O Athletic Bilbao que encantou a Europa

Marcelo Bielsa é um treinador consagrado, mas um tanto incompreendido no futebol. Tem convicções das quais não abre mão em qualquer trabalho e métodos que levam um tempo até começarem a dar os frutos desejados nas suas equipes. Foi assim por onde passou, nem sempre com resultados positivos. No entanto, seus times são marcantes. Pep Guardiola, um dos admiradores confessos das ideias de Bielsa, aponta a Argentina da Copa de 2002 como um dos times que mais lhe dava gosto ver jogar. Mesmo sem ter passado da primeira fase daquele Mundial.

Agora imaginem Loco Bielsa comandando uma equipe que é movida a convicções e paixão. Não é necessário imaginar, é o Athletic Club de Bilbao. Sediado no País Basco, a comunidade autônoma mais radical da Espanha, o Athletic cultiva mais que qualquer outro as tradições do seu povo. Apenas jogadores nascidos, ou com parentesco direto, na região podem vestir o uniforme do clube. A camisa, que durante anos não aceitou patrocínio algum, apenas recentemente cedeu às necessidades financeiras e estampou uma marca abaixo do escudo. O Estádio San Mamés, La Catedral, pode não estar sempre lotado, mas é cheio de energia emanada de uma torcida que tem, acima de tudo, orgulho de seu time.

Neste mês de março, o Athletic de Bielsa eliminou o Manchester United da Liga Europa. Duas partidas nas quais o time basco venceu, convenceu e encantou.

 

Grandes jogos em Manchester e Bilbao
Na primeira partida, em Old Trafford, o único desfalque da equipe foi o zagueiro Amorebieta, suspenso. San José foi mantido na equipe, com Javi Martínez recuado na zaga e Iturraspe retornando ao time no meio. Bielsa utilizou o 4-3-3, encaixando perfeitamente a marcação no 4-4-1-1 de Sir Alex Ferguson.

Apesar de pressionar a bola em todos os setores do campo, a marcação utilizada pelo time basco não pode ser considerada como individual. Com encaixe bem feito, os jogadores sempre estavam próximos aos adversários de sua zona. Recebiam maior pressão o jogador com a bola e aqueles que se apresentavam em cada momento como opção de passe.

A exceção foi Iturraspe, que acompanhava Rooney por todos os lados. Essa providência garantiu a sobra na defesa, já que Javi Martínez e San José revezavam a marcação em Chicharito Hernández. Os laterais Iraola e Aurtenetxe batiam com os meias extremos Park e Young, enquanto os wingers Susaeta e Muniaín acompanhavam as subidas de Evra e Rafael. No meio, De Marcos e Ander Herrera procuravam fechar os espaços de Jones e Giggs e, na frente, Llorente se encarregava de complicar a saída de bola dos zagueiros Smalling e Evans. A ideia de Bielsa foi justamente fazer com que o United tivesse pouco tempo para pensar o jogo e trabalhar a bola. Sem o costume de sofrer esse tipo de marcação, o time inglês sofreu.

Ao recuperar a bola, a estratégia é alcançar o campo de ataque no menor tempo possível. Se pelos lados os espaços fossem fechados, o volante transformado em zagueiro Javi Martínez assumia a responsabilidade da saída, recebendo cobertura imediata de Iturraspe. Esse improviso, meio-campistas como defensores, é algo utilizado com frequência por Bielsa e pode ter sido inspirador para o Barcelona, onde Guardiola usa Mascherano e Busquets na zaga com frequência. Como última alternativa de transição, o Bilbao usa a bola longa na direção do grandalhão Fernando Llorente.

Uma vez ultrapassada a linha de meio, o Athletic tenta ocupar o lado adversário com muitos jogadores e, a partir daí, utiliza toques rápidos, triangulações e infiltrações para criar situações de gol, de preferência pelos lados do campo.

O Bilbao chegou a Manchester vindo de 15 partidas consecutivas marcando gols. Sabendo que seria fundamental manter a sequência, pelo saldo qualificado, a equipe foi pra cima desde o início. Já no primeiro minuto de jogo, seis bascos estão dentro da área do United tentando a conclusão.

