Champions LeagueSem categoria

Juanma Lillo, a mente reverenciada que serve de elo entre Sampaoli e Ranieri

No final da década de 1990, Claudio Ranieri viveu seu primeiro trabalho no futebol espanhol. Referendado principalmente pela ascensão da Fiorentina, o comandante chegou a Valencia em 1997, para dirigir os Ches em tempos abastados do Mestalla. Conquistou a Copa do Rei em 1999, embora não tenha tirado o melhor de algumas de suas estrelas. Por outro lado, em maio de 1998, um tropeço pouco significativo para a carreira do italiano significou um dos maiores triunfos àquele que é considerado “mestre” a Pep Guardiola e Sampaoli. Juan Manuel Lillo treinava o Tenerife que bateu o Valencia na última rodada de La Liga, em agonizante virada por 3 a 2. O resultado assegurou a permanência dos blanquiazules na elite.

O currículo de Lillo diz pouco sobre o respeito que sustenta. A partir dos anos 1980, rodou por clubes médios da Espanha. Durou um pouco mais no Salamanca, levando a equipe da terceira à primeira divisão do Espanhol. Teve uma chance na Real Sociedad, a principal de sua carreira, onde não durou mais do que alguns meses. Porém, se os trabalhos não fazem jus às suas capacidades, as amizades dizem muito sobre a mente privilegiada do basco.

Lillo começou sua vida como treinador em equipes amadoras de Tolosa, sua cidade natal. E isso com apenas 16 anos. Aos 22, o fenômeno iniciou o curso para ser diplomado como técnico. Era colega de classe de Roberto López Ufarte, atacante do Atlético de Madrid com passagem pela seleção espanhola. Também crescido no País Basco, o jogador criou uma amizade com o novato. E, através dele, Lillo pôde conhecer seu grande ídolo. Na época, o técnico colchonero era César Luis Menotti, campeão do mundo com a Argentina em 1978 e referência mundial na casamata.

Durante sete horas ininterruptas, Lillo e Menotti conversaram sobre futebol. O argentino passou a admirar o “monstrinho”. Serviu de tutor ao jovem. Admiração inesperada parecida com a que Juanma recebeu tempos depois, já como técnico principal do Oviedo. Em 1996, sua equipe vendeu caro a derrota por 4 a 2 para o Barcelona de Bobby Robson. Nos vestiários, o treinador recebeu a visita de Pep Guardiola, então meio-campista blaugrana. O catalão elogiou a postura do time de Lillo e disse que já apreciava seu trabalho, por aquilo que havia feito com o Salamanca. Perguntou se poderiam manter o contato.

Assim como aconteceu com Menotti, Lillo virou um mestre a Guardiola. A ponto de, quando se transferiu ao futebol mexicano, o meio-campista conseguir arranjar a contratação do técnico pelo Dorados de Sinaloa. O contato se aproximou e o catalão desfrutava de um laboratório, acompanhando todos os métodos aplicados sobre o elenco, também estrelado por Loco Abreu. Já quando passou a trabalhar no Barcelona, Guardiola rotineiramente ligava para Lillo antes e depois de seus jogos, tirando dúvidas e pedindo opiniões.

O último serviço de Lillo como técnico principal aconteceu em 2014, durante uma malfadada passagem pelo Millonarios. No ano seguinte, contudo, conheceu Jorge Sampaoli. Recebeu o convite do rosarino para auxiliá-lo na seleção chilena, coordenando as categorias de base. Simbiose imediata, pelas ideias e filosofias de ambos. A resistência da federação chilena em renovar o contrato com o basco ajudou a acelerar a saída de Sampaoli. E, quando este assumiu o Sevilla, carregou consigo o assistente ao Ramón Sánchez-Pizjuán. O veterano de 51 anos é parte primordial do trabalho na Andaluzia, especialmente na coordenação dos treinamentos.

Futebolisticamente, Lillo bebeu da mesma fonte de seus amigos. Preza pelo futebol ofensivo, de pressão e qualidade nos passes. Mas também possui as suas convicções e teimosias, com uma pitada de Marcelo Bielsa. Nunca comemora os gols de sua equipe, pois acredita que isso seria usurpar a alegria alheia. Os próprios jogadores é que devem desfrutar plenamente da celebração. Além disso, assiste aos jogos apenas sentado no banco de reservas. Diz que, se fica em pé, é porque não realizou direito o trabalho durante a semana. Quebrou a regra apenas no dia em que levou 8 a 0 do Barcelona de Guardiola, quando estava no Almería. Queria mostrar que também era parte do resultado, não se esconder.

Nesta quarta, duas décadas depois, Lillo reencontra Ranieri. Ficará sentado no banco e esperará não comemorar muitos gols do Sevilla. O time azeitado de Jorge Sampaoli é favoritíssimo no confronto, especialmente pela queda de desempenho do Leicester na temporada. Os papéis de 1998 se reverteram. Mas o basco certamente não deseja viver outra surpresa, como aquela que o beneficiou há 19 anos.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo