Fim do vestiário

A Itália vê uma novidade curiosa nesta temporada da Serie A. Câmeras instaladas dentro dos vestiários permitem que os torcedores acompanhem o antes e o depois dos jogos, sentindo o clima, assistindo o que os jogadores fazem, como se comportam.

A ideia é divertida. Afinal, quem de nós, que é fanático por futebol, jamais pensou em ver o que acontece no vestiário, quando o técnico está instruindo os jogadores ou quando um está conversando com o outro, combinando algo. Ou mesmo para ver quem se dá bem com quem, quem não se olha… Dá para saber o que o craque do seu time faz antes dos jogos que ele usualmente arrebenta e o que aquele pereba que é vaiado fica fazendo antes de te deixar nervoso na arquibancada.

Tudo isso gera tanta curiosidade que é cada vez mais comum o lançamento de DVDs após conquistas importantes mostrando justamente alguns desses momentos, que emocionam o torcedor. É bacana mesmo ver. Só que ali está tudo editado, escolhido os momentos épicos (e excluído aqueles de crise, que todo mundo se xingou ou quando o técnico falou centenas de palavrões apõs uma derrota inesperada).

A questão é que colocar câmeras dentro do vestiário para assistir em tempo real, tal qual um “Big Brother” do futebol, é que isso muda a forma como o trabalho do técnico e dos jogadores é feito. Afinal, é inegável que o comportamento diante das câmeras é um, enquanto sem elas é outro. E isso é natural: todo mundo é assim. A câmera é um fato que muda o modo como as pessoas se comportam.

Imagine então uma situação como aquela que já foi descrita algumas vezes por testemunhas, que Freddy Rincón quase foi às vias de fato com Edílson e Marcelinho Carioca. Ou um técnico como Luís Felipe Scolari chamando a atenção do time, que está mal no campeonato, gritando e falando palavrões, incentivando ao mesmo tempo que tenta tocar na ferida dos jogadores para motivá-los. Isso tudo vai acabar com as câmeras ali presentes o tempo todo.

Em um mundo cada vez mais politicamente correto, será que é isso que queremos? Acabar com a conversa do vestiário, a privacidade de resolver problemas do time a portas fechadas? Tiraremos o sagrado direito de um xingar o outro e depois resolverem tudo como homens, conversando, sem a interferência externa? Precisamos mesmo saber o tempo todo o que acontece no vestiário? Eu, sinceramente, acho que não.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo