“Me vê uma porção de Wesley e 200 gramas de queijo prato”

Algumas expressões em inglês, geralmente cunhadas no mundo corporativo, tomam o noticiário de forma tão ostensiva, que em poucos dias já parecem fazer parte do jargão. É o caso de crowdfunding, termo da moda no futebol brasileiro, cuja tradução seria, a grosso modo, “financiamento coletivo”. Apesar da palavra soar como uma manobra “irada” de surfe ou um jeito moderninho para se referir a uma suruba, trata-se apenas de uma nova e supostamente revolucionária roupagem para a boa e velha “vaquinha”.

O sistema surgiu para que fãs pudessem bancar shows de suas bandas e artistas prediletos, quando as rotas escolhidas para as turnês não prestigiavam suas cidades. Uma forma de demonstrar que havia público para aquele evento, mesmo que os produtores da região tivessem receio de apostar em sua viabilidade. Uma bela ideia, sem dúvidas. Mas que gera implicações perigosas quando transferida para um contexto mais complexo.

Em parceria com uma plataforma de investimentos colaborativos para a contratação de jogadores (ou seja, uma empresa especializada em vaquinhas de grande porte), o Palmeiras lançou a campanha “Wesley no Verdão”. O torcedor compra cotas no valor mínimo de 100 reais e ganha prêmios, distribuídos de acordo com o valor de seu investimento. Vão desde o direito de acompanhar a delegação em um jogo e jantar com palmeirenses ilustres, até bobagens como ter seu nome publicado no site do clube ou gravado em um bandeirão.

Bacana que alguns palmeirenses queiram ajudar, bancando a contratação de um reforço, mas… logo o Wesley? Por mais que ele tenha se destacado pelo Santos e possa se encaixar muito bem no estilo da equipe de Felipão, uma campanha assim só faz sentido se o alvo for um jogador de grande apelo. Wesley não tem identificação alguma com o clube e está longe de ser um craque. Não levaria alguém ao estádio só para vê-lo. Ninguém correria para comprar uma camisa com o nome dele nas costas. Mas esse é o menor dos problemas.

De profissional a produto

Um jogador pode sair de uma história assim com sérios danos à sua imagem. Se o valor necessário não for atingido, quem comprou cotas não perderá o dinheiro investido, mas como sumir com as imagens do sorridente Wesley, vestindo uma camisa do clube que nem o contratou? Voltar a ser aproveitado pelo Werder Bremen, clube com o qual ainda tem contrato, passa a ser inviável, já que os torcedores alemães logicamente torcerão o nariz para alguém que fazia tanta campanha para ir embora.

Até sua contratação por outro clube brasileiro pode ser dificultada. Torcidas adversárias podem criar rejeição ao meia, sem contar o risco de que ele vire uma grande piada. E não pense que é só o Palmeiras que está embarcando nessa ideia. O Corinthians pensou o mesmo para repatriar Cristian e o São Paulo tinha a intenção de usar a ferramenta para pagar por Nilmar. A tendência é termos cada vez mais atletas assim, expostos em um site, com preço e condições de pagamento, como se fossem ofertas no encarte de um loja de departamentos.

De décimo segundo jogador a mecenas

Outro ponto polêmico é envolver aficcionados em uma responsabilidade exclusiva do clube. Pelo crowdfunding, uma instituição que arrecada vários milhões entre patrocínio, direitos de TV e outras fontes de renda recorre a seu torcedor para que este compense a incompetência da diretoria em gerir recursos para contratar bons jogadores, bem como sustente a ganância de um mercado inflacionado. O mesmo torcedor que normalmente nem tem conforto e segurança para frequentar estádios ou incentivo suficiente para se associar ao clube.

Ao adotar o expediente, clube e torcedores estão se propondo a dividir custos sem repartir lucros. Se por um lado o torcedor sabe exatamente como será aplicado o dinheiro que investiu, por outro, aceita dividir a responsabilidade por um possível fracasso do atleta que ajudou a contratar. Se a moda pega, corremos o risco de um dia ouvirmos um dirigente exaltado se dirigir aos torcedores com um “Estão chiando por que? Foram vocês que contrataram esse perna de pau!”.

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Equipe Trivela

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