França: A derrocada do Paris Saint-Germain

Nas duas últimas temporadas, os torcedores do Paris Saint-Germain se acostumaram a ver seu time se preocupar mais em evitar a queda para a segunda divisão do que brigar pelas primeiras posições da Ligue 1. Para uma equipe com pensamentos grandes, o modesto desempenho dentro de campo tem sido uma conseqüência lógica de seu desequilíbrio fora das quatro linhas. Um labirinto cuja saída não parece ao alcance das mãos.

O colapso do PSG coincidiu com a crise vivida pelo Canal +, seu proprietário até meados de 2006. A emissora fazia parte do grupo Vivendi Universal, cujos seguidos resultados financeiros ruins forçaram a empresa a cortar gradativamente seus braços menos lucrativos. Sem a mesma fartura de outros tempos para reforçar seu elenco, o time da capital ainda se viu envolvido em um escândalo de irregularidades na transferência de diversos jogadores – a negociação de Ronaldinho estava entre as suspeitas. Para fechar, a política de contratações do clube deu muito espaço para jogadores caros e de talento duvidoso como os brasileiros Souza e Héverton Santos, o argentino Gallardo e o russo Sergei Semak.

Sem dinheiro e com a imagem manchada por um caso de forte repercussão negativa, o clube viu a chance de atrair possíveis investidores ir para o ralo. Um grupo formado por três empresas (Colony Capital, Butler Capital Partners e Morgan Stanley) resolveu arriscar e, por € 41 milhões, comprou o PSG. Contudo, o que era para se tornar uma esperança de dias melhores, logo se tornou decepção.

“O time dominará o mundo. Quero fazer dele o clube mais importante da Europa. E com um estádio de 90 mil lugares, lojas e restaurantes, porque é necessário ter em mente que o mundo muda e que a coisa mais inacreditável nos estádios é que eles são velhos”, declarou um megalômano Tom Barrack, dono da Colony Capital. Tal pensamento serviu apenas para iludir a torcida e afundar ainda mais o clube.

Velhos problemas se repetiram elevados ao quadrado. Não dá para se querer pensar na conquista de títulos importantes com a contratação de jogadores a um preço elevado e com baixíssimo retorno. Gallardo, Hellebuyck, Souza, Anelka e outros se encaixam neste perfil. Especialmente nas duas temporadas mais recentes, a ordem no clube foi pegar atletas de baciada. Peneirando-se com muito esforço, um ou outro se salvou. O jeito foi recorrer a jovens das categorias de base, que queimaram etapas de seu aprimoramento com promoções prematuras e uma gigantesca responsabilidade de carregar a equipe nas costas.

A alta rotatividade de atletas não foi exclusividade no clube. O banco de reservas esteve bem quente: Alian Giresse, Artur Jorge, Philippe Bergeroo, Luis Fernandez, Vahid Halilhodzic, Laurent Fournier, Guy Lacombe e Paul Le Guen sentiram o peso da instabilidade interna do PSG, desde os momentos de declínio da força do Canal + até a inoperância demonstrada pelos novos investidores.

No alto escalão, as trocas de presidente também se tornaram uma constante. A partir de 1998, com a saída de Michel Denisot, em cuja gestão o clube viveu seu período mais glorioso, Charles Biétry, Laurent Perpère, Francis Graille, Pierre Blayau, Alain Cayzac e agora Simon Tahar passaram pela cadeira mais importante do PSG. No entanto, tamanha inconstância apenas configura a maneira como o clube trata seus projetos. Sem a menor estabilidade, qualquer planejamento a médio e longo prazo se compromete completamente.

Além de todos estes ingredientes, a própria torcida do Paris Saint-Germain contribuiu para a criação de um clima insuportável no Parc des Princes. Para começar, os seguidos atos de hostilidade contra seus próprios atletas, tanto em protestos dentro do estádio como em invasões ao centro de treinamentos da equipe, com cobranças públicas de satisfação, bate-bocas e selvageria, deixam até o mais calmo atleta temer as possíveis conseqüências de uma falha dentro de campo.

Nesta temporada, os Boulogne Boyz protagonizaram outro episódio repugnante, quando participaram da confecção de uma faixa com insultos racistas exibida no Stade de France, durante a final da Copa da Liga Francesa contra o Lens. O caso reavivou a lembrança de outros atos hostis deste grupo de ‘ultras’ – por exemplo, a perseguição a um torcedor do Hapoel Tel Aviv após um jogo pela Copa Uefa, na qual um membro da torcida organizada foi morto por um policial à paisana. Cansado de ver tais situações se repetirem, o governo francês dissolveu o grupo. O caso da bandeira rendeu a exclusão do time da capital da próxima edição da Copa da Liga.

Com as seguidas trocas de presidentes, treinadores e jogadores, aliadas à falta de perspectivas melhores trazidas por seu novo proprietário e com uma torcida pronta para fechar o tempo, o PSG passa por um de seus piores momentos de sua história. Embora tenha vencido a Copa da França e a Copa da Liga nos anos recentes, o clube nem ao menos pode comemorar a classificação para a Copa Uefa, na qual não deve esperar por grandes resultados.

Para o futuro próximo, a realidade se mostra dura: os investidores pretendem apertar os cintos e seguir com a contenção de gastos. Com a saída de Pauleta, seu principal jogador neste período de crise, o clube precisará de um milagre para se dar bem na temporada 2008/09.

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Equipe Trivela

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