O céu é o limite

Subir de divisão e brigar novamente pelas primeiras posições já no ano seguinte é uma tarefa árdua no instável e nada planejado futebol brasileiro. Quando muito, a fuga do rebaixamento é comemorada por espantar a síndrome do “bate-volta”, especialmente nas divisões intermediárias, em que a rotatividade de clubes é muito maior devido às condições financeiras.

Impulsionado por uma reformulação estrutural que tirou o clube do estado de quase falência, o Atlético-GO busca quebrar este paradigma ao intrometer-se na disputa de camisas muito mais pesadas como Vasco, Bahia, Guarani e Portuguesa por uma das quatro vagas na Série A de 2010. Subir sem escalas da Terceirona para a elite não dependendo do tapetão como fez o Fluminense era algo inédito até 2007, quando o América-RN chegou à primeira divisão após dois acessos seguidos. Vitória e Ipatinga fizeram o mesmo em 2008 mas, dos três, apenas o rubro-negro baiano conseguiu se manter, o que mostra a dificuldade de se aclimatar à superfície após uma subida tão rápida.

Para evitar o efeito bumerangue de um clube que disputou a Série B pela última vez em 1998 e a Série A em 1987, a diretoria buscou o apoio de mais empresários além daqueles que praticamente financiaram toda a reestruturação do Atlético há poucos anos. A manutenção da base campeã da Série C e a contratação de alguns reforços incharam a folha de pagamento e causaram até atraso de salários, mas logo as contas foram equacionadas e hoje a boa campanha na Série B sequer é considerada surpresa em Goiânia.

Some-se a isso o retorno de Mauro Fernandes logo no início do campeonato, após um Estadual de altos e baixos com PC Gusmão, e a confiança é ainda maior. Com o treinador, o time não perdeu como mandante na conquista da Terceirona no ano passado e repete o retrospecto na Série B: em seis jogos, foram cinco vitórias e um empate, além de outra vitória no clássico contra o Vila Nova, o que garante a melhor campanha dentro de casa entre os 20 participantes. Somando os dois campeonatos, já são 33 jogos no Serra Dourada com 28 vitórias e cinco empates.

A semana que começa é decisiva para as pretensões do time. Com a vitória por 1 a 0 sobre o Brasiliense no sábado, o Dragão isolou-se na vice-liderança e pode assumir a ponta já nesta terça, caso vença o Duque em casa e o Bugre perca para a Lusa no Canindé – resultados completamente possíveis. De fato, a queda de produção do até então intocável líder do campeonato é gritante: apenas uma vitória nos últimos cinco jogos e a diferença que já foi de seis pontos reduzida para dois – a menor desde a quarta rodada.

Com o confronto direto dos primeiros colocados agendado para a sexta-feira no Serra Dourada, a Série B pode ter caras novas na ponta neste final de semana, até mesmo com alguns pontos de vantagem. A previsão pode muito bem se concretizar, considerando que o Atlético tem a melhor campanha como mandante até aqui. O Guarani, por outro lado, deve mostrar seu poder de reação e confirmar a reputação de melhor (ou mais indesejado) visitante: foram quatro vitórias e três empates.

Se sair vitorioso das duas próximas rodadas, o Dragão tem tudo para sacramentar o caminho rumo à primeira divisão. Com uma base entrosada, que já provou que está à altura dos adversários, e nomes como Marcão e Robston em grande fase (seis e cinco gols marcados, respectivamente), o time tem o melhor ataque disparado da competição, com média superior a dois gols por jogo. Até mesmo o goleiro Márcio já se aventurou à frente e fez um golaço de falta na goleada por 5 a 0 sobre o Paraná. Basta melhorar o sistema defensivo, que só não foi vazado em três partidas, e a média de público, que é apenas a 14ª – mas que não deve melhorar muito, considerando que historicamente o clube tem uma torcida muito menor que os rivais da capital.

Se no início do ano subir era obrigação e, agora, o título já passa a ser o objetivo principal de um clube que, há apenas cinco anos, estava quase extinto, não se pode duvidar que o Atlético tem algumas das qualidades que faltaram a Ipatinga e América-RN num passado recente, ao caírem tão rapidamente quanto subiram ao topo. Se tem todas as necessárias para se manter lá, será preciso provar primeiro nesta Série B, que pode não ser a mais forte dos últimos anos, mas ainda apresenta pedras no caminho – até mesmo para os mais experientes.

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Equipe Trivela

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