Guilhotina de técnicos

A Liga dos Campeões teve apenas uma rodada, mas três cabeças já rolaram. A primeira, e mais surpreendente, foi a de José Mourinho, no Chelsea. Depois vieram Gheorghe Hagi, no Steaua Bucareste, e Anatoly Demyanenko, no Dynamo Kiev. Apesar de não ser correto atribuir as quedas apenas aos maus resultados na estréia dos times, o número é significativo o suficiente para ser algo mais que simples coincidência.

As três saídas tiveram circunstâncias bem distintas. O Chelsea, dos times considerados favoritos ao título, foi o que teve a estréia mais decepcionante, empatando em casa por 1 a 1 com o Rosenborg. Mourinho repetiu o discurso de antes da partida, quando havia comparado sua situação a “fazer uma omelete sem ovos”, por causa da série de desfalques. Sem Drogba, Lampard, Ricardo Carvalho e Ballack – este último nem inscrito na competição –, os Blues saíram atrás dos noruegueses e só conseguiram empatar, apesar de mais de uma dezena de oportunidades criadas.

O gol do Chelsea foi marcado por Shevchenko, um dos personagens que simbolizam a relação deteriorada de Mourinho com o dono do clube, o bilionário russo Roman Abramovich. O ucraniano, amigo de Abramovich, nunca foi em Stamford Bridge o jogador que havia sido no Milan, e sua chegada fez mais mal do que bem ao elenco, tornando-se mais um ponto de discordância entre o chefão e o treinador português. O resultado contra o Rosenberg foi, na prática, a gota que transbordou o copo.

Mourinho é um personagem histórico da Liga dos Campeões. O título conquistado em 2004, com o Porto, sempre lhe escapou das mãos com o Chelsea. Ficam marcados momentos como as épicas partidas com o Barcelona, a eterna reclamação pelo gol que levou o Liverpool à final em 2005, o curioso episódio do esconderijo no cesto de roupas para burlar uma suspensão em um confronto com o Bayern de Munique. De qualquer forma, a LC não ficará sem o “Special One” por muito tempo. Se não for ainda nesta temporada, certamente será na próxima.

Hagi pediu demissão por não admitir se submeter aos desmandos de Gigi Becali, o polêmico dono do Steaua. Depois do empate sem gols no jogo com o Rapid Bucareste, pelo Campeonato Romeno, Becali exigiu que Hagi, um dos maiores jogadores da história, escalasse Badoi e Surdu como titulares na estréia na LC, contra o Slavia Praga, na República Tcheca. Disse que queria “fazer de Hagi um treinador tão grande como foi quando jogador”.

A melhor atitude para Hagi teria sido sair ainda antes do jogo. Ele tinha outros planos, e mandou o time a campo como achava melhor, sem atender aos caprichos de Becali. Derrotado por 2 a 1, Hagi entregou o cargo. Resta saber se, caso o Steaua tivesse vencido, Becali teria cumprido a promessa e demitido o treinador pela desobediência.

A saída de Demyanenko do Dynamo já era esperada, e a derrota por 2 a 0 para a Roma apenas confirmou o inevitável. Como citou Gustavo Hofman (colunista de Rússia/Ucrânia) em seu texto sobre o clube no Guia Trivela da Liga dos Campeões, o técnico já havia perdido a confiança da direção, e o mau começo do time no campeonato nacional só fez acentuar os problemas.

O Dynamo tem sido obrigado a lidar com um papel secundário, vendo o rival Shakhtar Donetsk se reforçar com um forte investimento e começar forte na LC, derrotando o Celtic por 2 a 0 em casa.

Estréia de campeão

O Milan mostrou autoridade no início da defesa do título. O placar de 2 a 1 sobre o Benfica pode sugerir um jogo mais difícil, mas os Rossoneri nunca deram a impressão de que sairiam sem os três pontos. Com 10/11 do time que começou a final de Atenas (Kaladze no lugar de Maldini), o Milan teve uma de suas tradicionais noites européias. O hábito, porém, pode acostumar mal a torcida.

O capitão Maldini, que deve voltar ao time em outubro, tratou de dar um puxão de orelha nos torcedores, que tiveram uma postura apática durante a estréia na LC. Coros de apoio ao time foram ouvidos apenas em raros momentos. A crítica foi endossada pelo técnico Carlo Ancelotti.

Maldini faz questão de estar em Moscou para fazer da final da Liga dos Campeões sua última partida como profissional. E não mudará de idéia nem que tenha a oportunidade de levantar a taça do Mundial da Fifa em dezembro, no Japão. “A Liga dos Campeões e muito mais importante”, disse.

