Gradi-dependência

“Mais admirado clube do futebol inglês”. Na falta de títulos em campo, o Crewe Alexandra Football Club pode se gabar de ser o único detentor desse, concedido pela revista FourFourTwo em 2006. O motivo? A valentia da equipe que, por muitos anos, mantém-se entre as quatro primeiras divisões do País, mesmo com um orçamento inferior até ao de clubes abaixo dessas quatro séries. Fruto de um forte trabalho de base reconhecido inclusive pela Football Association (FA), que considera o clube uma academia de talentos, sendo o mais recente deles Dean Ashton, hoje goleador no West Ham e jogador da seleção.

Mas tudo foi possível graças ao trabalho duro de Dario Gradi, que desde 1983 está no time, sendo que, em julho de 2007, deixou o comando da equipe para trabalhar como diretor de futebol do Crewe. A saída do treinador foi inclusive tema de uma reportagem na Revista Trivela de julho de 2007. No entanto, após sua saída, o time colheu resultados pífios, e, depois de muito tempo, já vê como claro o rebaixamento para a League Two, o que deixaria o clube a um passo de sair da Football League (que envolve as quatro primeiras divisões inglesas). Foi preciso que Gradi assumisse, ainda que temporariamente, a equipe na temporada 2008/09, para que o time saísse de uma sina de derrotas intermináveis obtidas com Steve Holland no comando.

E por que, ao se falar dos Alex, é necessário falar de Gradi? Porque o grande momento da história da equipe se passou sob sua coordenação, e fez com que o time da pequena cidade homônima, com cerca de 60 mi habitantes, ganhasse respeito. Cidade que, em 1877, já possuía uma equipe de cricket de sucesso, e viu, naquele ano, nascer o Crewe Football Club, que, desde então, já ganhou o apelido de Railwaymen (ferroviários), em virtude dos tradicionais serviços férreos locais. Em homenagem à rainha consorte do Reino Unido, Alexandra da Dinamarca, o “Alexandra” foi anexado ao nome.

(Quase) nascido para perder?

O time, pode-se dizer, não nasceu para grandes conquistas. Basta dizer que, além de não ter conquistado um título nacional ao longo desses anos, nunca ao menos chegou ao que hoje conhecemos como Premier League. Apesar disso, em 1888, chocou ao alcançar às semifinais da Copa da Inglaterra. É a melhor campanha da equipe em um torneio de nível nacional até hoje na história. E olha que já se vão mais de 120 anos desde o histórico feito…

O clube, aliás, foi um dos fundadores justamente da Segunda Divisão (então chamada Division Two), em 1892, com o término da Football Alliance, criada no final dos anos 80 do século 19 para rivalizar com a Football Association . Sem sucesso, o Crewe se uniu a equipes como Lincoln City e Walsall para fundar a Football League Second Division. A estréia não foi das melhores, e ilustra o papel que os Alex tinham, de fato: derrota por 7 a 1 para o Burton Swifts (atual Burton United).

Para não se dizer que a equipe nunca levantou nenhum troféu, a história remete a 1936 e 1937, anos das duas únicas conquistas da história da equipe: o bi da Welsh Cup, a copa do País de Gales, quando superou, nos respectivos anos, Wrexham e Rhyl. Na ocasião, clubes com localização próxima a Gales podiam disputar a competição. Na mesma época, surgiu aquele que é o maior artilheiro da história da equipe: Herbert Swindelss, com 126 tentos assinalados pela liga inglesa.

Os anos 50 e 60 marcaram algumas apresentações históricas do clube, tais como um heróico empate em 2 a 2 com o Tottenham, em uma partida na qual o estádio Greasty Road (com capacidade para aproximadamente 11 mil pessoas), recebeu quase 20 mil pagantes. O jogo era válido pela Copa da Inglaterra e, no replay, massacre londrino por 13 a 2 — a maior goleada já sofrida pelos ferroviários. Nesse mesmo período, o time viveu um de seus maiores recordes negativos: 56 jogos sem vitória fora de casa, encerrados em 1955.

