Kizomba, a festa da raça

 

Normalmente, quando as pessoas tomam conhecimento de uma incrível história da vida real, a primeira reação é pensar: isso dava um filme! A menos de uma semana para o Carnaval, quem, assim como eu, é louco por escolas de samba não consegue tirar o assunto da cabeça e acaba tendo uma ideia alternativa, embora similar: isso dava um enredo! No caso da conquista zambiana no Campeonato Africano de Nações, ideia mais do que justificada. Afinal, tudo o que no filme viraria clichê e melodrama, num desfile de escola de samba se traduziria em garra e alegria. Fora que nunca achariam um ator francês com tanta pinta de galã quanto o técnico Hervé Renard. Não me venham com Jean Reno ou Gérard Depardieu!

Em 1988, a Unidos de Vila Isabel conquistou seu primeiro título no Grupo Especial com o enredo “Kizomba, a festa da raça”, um dos desfiles mais aclamados da história do Carnaval carioca. O significado da palavra, de origem angolana, é esse mesmo: festa da raça. Um chamado à luta pela liberdade, um grito de resistência cultural. Contrastando com as escolas que seguiam a tendência de alegorias e fantasias luxuosas, surgia a escola de Martinho, apostando no sisal e na palha, não no brilho e nas plumas. Uma verdadeira cerimônia africana, que conquistou público, crítica e júri.

A kizomba da Vila não pôde ser revista no desfile das campeãs daquele ano, que foi cancelado devido aos temporais que caíram no Rio de Janeiro. Para 2012, a escola traz a mesma Angola como enredo. A intenção é declarada, como mostram os versos de seu samba-enredo, outro que já nasceu clássico: “Vibra, ó minha Vila / A sua alma tem negra vocação / Somos a pura raiz do samba / Bate meu peito, à sua pulsação / Incorpora outra vez kizomba / e segue na missão”. Se a da Vila vai se repetir, eu não sei, mas quem se ligou na final do Campeonato Africano de Nações, pôde acompanhar como funciona uma legítima kizomba.

A festa de Zâmbia não foi adiada por fortes chuvas, mas por um terrível acidente aéreo que, há 19 anos, matou quase toda sua seleção, quando o país se mostrava forte na luta por uma vaga na Copa de 1994. Com um time remendado e o trauma pesando na cabeça, o objetivo não foi alcançado, mesmo que Bwalya, o craque da equipe, tenha escapado da tragédia. Até hoje, os zambianos não conseguiram se classificar para um mundial. Mas no mesmo Gabão onde caiu aquele avião, veio a maior conquista do futebol de Zâmbia e o final feliz de uma das histórias mais incríveis que o mundo do esporte já viu. Tendo a competição duas sedes, quis o destino que os “balas de prata” só deixassem a Guiné Equatorial para disputar a final em território gabonês.

Chegaram, homenagearam com flores os mortos na praia onde ocorreu o acidente e jogaram de igual pra igual com a favoritíssima Costa do Marfim. Viram Drogba perder um pênalti e poderiam muito bem ter saído vencedores no tempo normal, e também na prorrogação. Mas o que é uma tensa decisão por pênaltis para quem já passou por apertos no peito bem piores? Um enredo sobre a conquista de Zâmbia traria tudo que as escolas de samba, seus carnavalescos e compositores adoram. Negros vencendo adversidades e a coroação de grandes heróis. E cabem aí os orixás que você quiser, pois todos eles devem ter dado a sua forcinha na façanha. E que divindidade se negaria a colaborar com tão nobre causa?

Nada de escravo apanhando e navio negreiro formado por corpos, como a Beija-Flor, de forma apelativa, trará na próxima madrugada de segunda, em seu desfile oficial. Um enredo sobre a “Kizâmbia” seria uma grande celebração. Afinal, brasileiros e africanos gostam de cantar e dançar para espantar as suas dores, não para alimentá-las. E embora o capitão Katongo, eleito melhor jogador da final e da competição, não seja exatamente um eclesiástico, fica o chamado da Vila Isabel de 1988, que encaixa perfeitamente com o que vimos ontem, no momento em que ele levantou a taça. Versos que refletem também a emoção de quem, de muito longe do continente africano, assistiu a tudo e se emocionou junto:

“Sarcedote ergue a taça,
convocando toda a massa
Neste evento que congraça
gente de todas as raças,
numa mesma emoção
Esta Kizomba é nossa constituição
Esta Kizomba é nossa constituição”

Publique-se, respeite-se e cumpra-se.

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Equipe Trivela

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