Iêmen: Oásis ou miragem?

É inevitável: quando se fala em árabes e no Oriente Médio, as imagens que vêm à mente são de desertos e monarcas poderosos graças ao petróleo. Mas um pequeno país ao sul da Península Arábica tenta fugir do estereótipo e se firmar política e economicamente na região. Trata-se do Iêmen, uma república parlamentarista de economia predominantemente rural e agrícola, por possuir ao norte uma das áreas mais férteis do Oriente Médio.

O cultivo de algodão, milho e café é recente se comparado à história de ocupação do território que hoje corresponde ao país: os primeiros registros de povoamento remontam a 2300 a.C., com reinos então poderosos como os Sabeus e os Hadramaut. Séculos após a fixação de povos árabes, a próspera região norte foi anexada pelo Império Otomano (baseado no que hoje é a Turquia). A parte sul, semidesértica, foi ocupada pelo Império Britânico no século XIX.

A República do Iêmen como conhecemos hoje só veio a existir em 1990, com a unificação das repúblicas do Norte e do Sul, independentes respectivamente dos otomanos, em 1918, e dos britânicos, desde 1967. Entretanto, a barreira geográfica do deserto ainda separa o desenvolvimento do sul, mantendo as inovações e as riquezas perto da capital, Sana.

Pior que isso, a localização geográfica atrapalha o crescimento de todo o país: fazendo fronteira apenas com a Arábia Saudita e Omã, o Iêmen tem de um lado o deserto, de outro o mar: suas costas são banhadas pelo Mar Vermelho, o Mar da Arábia e o Golfo de Aden. Ao menos em uma coisa a república se assemelha a seus vizinhos: a escassez faz da água potável item de luxo.

Futebol: viciante como o ‘qat’

As características históricas, geográficas e econômicas que tornam o Iêmen um país singular no Oriente Médio ajudam a entender por que seu futebol também é menos desenvolvido que o de seus vizinhos. Um país novo, unificado há apenas 18 anos, acaba por priorizar outras áreas mais emergenciais como saúde, telecomunicações e transporte. Mas isso não significa que não haja espaço – ou tempo – para se correr atrás de uma bola.

Se no Brasil o futebol já foi chamado de ‘ópio do povo’, por fazer as pessoas se esquecerem dos problemas (algo como o pão e circo romano), no Iêmen ele poderia ser chamado de ‘qat’ do povo. Não que lá o esporte seja utilizado como instrumento de afirmação política. Mas lá, como em todo o Oriente Médio, o futebol é muito popular e no país só é batido na preferência pelo ‘qat’, planta considerada símbolo nacional. Sua folha é mascada por homens e mulheres e possui efeito semelhante ao das folhas de coca. Se consumida em grande quantidade, tem efeito alucinógeno. Ainda assim, é comum as pessoas mascarem o ‘qat’ nas ruas, demais locais públicos e, por que não, até durante uma partida de futebol da Yemeni League.

Duas nações, um time e nenhuma representatividade

A liga nacional de futebol do Iêmen nem é tão nova assim: surgiu em 1978, apenas sete anos depois do Campeonato Brasileiro. Mas quando o Al Wahda levantou o primeiro caneco da história do país, ele disputava apenas o campeonato do Iêmen do Norte, cuja federação nacional havia sido fundada já em 1962.

Com a unificação em 1990, a nova seleção do Iêmen herdou todos os resultados do Norte, já que o Iêmen do Sul possuía um futebol ainda menos desenvolvido. Além disso, a unificação na prática foi uma anexação do território do Sul, com todas as características políticas nortistas, como a capital, por exemplo, sendo preservadas. Assim, a liga que à época era do Iêmen do Norte é considerada hoje como nacional. E, de fato, pouca coisa muda, já que todas as 14 equipes que disputam a atual temporada são do norte do país.

Curiosamente, a única participação do Iêmen na fase final de uma Copa da Ásia foi registrada pela seleção do Iêmen do Sul, em 1976. Na ocasião, a equipe que vestia um nada convencional uniforme branco, roxo, azul e preto (dificilmente parecido com o do Corinthians) perdeu de 1 a 0 para o Iraque e 8 a 0 para o Irã, que recebeu a competição e depois viria a vencê-la. Entretanto, como essa participação foi do Iêmen do Sul, não entra nas estatísticas oficiais da federação atual.

Federação que, afiliada à Fifa desde 1980, inscreve o selecionado para a disputa das eliminatórias desde a Copa de 1986. O retrospecto geral até que não é ruim: apenas em metade dos 38 jogos disputados saiu derrotada. Sempre eliminada na primeira fase, nas preliminares para 2002 o time só não avançou devido a um empate em casa com a Índia, ficando a um ponto dos Emirados Árabes. Foi um feito considerável, tendo em vista o nível do futebol local.

Dificilmente um jogador de futebol do Iêmen consegue uma experiência fora do país, um pouco graças às barreiras econômicas e geográficas já citadas. Da equipe que já foi eliminada do qualificatório para 2010 (empate por 1 a 1 em casa; derrota por 1 a 0, fora, para a Tailândia), apenas o goleiro Salem Saeed não disputa a Yemeni League: joga pelo Al Nasr do vizinho Omã, terra do técnico da seleção, Mohsin Al Harthi. Ainda é muito pouco.

Realidade ou miragem?

Em que pese a dificuldade da liga nacional para se manter ativa (depois da unificação, ela não foi disputada em 1992/3 e 1995/6), o papel desempenhado por alguns ex-jogadores tem sido fundamental no gradual, ainda que lento, desenvolvimento do futebol do país. Sem a ajuda do dinheiro do petróleo, como acontece na Arábia Saudita (hoje potência continental graças ao investimento do reino), o futebol no Iêmen precisa aprender a andar com as próprias pernas.

O primeiro feito louvável foi conseguido em 2003, com a inesperada classificação para o Mundial sub-17 na Finlândia. O saldo da participação foi muito positivo. Quem esperava um sparring no chamado ‘grupo da morte’ foi surpreendido: logo na estréia, vencia Portugal por 2 a 0 no intervalo, mas acabou levando a virada (4 a 3). Contra Camarões, empate por 1 a 1 e, diante do futuro campeão Brasil, derrota por 3 a 0.

O momento foi especial. Naquele mesmo ano, era inaugurada a nova sede da federação local, graças a fundos doados pelo Programa Goal, da Fifa. Além do campo de treinamento, o complexo recebeu no ano passado nova injeção de dinheiro para a construção de salas para palestras, melhores instalações para o treinamento das equipes de base e completa infra-estrutura de atendimento médico e de preparação física.

Daquela equipe que disputou o Mundial sub-17, mais da metade faz hoje parte da seleção principal. Se os resultados recentes não são tão animadores, fica a certeza de que, ao menos, infra-estrutura o futebol no Iêmen começa a ter. A falta de experiência internacional, esta sim ainda é, mais que o deserto, o principal obstáculo a ser superado para que o futebol do país se torne, um dia, um oásis de talento – e não apenas uma miragem.

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Equipe Trivela

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