Em 1961, mais um feito histórico. O Chelsea, embora apenas hoje seja a potência que é, sempre foi um clube que disputou boas posições na elite inglesa. No entanto, naquela edição da Copa da Inglaterra, surpresa: mesmo em Stanford Bridge, o Crewe venceu os Blues, que continham jogadores com passagens por Greasty Road, como o ex-jogador e treinador Terry Venables, por um apertado 2 a 1. Na rodada seguinte, no entanto, novo encontro com os Spurs e nova goleada. Contra. Ao menos, dessa vez, foi “apenas” 5 a 1.

A chegada de Gradi

O começo dos anos 80 era sombrio em Greasty Road. A equipe estava na quarta divisão, a última da Football League, e com sério risco de rebaixamento. Foi quando chegou ao clube o milanês Dario Gradi. Assim que pisou no Crewe, deu a receita — que não era lá muito seguida anteriormente — para um clube sem recursos, sem milionários que pudessem investir uma nota e sem muita ajuda da própria torcida, que não chegava a preencher direito nem 20% do estádio: apostar na base. Desde então, Gradi realizou um trabalho de incansável observação de jogadores, desde o começo, e já passava a contar com alguns deles no time principal. Basta dizer que o atleta mais jovem a jogar pelos Railwaymen, com 16 anos e 119 dias, Steve Walters, surgiu sob seu comando.

Claro que esse trabalho não é simples, e foram necessárias seis temporadas para que o clube, então candidato ao rebaixamento para a quinta divisão, chegasse à terceira, em 1989. Anos depois, em 1997, voltou a fazer história, levando os Alex a uma inacreditável vaga na segunda divisão, após obter o acesso no play-off de promoção, contra o Brentford. Era incrível: o time, que há alguns anos era dado como fora da Football League, estava a uma divisão da Premier League. E no ano seguinte, em 1998, já obteve um honroso 11º lugar. Isso, claro, incentivou a torcida, que passou a lotar as arquibancadas de Greasty Road, e comoveu a Inglaterra.

Apenas em 2002 o clube, em uma temporada ruim, voltaria a ser rebaixado. Mas para voltar em alto estilo na temporada seguinte, obtendo, pela primeira vez em sua história, uma promoção automática, com o vice-campeonato da Terceirona. Cada vez mais, Gradi ganhava status de mito, não apenas em Crewe, mas em toda a Inglaterra. E seguia com seu bom trabalho de revelar jogadores.

Tanto que foi sob seu comando que Dean Ashton deu os primeiros passos como jogador profissional, ainda aos 17 anos. Tratava-se do principal jogador da equipe até a temporada 2004/05, quando foi negociado com o Norwich. Basta dizer que, com sua saída, a equipe não venceu mais até o fim da competição, e quase foi rebaixada para a League One (terceira divisão), salvando-se pelo saldo de gols. O que não ocorreria na temporada seguinte, quando o time caiu para a Terceirona para, até agora, não mais voltar. Mesmo assim, a coragem dos Alex foi premiada em 2006, pela revista FourFourTwo, com o prêmio de “Clube Mais Admirado da Inglaterra”.

Sem Gradi…

Com a saída de Dario Gradi do comando do Crewe, em 2007, Steve Holland chegou mas, nem de longe, aproximou-se dos resultados do italiano. Viu o time ficar próximo do rebaixamento para a League Two na temporada passada, e, após derrotas e mais derrotas, foi demitido ainda no meio do primeiro turno do campeonato deste ano. A equipe viu, novamente, uma histórica sina – a de não vencer fora de casa – voltar à tona. E quem veio para salvar o barco, ao menos até a rodada da virada de ano? Dario Gradi. De novo. Apesar de ainda ser o diretor de futebol, o mito alexandrino conseguiu recolocar o time no trajeto de vitórias, ainda que não tenha tirado o clube da lanterna da Terceirona.

Recentemente, Gudjon Thordarson assumiu o comando da equipe, que, dessa vez, vê o destino cada vez menos positivo. Com grandes chances de rebaixamento, resta ao islandês tentar salvar o trabalho que Gradi executou ao longo dos mais de 20 anos que esteve em Greasty Road e, se for para cair, que o faça com dignidade. Dignidade, aliás, que sempre foi marca registrada do corajoso time vermelho.

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Equipe Trivela

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