Lucas Piazon: “O Chelsea não pode fugir de uma renovação”

No primeiro jogo, contra o Swansea, a ideia nem passou por sua cabeça. “Achei que não ia entrar de forma alguma, a gente estava perdendo por 1 a 0 e o treinador não ia me colocar num jogo assim para estrear”. Então, veio a convocação para o clássico contra o Manchester United, um placar elástico construído com relativa facilidade e a sensação de que a estreia entre os profissionais, enfim, poderia chegar. “Estava 3 a 0 e eu pensei ‘porra, posso jogar 10 ou 15 minutos’. Mas o Manchester fez um, dois e eu falei ‘putz, não acredito’”. Aquele frio na barriga se perdeu na terceira partida, agora com o Blackburn. “Foi o último jogo da temporada e todo mundo falando que eu iria jogar e etc. Prometi a mim mesmo não criaria expectativa. O Malouda machucou, entrou o Paulo Ferreira, e depois ainda veio o Ryan Bertrand de atacante. Não deu”.

Em sua primeira temporada com o Chelsea, o brasileiro Lucas Piazon foi eleito o jovem do ano, conquistou o título da FA Youth Cup, uma espécie de Copinha, segundo ele, e ainda foi para o banco de reservas do time principal em três jogos. A revelação do São Paulo não poderia ter se saído melhor no clube londrino. Ou melhor, poderia. Como ele mesmo descreve, se tivesse entrado em algumas dessas partidas. Mas não tem problema. O atacante de 18 anos inicia a próxima pré-temporada com os profissionais e com a expectativa de conseguir uma sequência entre os atuais campeões europeus.

A renovação, ele faz campanha, é necessária e está em andamento. Talvez não na velocidade que se imaginava. Pode ser mais um obstáculo no caminho de Piazon. Nada que ele não tire de letra. Se tivesse que escrever hoje o nome de sua biografia, ele não titubeia nem por um minuto na escolha. Não precisa de mais do que dez segundos, na verdade. “Seria ‘Aceitando desafio”, afirma. “Porque sempre que eu comecei a jogar e me destacar, fui em busca de algo maior”, explica o garoto que, após passar por Coritiba, Atlético Paranaense e São Paulo, tenta vencer no Chelsea.  Apenas mais um desafio para ele que não rejeita nenhum.

Trivela: Ramires eleito o melhor jogado do ano pelos jogadores. Piazon eleito o jovem do ano. O Chelsea nunca foi tão brasileiro?

Lucas Piazon: (Risos) Exato, exato… Tem razão. Acho que tanto no time principal como nas categorias de base, eles estão com um temperinho brasileiro.

Dá para dizer que uma nova era se inicia no Chelsea após o título na Liga dos Campeões?

Ah, até acho… Não tenho tanta certeza assim… Mas vai ter que uma renovação, né. Os jogadores que estão na equipe, estão há muito tempo, o Drogba saiu, mais jogadores vão sair, também vão chegar muitos jogadores novos, então, vai ter uma renovação pequena, não muito grande, e isso vai ser bom para o clube.

Você imaginava se adaptar tão rapidamente ao futebol inglês?

Atuei praticamente seis meses e eles tentaram me deixar em campo o máximo de jogos possíveis. Cada vez que tinha jogo que podia jogar, eles me colocavam, não importava se pelo Sub-18 ou pelos reservas. Então, acho que acabou sendo bom para mim ir antes, pegar o estilo de jogo deles mais rápido. E, convenhamos, o futebol inglês não é tão diferente, é apenas mais pegado. Mais cedo ou mais tarde, você acaba se acostumando.

A FA Youth Cup teve um papel importante nesse sentido, não teve?

Não tem como negar. Fomos campeões batendo o Blackburn na final e passando pelo Manchester United nas semis. É uma competição que dá para comparar com a Copa São Paulo, os jogos passam na TV, atuamos em excelentes estádios, fazíamos todos os jogos no Stamford Bridge, os mesmos campos fora de casa. E ainda acontecia de encontrarmos jogadores profissionais pela frente. Nas partidas contra o Fulham, enfrentamos aquele português, o Orlando Sá, atacante. Quando a gente jogou contra o Wolves, até o capitão entrou em campo. Os times menores sempre fazem isso.

Oriol Romeu, Lukaku, Courtois. Existe hoje uma política de renovação no Chelsea, não existe?

E precisa, né. Daqui a uns três, quatro anos, os jogadores que vêm jogando muito já vão estar… O físico não vai ser o mesmo, vai ser difícil manter o alto nível com esses jogadores. Tem que renovar, tem que renovar… Está na hora… Eles já estão lá há muito tempo, fizeram história no clube, ainda mais com essa Champions League, coroando toda a carreira deles, história pelo clube, realizando o sonho do dono. Eles mereciam e acho que encerraram esse capítulo muito bem.

