Merecida, esperada e positiva

O Corinthians caiu para a segunda divisão. Não há nada que você não tenha ouvido mais nos últimos dias do que essa notícia. O que talvez tenha variado seja o modo como a mídia colocou no seu ouvido que “lamentava”, ou que era uma “perda” para a Série A ou então que era “resultado do descaso”, ou qualquer outra obviedade.

A queda do Corinthians tem – exceto para os corintianos – só pontos positivos: vai mostrar às emissoras de TV que a Série B pode ser rentável, vai dar credibilidade à Série A com mais uma pá de cal na indecência das viradas de mesa e, mais do que tudo, fará justiça com um clube que cansou de se beneficiar de falcatruas, desonestidades e ladroagens em geral nos últimos anos.

Não, não se trata da palhaçada de “apito amigo”, criada por alguns jornalistas (embora de fato tenha se provado que alguns árbitros tenham entrado em campo comprados mesmo). As vantagens que o Corinthians teve vêm de vários anos, desde o famigerado “1-0-0” de Ivens Mendes até ao tsunami de dinheiro de origens duvidosas que proporcionou ao clube ter nomes como Tévez e Mascherano.

A comoção nacional anti-corintiana não foi só uma questão de rivalidade. Torcedores de todos os clubes queriam ver o Corinthians pagar o pato porque estavam com essas trapaças entaladas nas suas gargantas. Enquanto os jornais cansavam de relacionar seus dirigentes com as páginas policiais, o clube ganhava títulos. E a resposta do torcedor corintiano era: “Ah, mas o Timão tá ganhando”. A velha história do ‘rouba mas faz’.

Pois é. Chegou a hora da onça beber água. Um ano na segunda divisão custará aos bolsos corintianos alguns milhões de reais – no mínimo. Para piorar, esse ano será vivido com uma cartolagem que apoiava a gestão indecente de diretorias passadas – naturalmente, agora travestidos de ‘renovadores’. A gozação de sãopaulinos, santistas e palmeirenses é o menos importante. Essa não deixa marcas no clube. Serve só como punição ao torcedor que não se incomodava em comemorar títulos irregulares.

Mas pensando bem, mesmo os corintianos tirarão vantagem do rebaixamento. É a chance de fazer um exame de consciência e se perguntar o quanto vale vencer a qualquer custo. É a chance de a torcida – não as torcida organizada, que age em causa própria – se articular para pressionar a diretoria a gerenciar o clube como um bem de todos e não de meia dúzia de ignorantes que embolsam o que podem embolsar. É o momento de parar para pensar o quanto o futebol tem a oferecer como exemplo para a vida do dia-a-dia: se o torcedor aceita corrupção para seu time vencer, como terá moral para exigir honestidade do governo, por exemplo?

Embora tricolores, santistas e alviverdes acalentem o sonho de um Corinthians na Série C em 2009, o poço não será tão fundo. O Timão minimamente bem-administrado sobre para a Série A com um pé nas costas, especialmente porque terá o apoio xiita de uma torcida já normalmente fanática. A pausa de um ano que já veio para palmeirenses, atleticanos, botafoguenses e gremistas é, diante do caos nojento que reinou no clube nos últimos anos, uma verdadeira bênção. Ao invés de aumentar o ódio pelas gozações dos rivais, o corintiano pode tirar uma outra vantagem do episódio: mostrar a todos que, no esporte, a derrota não é vergonha nenhuma e pode até ser benéfica. Muito benéfica.

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Equipe Trivela

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