Liverpool: A Trupe Espanhola e o You Will Never Walk Alone

por João Lucas Garcia

A tradição inglesa mandava, há tempos atrás, que um bom time inglês precisava ser dirigido por um bom treinador inglês, quando no máximo, britânico. Agora imagine você chegando a um clube inglês tradicionalíssimo, que não ganha nada há muito tempo e você é um espanhol com boa reputação, mas nada demais. A pressão será enorme, certo? E se os resultados não vierem? Será considerado um fracasso. Foi nessa situação que Rafa Benítez chegou ao Liverpool em 2004 vindo de boas campanhas pelo Valencia, mas sem conseguir grandes resultados que o levassem a almejar uma posição daquelas. Desde então, porém, Benítez vem se mostrando um dos maiores e melhores treinadores do mundo e consigo deixando seus frutos.

A temporada 2004/2005, sua primeira no clube, foi fantástica para o espanhol. O título da Champions League o colocou no rol dos maiores treinadores do momento e não havia muito mais o que desejar. Algumas contratações meio desastrosas naquele verão, como Zenden, poderiam ter apagado um pouco o brilho de Rafa, mas outras apostas altas e ótimas como Crouch e Sissoko, que ele trouxe do Valencia, renderam muito bem no Liverpool e trouxeram uma certa tranqüilidade a Anfield Road.

Nos últimos meses o Liverpool viveu bons momentos, mas com a sensação de que poderia ter chegado mais longe. A perda do título da Champions League para o Milan na Grécia e o bom, mas até certo ponto modesto, 3º lugar na Liga Inglesa fizeram Benítez repensar o que faria neste próximo ano e já que os Reds estavam de presidentes novos – os americanos George N. Gillett Jr., dono de um grande grupo e de franquias de times de hóquei nos Estados Unidos e Tom Hicks, dono da Hicks, Muse, Tate & Furst. A mesma empresa que investiu no Corinthians há cerca de 7 anos – os fez abrir o bolso. As chegadas nada modestas de Ryan Babel, atacante promessa-realidade do futebol holandês de apenas 20 anos, Lucas Leiva, volante de extrema qualidade do Grêmio; Yossi Benayoun, israelense de boa habilidade procedente do West Ham e Andriy Voronin, atacante ucraniano bastante questionado sobre sua habilidade, mas que sabe fazer gols. Até aí, boas contratações, algumas até impactantes, mas nada que colocasse o Liverpool no mesmo patamar de Chelsea e Manchester United na briga pelo título da Premiership. Até que chegou Fernando Torres.

“Niño” que já foi, e até hoje pode ser considerado, uma das maiores esperanças de futuro para o futebol espanhol pode enfim explodir de vez. As suas atuações no Atlético de Madrid sempre foram boas e consistentes, mas não tinha conseguido brilhar em competições européias ou levado os colchoneros a um estágio de luta pelo título da liga espanhola. Sendo assim, sua chegada em Liverpool, por nada mais nada menos do que 20 milhões de libras, cerca de 30 milhões de euros mais o passe do bom Luis García, o colocará como a grande estrela da equipe. Vestirá a camisa 9 e será o grande responsável por fazer os gols do Liverpool, um problema crônico que a equipe enfrenta, mesmo tendo Crouch, Kuyt e Fowler em seu ataque nos últimos anos.

A contratação de Fernando Torres também leva a um aspecto interessante que a era Benítez proporcionou em Anfield, o grande número de espanhóis. Em três anos de trabalho, o elenco do Liverpool já contou com 12 jogadores da região da península ibérica. Isso não pode ser considerado razão de vitórias ou derrotas, mas é sem dúvida uma grande mostra de que Rafa confia nos jogadores de seu país. O que para muitos poderia ser interpretado como favorecimento por parte do treinador para com seus compatriotas é visto pela grande maioria como apenas a escolha de jogadores de sua confiança.

Apesar do grande número de espanhóis, do projeto para um novo estádio, da derrota na última final de Champions League, dos novos presidentes-investidores e da falta de atacantes de grande nome, todos assuntos delicados e que poderiam facilmente desestabilizar um time como sua torcida, o Liverpool vem em ascensão boa e que poderá ser confirmada neste ano. Uma vitória dentro da Premiership premiaria ainda mais e coroaria Rafa Benítez como um nome na história dos Reds. O título é o que falta na galeria de Benítez e, provavelmente, o que o treinador mais quer.

O jejum de 18 anos sem título nacional terá uma de suas maiores chances de ser quebrado nesta temporada com um time muito bem estruturado em cima de uma defesa fortíssima e de laterais que, hoje, podem ser considerados os dois melhores da Europa. A qualidade e a quantidade de meio-campistas bons em Anfield não é pequena e a parte que faltava para fechar o quebra-cabeça. O ataque parece ter sido resolvido com a contratação de três jogadores que seriam titulares em boa parte dos times da Europa.
Vencer a Premiership é o projeto de longa data do espanhol e pode ter chegado a hora de se concretizar. Assim como Benítez nunca deixou seus pupilos espanhóis de lado, a torcida está louca para cantar o lendário hino You Will Never Walk Alone dentro de Anfield antes que a história fique para trás, mesmo sabendo-se que nunca será esquecida.

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Equipe Trivela

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