O Deus dos Gramados

Era como todos o chamavam.

Sem dúvida alguma, o maior craque que já existiu, Rosário fez de seu nome o maior orgulho de uma nação.

Nascido em uma favela, não era ninguém até iniciar sua vida nos gramados. Atacante marrento, sua velocidade, dribles desconcertantes, pontaria inigualável, visão de jogo apurada fizeram do carioca uma lenda viva entre todos os brasileiros. Apesar de todas suas insuperáveis qualidades, era por um suposto defeito que era tão fervorosamente endeusado: Rosário não sabia perder.

Temido pelos zagueiros, perseguido pelos volantes, amado pelas tietes, era caso raro de unanimidade. Sua raça e disposição em campo nunca foram vistos em outro jogador. Entrava em cada jogo como se fosse seu último. Brigava, corria, suava, gritava com os companheiros, salvava bola em cima da linha, puxava contra-ataque, driblava meio time e marcava o gol da vitória de seu time. Rosário era indomável!

Seu estilo e sua gana fizeram a fama do atleta em solo nacional e posteriormente no mundo, onde defendeu as cores de Milan, Internazionale, Barcelona e Real Madrid, sendo ovacionado por todos torcedores, independente da camisa que defendia. Ao entrar em campo em um clássico, todas pessoas presentes punham a mão no peito e cantavam a “Ode ao Herói Rosário”, hino criado por um radialista fluminense que tomou os estádios de todo o mundo.

Não havia torcedor de time algum, do Brasil ou do mundo, que não o considerasse o gênio absoluto do futebol.

Após vencer oito Ligas dos Campeões, todas por times diferentes, Rosário, no ápice de sua forma, resolveu voltar à pátria amada para encerrar sua carreira em seu time do coração.

A chegada à pátria de chuteiras foi coberta de um frisson jamais visto. O presidente Mula desmarcou a recepção ao presidente norte-americano, o Papa adiantou sua viagem, foi proclamado feriado nacional: “O Dia da Volta do Herói Rosário”.

Rosário foi campeão nacional por seu time e, após gol inesquecível (“a bicicleta dorsal dupla”) contra o time arqui-rival na final do campeonato, anunciou sua aposentadoria, para lamentação de fãs do futebol no mundo todo.

Sem assunto, a imprensa esportiva mundial entrou em parafuso!

Foram-se os gloriosos dias de “Rosário falta no treino”, “O Deus dos Gramados trocou de carro”, “Rosário acordou às 10, tomou água e voltou para a cama”. O que fariam?

Sem mais o que fazer, os jornalistas do mundo começaram a remexer em jornal velho, entrevistar torcedores da terceira idade, fazer exame de DNA em tubos de ensaio de exame antidoping e descobriram que Rosário foi mesmo o maior, mas não marcou mais gols que Zelé, o goleador! O assunto foi primeira página da Gazeta Carioca.

Prá quê…

Chinelão, poltrona do papai, pijama de listrinhas, Rosário jogou o jornal ao chão e convocou toda a imprensa.

– Aê, fala prusssh carassshhh que eu voltei, falei?

Era emoção demais para toda essa gente sofrida!!

Rosário prometeu que tiraria a diferença de 189 gols em 12 jogos da Taça Guanabara.

E não é que estava fácil?

Faltando 10 jogos e 1 gol para superar a marca de Zelé, jogo contra o Madureira, a imprensa enlouquecida, bola na área, Rosário sozinho, o grito de gol entalado na garganta e o ídolo das massas recua para o goleiro rival.

– Não quero fazer o gol do século contra o Madureira!

Tensão. Indignação. Perplexidade. Crise de identidade.

O mundo parou para ver o jogo, guerras suspensas, controladores de tráfego aéreo em greve, e o Maioral da Pelota se recusou a fazer o gol.

O mesmo se repetiu contra Volta Redonda, Olaria, Fluminense…

– Eu quero é os urubu, ta sabendo?

Telefonema da ONU, mutirão dos pais-de-santo do Brasil, greve de fome do Paulo Coelho, nada, absolutamente nada fez o Esteta do Ludopédio mudar de idéia.

O dia mais esperado de toda a história (foi registrado em cartório que o Dia D passaria a ser o dia do gol definitivo do Mestre do Esporte Bretão) chegou. Tensão no ar!

O esquadrão flamenguista tremia ao ver O Magnânimo olhando em seus olhos, determinado a marcá-los para sempre como os maiores derrotados da face da Terra. Definitivamente, Rosário não sabia perder!

O juiz apitou o início da Batalha da Superação, como fora chamada a partida dias antes. Jogo difícil, truncado, dez homens marcavam O Impiedoso (o resto do time era mesmo de dar dó!).

Aos 49 do segundo tempo, após arremate de Juneco para fora, o arqueiro rubro-negro cobrou tiro de meta e, para assombro da humanidade, a bola atravessou o campo todo em direção ao gol do Time do Rosário!

Uma coisa todos sabiam: Rosário não sabia, realmente não sabia perder.

Mais rápido que uma chita, mais forte que um touro premiado, Rosário, O Grande, atravessou o campo como um raio, para encanto de todos torcedores!

Próximo a sua área, goleiro batido, Rosário subiu e, implacável, cabeceou a bola para dentro de sua própria meta, traído por seu instinto matador.

Foi seu milésimo gol, o Tento de Ouro, o Gol da Vitória Definitiva, indo pelo ralo.

Após lance tão surpreendente, platéia perplexa, silêncio absoluto, uma câmera de TV pegou um pequeno menino esboçando um leve sorriso, seguido de uma gostosa gargalhada. A partir desse momento, todos que acompanhavam o jogo, latinos, europeus, asiáticos, homens, mulheres e transgêneros gargalhavam da desgraça do patético Rosário, chorando ajoelhado em frente ao gol, humilhado em cadeia nacional. Na verdade, mundial.

Desde então, o outrora glorioso Deus dos Gramados é sinônimo de derrota e faz a alegria dos artistas da pilhéria.

– Trocou o nome da noiva no altar? Putz! Que Rosário!

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Equipe Trivela

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