Único time à frente do Milan no ranking de títulos, o Real Madrid teve mais dificuldades do que imaginava contra o Werder Bremen, mas venceu por 2 a 1 e manteve um início perfeito de temporada. Melhor imagem deixou o Barcelona, que contou com um inspiradíssimo Lionel Messi para vencer o antes-forte Lyon por 3 a 0.

Tão impressionante quanto o Barcelona foi o Arsenal. A vitória por 3 a 0 sobre o Sevilla foi cheia de estilo, e confirmou a condição do meio-campista Cesc Fàbregas entre os nomes de elite da posição no futebol internacional. Aos 20 anos, Fàbregas se porta como um veterano e mostra que liderança é bem mais que o posto de capitão, inexplicavelmente ocupado por Gallas.

Manchester United e Liverpool voltaram de Portugal com resultados satisfatórios. O United fez 1 a 0 sobre o Sporting, com boas atuações de Cristiano Ronaldo e Nani, que enfrentavam o ex-clube, e do goleiro Edwin van der Sar. O Liverpool empatou por 1 a 1 com o Porto, mesmo ficando com um jogador a menos por mais de meia hora após a expulsão de Jermaine Pennant.

Alemães e Inter, as decepções

Três jogos, três derrotas. Este é o saldo da primeira rodada para o futebol alemão. Se o Werder Bremen pode ser perdoado pelo previsível revés em Madri, o mesmo não pode se dizer dos outros dois representantes da Bundesliga. O Schalke 04 perdeu em casa por 1 a 0 para o Valencia, e o Stuttgart caiu por 2 a 1 diante do Rangers, de virada, na Escócia. Não há muitas razões para acreditar que alguém repetirá a grande campanha do Bayer Leverkusen, finalista em 2002.

A Internazionale, derrotada por 1 a 0 pelo Fenerbahçe na Turquia, mostrou que a competição européia continua sendo sua asa negra. Apesar de ter entrando em campo com sérios desfalques na defesa – Chivu e Materazzi, lesionados, Maicon, Córdoba e Burdisso, suspensos –, o time de Roberto Mancini mostrou uma inexplicável falta de disposição e foi presa fácil para o Fenerbahçe de Roberto Carlos e Alex. Deivid marcou o gol que talvez tenha sido o mais bonito da rodada, e o placar só não foi maior por causa da atuação de Júlio César.

Seleção da rodada

Van der Sar (Manchester United); Oddo (Milan), Koppinen (Rosenborg), Juan (Roma), Roberto Carlos (Fenerbahçe); Pirlo (Milan), Xavi (Barcelona), Fàbregas (Arsenal), Alex (Fenerbahçe); Messi (Barcelona), Raúl (Real Madrid).

Copa Uefa fala grego

O impressionante desempenho dos times gregos foi a grande atração da rodada de ida da primeira fase da Copa Uefa. Os cinco representantes do país venceram seus jogos, com destaque para os 3 a 0 do AEK sobre o bom time do Red Bull Salzburg, da Áustria. Rivaldo deixou sua marca. O resultado, porém, não foi tão inesperado quando os de Larissa, Aris e Panionios.

O Larissa, campeão da Copa da Grécia, venceu o Blackburn Rovers por 2 a 0 e vai tentar defender a vantagem fora de casa, a exemplo do Aris, que bateu o Zaragoza por 1 a 0. Melhor ainda é a situação do Panionios, que venceu o Sochaux por 2 a 0 na França. Fechando o grande dia para a Grécia, o Panathinaikos venceu o Artmedia por 1 a 0, na Eslováquia.

Em contrapartida, os ingleses – com exceção do Tottenham Hotspur, que goleou o Anorthosis Famagusta por 6 a 1 – decepcionaram. Além do Blackburn, outros dois times da Premier League passaram sem vencer. O Everton recebeu o Metalist Kharkiv, da Ucrânia, e ficou no 1 a 1, enquanto o Bolton teve de se contentar com o mesmo placar na visita ao Rabotnicki, da Bósnia.

O Bayern de Munique, apontado como principal candidato ao título, teve uma atuação apagada e só conseguiu fazer 1 a 0 em casa no Belenenses, gol de Luca Toni. O Ajax, tentando se recuperar de outro fracasso na LC, venceu o Dínamo Zagreb também pela contagem mínima, na Croácia.

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Equipe Trivela

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