Não-gol: Dádiva e o pecado

O gol é o momento áureo do futebol.

É durante os segundos que o antecedem e nos momentos posteriores a ele que o torcedor encontra a razão para a paixão.

A euforia que parece eterna é compartilhada com quem ou o que estiver ao lado, seja amigo, inimigo ou desconhecido.

Naquele instante todos veneram uma mesma bandeira e proclamam a mesma momentânea vitória.

Em Copa do Mundo, o gol parece multiplicar o seu valor. Ecoa para o planeta todo o nome da nação que o marca e coloca no pedestal maior o povo que vibra com ele.

Ao término dos 90 minutos, alguns sorriem e outros choram, mas não existe aquele que não se arrepie com o estufar das redes, seja de decepção ou alegria.

Só que o futebol é tão mágico e democrático que prestigia até o gol que não se concretiza.

Em 1970, Pelé protagonizou dois dos lances mais espetaculares da História das Copas. Contra o Uruguai o drible de corpo enganou até a bola, que, desnorteada, acabou por sair pela linha de fundo. Na partida frente à Tchecoslováquia foi a vez do chute partir do meio campo. Mais uma vez, a desavisada bola teimou em não entrar.

Os “não-gols” de Pelé talvez sejam tão maravilhosos justamente por não terem entrado.

Em 1994, o zagueiro Balboa, dos EUA, completou uma cobrança de escanteio com uma bicicleta quase perfeita. A bola passou a centímetros da trave e o grito de gol a milímetros da garganta.

Por ser genial, esses lances são incompreendidos.

– Ora, por que ser gol e me igualar a outros milhões? – pensa a bola.

– Prefiro sair, deixar o gostinho… – completa.

O “não-gol” é mais eterno que seu irmão, o gol.

É um anti-herói, que cometeu o pecado de não nascer como o seu parente de sangue, mas recebeu a dádiva de ser imortal nas lembranças dos amantes do futebol.

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Equipe Trivela

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