Jogue o Jogo, Jogador

Por João da Paz

A participação do futebol na vida do brasileiro vai além das quartas e dos domingos. Nestas datas o momento é de parar em frente à televisão e assistir uma partida qualquer, mesmo que não seja do time de coração. Porém, todo jogo acaba e após isto a vida segue. Não importando a classe social, as alegrias e tristezas vêm e inconscientemente elas são administradas com o linguajar do futebol, com dizeres motivacionais proferidos pelos participantes do esporte bretão.

Com certeza quem inventou o futebol nunca imaginaria que um simples jogo seria tão representativo para uma nação. Com certeza quem acompanha o futebol não crer que algo bom pode sair das entrevistas dos jogadores/treinadores/dirigentes. Embora que, sem muito esforço, se percebe algo de interessante em algumas falas com potencial de ser um fator importante no nosso cotidiano.

A vida é um jogo e os participantes valem mais do que peças azuis e rosa em cima de um tabuleiro. A todo o momento é necessário tomar decisões, vestir a camisa para… Viu só? Vestir a camisa… Este é o primeiro passo, tomar uma atitude e assumir responsabilidades. Desde o início da humanidade nos deparamos com a transferência de culpa: “Foi a mulher que o Senhor deu pra mim” ou “É culpa da serpente”. Até que este sentimento vem saindo de moda no futebol onde atletas, quando derrotados, não assumiam erros e falhas. Hoje é possível ouvir caras falarem das próprias deficiências, individuais ou coletivas; o caminho certo para se corrigir os equívocos.

Vestir a camisa implica ter a percepção da responsabilidade perante aquilo que se faz, assumir o ideal proposto. Evidente que há os que são falsos, beijam escudos por aí e não tem a exata noção do significado da palavra compromisso. Vivem na ilusão de que vão se dar bem se comportando desta forma. Ledo engano: quem não é compromissado, não desfruta a vida dignamente.

Um dilema surge: estes que mudam de clube constantemente, qual exemplo que eles dão? O dinheiro é mais importante do que a lealdade? Bem, é preciso afirmar que em grande parte das decisões dos atletas, de deixar um clube pra ganhar mais dinheiro em outro, é totalmente correta. Ou não se faz por aí o mesmo em outras profissões? Como se um gerente, por exemplo, que trabalha numa multinacional e a principal concorrente lhe oferece um maior valor salarial, não sairia do atual cargo. O mesmo interesse que move os jogadores de futebol move qualquer profissional.

Por isso que temos que atuar conforme o jogo se desenvolve. Se há uma oportunidade de melhorar de vida, porque não aceitar a proposta? Não é questão de se vender, é questão de ser inteligente e aproveitar as chances que a vida oferece. Ao conseguir várias vitórias no âmbito pessoal, a tendência é surgir uma acomodação natural que pode levar à derrota. Exatamente por essa razão que decisões “aproveitadoras” devem ser tomadas quando tudo está bem, visto que em seguida uma sequencia de resultados negativos pode aparecer.

E quando a maré não tá boa e só derrotas são computadas? A esperança não deve ser descartada. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, é um adepto de metáforas futebolísticas. Comentando sobre as eleições presidenciais de 2010 em um discurso no dia 21 de Dezembro de 2009, tempo que sua candidata Dilma Roussef estava atrás nas pesquisas, ele disparou: “Desde que começou meu segundo mandato, o Serra [candidato da oposição] está na frente das pesquisas. Pesquisa é igual a campeonato. Veja o Palmeiras [no Brasileirão 2009]: sempre esteve na frente e o Flamengo ultrapassou.”

As reviravoltas acontecem com frequência. É comum ver times fortes sucumbirem e times mais fracos ascenderem. Assim se aprende duas coisas: nunca deve ser largado o sonho de conseguir chegar ao topo; e, como diz a palavra sagrada “Aquele, pois, que estar em pé, tome cuidado para que não caia” (1 Co 10:12).

Em ambos os casos, a ousadia sempre é bem vinda; tanto para permanecer por cima quanto para sair do marasmo. Muitos usam a famosa frase do Vanderlei Luxemburgo “O medo de perder tira a vontade de ganhar” de forma depreciativa e jocosa. Contudo ela tem um valor significativo notório, maior do que muitos imaginam.

Ninguém vence nem é bem sucedido de braços cruzados, sentado no sofá de casa ou deitado na cama esperando alguém trazer vitórias. Quem é que consegue algo de proveitoso na vida se comportando como um inerte, sem progresso? Qual time vai vencer um jogo sem atacar, sem ser pró-ativo mesmo estando na frente do placar? Justamente com o resultado positivo a favor, recuar para segurar a vantagem não é a melhor e nem a mais segura das opções. Entretanto, como Luxa disse, este medo de perder tira a vontade de ganhar. A preocupação, o receio de desperdiçar uma liderança conseguida faz com que este temor vem de fato a se concretizar. O ideal é permanecer agressivo e constante após obter um resultado favorável, desta forma é mais fácil mantê-lo ou até ampliá-lo.

O mal da acomodação trava muita gente. Este é uma espécie de corrente que nos prende ao “bom”, deixando uma pessoa com um grande potencial para conseguir grandes coisas se encostar na sombra do “bom”. A frustração vem quando de lá se observa outros iguais ou inferiores se deleitando no “ótimo”, “excelente”, “prazeroso”. Aqueles que estão na sombra do “bom” almejam ir a outros lugares, mas o medo de perder o conforto tira a vontade de alcançar novos ares.

Os que assumem o conceito de sempre seguir em frente em busca do melhor, não fica cabisbaixo por nada, mesmo que um revés tenha ocorrido. Se uma pessoa pisou na bola e decepcionou uma confiança depositada, porque ficar sentado lamentando? O importante é o próximo “jogo” e o que vem pela frente. Caso seja uma desilusão amorosa, é só partir para outra e dar um beijinho instigante e tentador “na trave”, bom começo para uma nova experiência. Como disse Mano Menezes, novo treinador da Seleção brasileira em sua primeira entrevista coletiva: “No futebol, como na vida, a fila anda”.

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Equipe Trivela

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