia falido. O Cosmos também sofria com altos salários de uma meia dúzia de ‘galácticos’ não muito diferente de qualquer grande clube europeu hoje. Steven Ross resolveu cortar os custos livrando-se do Cosmos que sofria também com varios problemas internos tais quais a pretensão de Chinaglia em chegar ao poder. O centroavante tornou-se presidente do time (???).

Houve uma última cartada em que Steven Ross aproximou-se de João Havelange (presidente da Fifa no período) tentando levar o Mundial de 1986 para os EUA. A Fifa sediou a Copa no México e segundo Carlos Alberto perdeu uma das maiores chances da história de lucrar com exploração do marketing futebolistico. O soccer ainda gozava de alguma popularidade nos EUA mas o Cosmos acabou, bem como a liga yankee que só teria outra similar em 1996 quando a MLS foi fundada. Enaltecido como um verdadeiro rei, Pelé foi o único a não conceder entrevistas para este documentário.

‘O mundo a seus pés’ merecia melhor divulgação pois trata-se de um achado muito oportuno. A maneira como agem os ‘Berluscones’ e os ‘Florentinos Pérez’ não diferem de Steven Ross no quesito megalomania. Vale uma conferida!

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Equipe Trivela

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