Com o jogo ainda empatado em zero, a jogada abaixo é uma amostra da intenção ofensiva de Bielsa. Javi Martínez avança com a bola da defesa, somando nove jogadores no campo de ataque. O apoiador Ander Herrera se infiltra nas costas da defesa e recebe o passe longo. Além dele, outros quatro jogadores já estão nas cercanias da área e serão as opções do cruzamento que vem a seguir.

Força pelos ares

Foi pelo alto que saiu o gol de Fernando Llorente em Old Trafford. A jogada é construida pela direita com Susaeta e, no momento do cruzamento, outros cinco jogadores estão na área de De Gea (imagem abaixo). Llorente antecipa a marcação e cabeceia para o gol. Essa jogada se repete com muita frequência. Segundo o site WhoScored.com, o Athletic é a equipe que marca mais gols de cabeça entre as cinco principais ligas da Europa (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França).

Uma das convicções de Bielsa é utilizar os laterais como armas ofensivas. Esse é um dos motivos pelos quais em muitas equipes ele opta pelo 3-3-1-3, como a Seleção Chilena na Copa de 2010. No Bilbao, Iraola e Aurtenexte recebem passe livre para chegar ao ataque e triangular com os apoiadores e wingers, pelo lado ou por dentro.

Esses triângulos também são chave do ponto de vista defensivo. Como quase todas as bolas perdidas pela equipe acontecem no campo de ataque, o triângulo mais próximo pressiona a bola de imediato, ganhando tempo para uma recomposição rápida dos demais.

O resultado final de 3-2 fora de casa acabou sendo barato pela superioridade do Athletic, pelas chances criadas e pelo gol achado pelo United em um pênalti nos acréscimos. Mas a vantagem foi suficiente para dar o tom do jogo de volta, com os ingleses precisando vencer por dois gols de diferença ou por um, desde que marcassem quatro gols em San Mamés.

Na Catedral, mais do mesmo

Uma semana depois, no País Basco, Bielsa escalou sua equipe ideal, com o retorno de Amorebieta na vaga de San José, no 4-3-3.

A mudança mais significativa do segundo jogo foi que o Athletic avançou ainda mais sua linha de marcação. Como Ferguson mudou a formação para um 4-1-4-1, sendo Rooney o último homem, Bielsa optou por marcar mais em cima, porém com a mesma agressividade. Subir a linha defensiva expõe a equipe para os lançamentos em velocidade mas, com Rooney sozinho na frente, o United não soube aproveitar.

O primeiro gol do Athletic, marcado por Llorente, é uma marca de Bielsa. A imagem abaixo mostra os 11 jogadores da equipe basca, com cinco deles já no último terço do campo. Amorebieta lança a bola para o centroavante que opta por chutar de primeira. Se a decisão fosse pelo domínio, em segundos ele teria quatro opções de passe dentro da área para concluir.

Ao final do confronto, nova vitória para Bielsa, dessa vez por 2 a 1. Sem dúvida nenhuma, o Athletic foi merecedor da classificação e só não foi com mais facilidade porque desperdiçou oportunidades e sofreu gols circunstanciais no final das duas partidas.

Aumentou bastante a minha admiração por Marcelo Bielsa. Um treinador excêntrico, mas com a capacidade de convencer os jogadores de que sua ideia de jogo é eficiente. ‘El Loco’ conseguiu transformar o Athletic em um time muito ofensivo e ainda coeso. A equipe atua em um estilo que exige altíssimo nível de concentração e que, na primeira temporada, sofre com a irregularidade. Isso talvez explique a oitava posição no Campeonato Espanhol e as belas campanhas nos torneios, já é finalista da Copa do Rei e está entre os oito concorrentes ao título da Liga Europa.

Tomara que o Athletic fique muito tempo com Bielsa e que muitos possam ter a sorte de ver sua equipe ao vivo em San Mamés.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo