O futebol brasileiro ao redor do mundo, desde sempre

 

Por Daniel Ottoni

O futebol brasileiro é mundialmente conhecido como um dos maiores exportadores de jogadores de futebol do planeta. Ao contrário do que muitos pensam, este êxodo começou muito antes da primeira Copa do Mundo. Apesar dos altos valores envolvidos nas negociações mais recentes, as transações das primeiras décadas do século XX também chamaram muito a atenção do mundo do futebol. “É uma análise do êxodo dos jogadores do futebol brasileiro, mostrando que as transferências não começaram hoje, com a crise do capitalismo”, informa o autor, Paulo Vinícius Coelho, ainda no início da obra.

O primeiro jogador nascido no Brasil a se transferir para outro país para jogar futebol foi Arnaldo Porta em 1914. Ela saiu de Araraquara rumo à Verona, na Itália. Um período em que grandes clubes brasileiros mal existiam, assim como o profissionalismo no esporte. Clubes que hoje encontram dificuldades para chegar a uma série D do Campeonato Brasileiro, como o Madureira eram grandes produtores e exportadores de profissionais do futebol.

‘Bola fora’ traz informações importantes sobre a realidade que envolvia os jogadores e o futebol brasileiro na véspera de suas transferências. Suas vontades, motivações e fatores que influenciaram para que estes resolvessem buscar um sucesso fora do país, mesmo com vários casos de retorno, após glórias e fracassos. Paulo Vinícius Coelho relata alguns dos principais casos de jogadores que foram tentar levar a vida fora do país. Desde aqueles que foram para grandes clubes da Europa, em busca de status e dinheiro, a outros em que somente o lado financeiro pesou, como em transferências para o mundo árabe ou asiático. Casos de décadas de glória do futebol nacional, onde o futebol romântico, que até hoje desperta saudade, prevalecia, até os momentos atuais, de futebol objetivo e muitas vezes sem graça, onde alguns gols em um campeonato qualquer fazem ofertas milionárias surgirem como água..

Falcão é o primeiro caso mostrado por PVC. Em um período onde o Inter era o melhor time do Brasil, no final dos anos 1970, Falcão foi o escolhido para jogar na Roma. Entre ele e Batista, outro gênio do meio-campo colorado, Paulo Roberto foi a opção escolhida pelos italianos. A indicação veio de Dino Sani, que já conhecia bem o camisa 5. Sani foi o interlocutor direto com Gianni Rivera, representante da Roma. Na transferência, o Inter ficou com US$ 1,5 milhão, cifra bastante diferente das transações atuais. Falcão queria ir e não foi possível segurá-lo. Com ele, a Roma fez belas campanhas no campeonato nacional, chegando a conquistar o scudetto depois de 41 anos. Mas Falcão queria muito ter o maior salário do planeta e isso ainda faltava. Uma transferência para a Inter permitiria que o sonho se realizasse, mas não foi possível. Falcão teve seu salário aumentado e tinha a maior remuneração da Itália, mas ainda não era suficiente. Depois de quatro temporadas na Roma, o time da capital começou a cair e Falcão resolveu voltar ao Brasil, o que aconteceu em 1985.

Zico foi outro brasileiro que jogou na Europa. Vestiu a camisa da Udinese a partir de 1983, depois de o Flamengo receber US$ 4 milhões. Tentativas diversas, com apoio de grandes empresas e marcas, foram feitas para que o Galinho permanecesse na Gávea, mas atitudes do presidente do clube carioca na época, Antônio Augusto, mostraram ao craque que o melhor era partir.

Em períodos mais distantes, outras transferências também chamaram a atenção. Domingos da Guia foi para o Uruguai em busca do profissionalismo e de melhores condições que o Vasco não podia oferecer. Isso no começo da década de 1930. Quando a situação no Brasil começou a melhorar, Domingos retornou ao clube carioca, deixando os uruguaios a ver navios, mesmo depois de boa passagem pelo Nacional. Na mesma época, o rival Peñarol contava com Leônidas da Silva.

Heleno de Freitas, um dos maiores craques brasileiros de todos os tempos, também jogou no exterior. O país escolhido foi a Colômbia, que também recebeu o ar da graça de Alfredo Di Stéfano. Os colombianos conseguiram atrair grandes nomes do futebol mundial pelo fato de não serem afiliados à FIFA. Não temendo represálias, os clubes usavam o dinheiro das transferências para oferecer altos salários aos jogadores. A Liga Dimayor tinha o Millinarios como um dos principais clubes.

Na Espanha, Didi teve passagem pelo Real Madrid. Canário, do América do Rio, também vestiu a camisa branca. Pelo Barça, Evaristo de Macedo foi um dos representantes brasileiros, antes de se transferir para o rival da capital.

O maior jogador brasileiro de todos os tempos por pouco não deixou de figurar fora desta lista. Pelé teve uma boa experiência no Cosmos, de Nova York, com um intuito de fazer o futebol se popularizar no país mais conhecido por outros esportes. Apesar da proposta da Juventus, o Rei só foi para os EUA depois de sua partida de encerramento pelo Santos em 1974. O título nos EUA veio em 1977. Quem passou pela mesma equipe entre 1977 e 1982 foi Carlos Alberto Torres, o capitão do tricampeonato mundial.

A presença do Brasil no mundo árabe teve o treinador Rubens Minelli como um dos precursores. Zagallo, antes de Minelli, treinou o Kuwait em 1976. Com os treinadores, o interesse por jogadores brasileiros cresceu. Daí surgiu o interesse dos árabes por Rivelino. A diferença salarial era enorme e extremamente atrativa. Foram três anos no futebol árabe, encerrado depois de muitas divergências com os xeiques e pela não adaptação a um estilo de vida bastante diferente.

O Japão foi outro país que contou com brasileiros a partir dos anos 1970. Sérgio Etigo foi um dos primeiros a ir para o país do sol nascente, incentivando Ruy Ramos a fazer o mesmo caminho. Ruy teve boa passagem por lá, assim como Wagner Lopes. O maior nome brasileiro no Japão foi Zico, que só chegou depois de encerrar a carreira por aqui, em 1989. Alcindo, Dunga e Leonardo também tiveram passagens pelo Japão.

A Lei Bosman facilitou bastante a ida de jogadores brasileiros para a Europa. Qualquer um que tivesse passaporte europeu teria sua entrada no Velho Mundo facilitada. Cafu e Dida foram beneficiados.

O Leste Europeu atualmente é uma realidade na contratação de jogadores brasileiros. Mas a ‘debandada’ começou no final dos anos 1990. Leandro Machado foi um dos primeiros a abrir as portas para a presença de tantos brasileiros que chegaram e ainda chegam por lá. Daniel Carvalho, Diogo Rincón e Kleber são outros exemplos. Revelações de clubes brasileiros, com pouca experiência no futebol, são alvos constantes dos dirigentes de países como Ucrânia, Rússia, entre outros.

No século XXI, temos as transações milionárias dos maiores nomes do futebol mundial: Kaká, Robinho, Pato etc. Neymar e Ganso devem ser os próximos. Uma realidade bastante diferente do que PVC analisa de tempos tão distantes. Cifras, condições, luvas, direitos e salários bem longe da realidade de um outro período, mais romântico e menos agressivo, levam a uma constante ânsia por valores milionários e exposição em uma vitrine aberta a todo o mundo.

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Equipe Trivela

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