Nesse espaço de um ano, já teve algum contato com o Abramovich?

Ele é super na dele, tranquilo, quietinho. No começo de janeiro, estava treinando com o primeiro time e ele acompanhou, trocamos umas palavras, “tudo bem e não sei o quê”.

E com o restante do pessoal do profissional?

Mais no treino. Antes, a gente tinha mais contato. Porque antes de janeiro a gente ficava num vestiário aqui e o deles era do lado, tomávamos café no mesmo refeitório, almoçávamos juntos, mas eles mudaram isso porque alguns meninos estavam ficando muito acomodados, achando que já estavam no primeiro time, então… É porque no Chelsea são dois prédios: o prédio dos profissionais e dos reservas, e o das categorias de base, Sub-18, os meninos mais novos. E aí eles mudaram os reservas para o prédio da base, que eles chamam de academia, para dar uma acalmada na molecada e mostrar que ainda tem que trabalhar muito para estar do outro lado.

Mas esses atletas são mascarados como se costuma apregoar vendo de fora?

Nada. O Terry é o capitão, então, ele sempre vai aos jogos, por exemplo, acompanhou toda a campanha na FA Youth Cup, ia vestiário, desejava sorte. Ele é um líder do clube, mesmo, não só do time. Outro cara com que tivemos contato próximo foi o Essien. Ele estava machucado e, próximo de voltar a treinar, veio trabalhar com a gente, treinava numa boa, não reclamava, ficou uma ou duas semanas conosco e participou até de um jogo dos reservas – não joguei nessa partida porque estava na FA Youth Cup.

Existe muita diferença entre o trabalho de formação feito no Brasil e na Europa?

Mais diferença na qualidade. O Brasil tem muita, muita qualidade na base, os meninos mais novos, até o Sub-20, mas acho que aqui a gente é um pouco acomodado, não treina o suficiente. Lá, a gente também não treina muito, mas o trabalho lá é um pouco mais sério do que no Brasil, mas o Brasil está melhorando, lá é um trabalho específico, tentam muito mais a sua evolução do que ganhar título.

E na passagem para o time de cima, como foi o ritual?

(Risos) Ah, teve um batizado, mas foi só cantar. Eu cantei aquela música “Coração”, do Rapazolla. Era uma música fácil de cantar, tinha que botar uma música mais agitada, porque se colocassem uma lenta os caras iriam te zoar, então não teve problema. O pessoal acompanhou, até que mandei bem!

Lucas Piazon. Lucas Moura. Há espaço para dois Lucas no Chelsea?

Acredito que sim. Até porque ele joga na direita, eu jogo na esquerda, sempre jogo por ali. Dá até para colocar os dois. Jogar, jogar, eu não joguei com ele no São Paulo, já treinei, ele era dos juniores, eu estava no primeiro ano do juvenil, nunca joguei com ele. Mas seria uma boa dupla até pelo esquema do Chelsea, com três atacantes, ele pela direita faz o papel muito bem, se encaixaria bem num time com três atacantes. No Chelsea, eles gostam dessa posição com o atacante pelas pontas.

E um final de Mundial de clubes contra o Corinthians?

Contra o Corinthians seria legal. Eu prefiro que seja contra um time brasileiro. Torci para um time brasileiro ganhar, pensar em ter pelo menos uma chance de falar com eles antes do Mundial.

Não vai provocar de novo o Corinthians no Twitter, vai?

(Risos) Ah, faz parte.

Rafael, Fábio, Anderson. Todos eles ficaram muito engessados depois que chegaram na Inglaterra. Você teme ficar da mesma forma?

Eles falam pra mim quando eu tento jogar num estilo muito parecido com o deles que “se quisesse um jogador para jogar como inglês, teriam comprado aqui.” Então, eu tento fazer o meu jogo, só quero progredir taticamente quando estou sem a bola. Mas quando estou com ela é para fazer meu jogo, jogar tranquilo, e eu acho que isso aconteceu agora no final da temporada. No começo estava um pouco preso ainda, depois fui me soltando e o jogo melhorando. Eles sempre falam que “não querem um jogador inglês, então, joga o seu futebol”.

Você sumiu das convocações da seleção, a CBF não fez mais contato, você não sabe qual a sua situação… Cogitaria defender a Inglaterra no futuro?

Não, não, não. Jogar pela Inglaterra, acho que não. Depende também, vai. Se tiver jogando no Chelsea e não for lembrado pelo Brasil, talvez, né, jogar uma Eurocopa. Poderia ser interessante, poderia pensar… Mas acho que, não, não, primeira opção é sempre o Brasil.

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