Eu lembro o que vocês fizeram no verão passado

Com os estaduais cada vez mais modorrentos, alguns acabam fugindo quase que completamente do radar. Um bom exemplo é o Campeonato Mineiro, que conta com três times que disputaram a Série A no ano passado (tá bom que um caiu, outro quase caiu e um terceiro se deu por satisfeito de ter escapado da degola com antecedência, o que não vem ao caso), mas recebe tanta (des)atenção da mídia quanto campeonatos sem representantes até na Série B. A fórmula não ajuda, como na maioria de seus pares, adiando momentos decisivos até não poder mais. Mas nesse domingo, tivemos clássico no Mineiro: Memória Curta x Trauma Recente.

Rolou um Atlético x Cruzeiro também, embora a paisagem não sugerisse isso. Se já é estranho ver clássicos de uma torcida só, a coisa parece ainda mais fora do contexto quando os rivais em questão estão acostumados a dividir um estádio. Ou dois, já que enfrentam juntos o exílio em Sete Lagoas, enquanto a reforma do Mineirão não termina. E foi numa Arena de Jacaré colorida em preto e branco, que o cenário se pintou surreal. O mandante, de 10 vitórias em 10 jogos em 2012, já entrou em campo acossado, com direito a faixas de torcida viradas de cabeça para baixo. E o empate, resultado normal para esse tipo de confronto, serviu de munição para os protestos.

As chagas do vexame da última rodada do Brasileirão ainda estão bem abertas na carne de cada atleticano. Podendo rebaixar o rival, o Galo perdeu por incríveis 6 a 1, gerando muita vergonha alheia e teorias da conspiração para todos os gostos. Natural que o torcedor siga carregando essa dor e a levasse nos ombros no primeiro reencontro com o Cruzeiro. E, expressada sem violência, a revolta é totalmente justificada.O louvável da situação, no entanto, não é a pressão feita pela torcida, mas sim vê-la não se deixando enganar pelas mamatas que o calendário brasileiro oferece a seus clubes mais fortes no começo de cada temporada.

Boa campanha no estadual não enche barriga. Ainda mais quando essa primeira fase apenas serve pra separar o joio do trigo (em alguns casos, o joio que envenena do joio que só maltrata o paladar). Mal o título vale de alguma coisa. Para um clube de primeira divisão, passar das primeiras fases da Copa do Brasil, com todo respeito aos charmosos (ou inexpressivos) adversários de todos os rincões do país, é obrigação. Então, pode sim o time embalado com 100% de aproveitamento manter-se em divída com o seu torcedor.

Cabe a ressalva: os resultados contra o maior rival não devem ganhar peso maior do que já têm. O tal “campeonato à parte” só merece atenção enquanto não atrapalhar o foco do clube em ambições maiores. Por exemplo: o flamenguista que exagera na comemoração da vitória em um clássico que nem decisivo era, na semana em que seu clube se complicou na Libertadores e o Vasco se classificou à próxima fase, não está agindo com espontaneidade e irreverência, mas sim com cara de pau e falta de critério. Pior é notar que alguns dirigentes e jogadores também embarcam na mesma farsa.

Não se deixar levar por resultados enganosos pode ser um sinal de amadurecimento. Caso o Galo siga avançando na Copa do Brasil e faça uma campanha condizente com as suas possibilidades no Brasileiro, mesmo que isso venha sem vitórias frente ao Cruzeiro, a torcida atleticana terá de demonstrar que a reação de ontem foi uma cobrança justa, não uma simples demonstração de rancor. É perigoso vestir a camisa do Trauma Recente, mas muito válido celebrar a derrota da Memória Curta. Um placar a ser comemorado com gritos de guerra, chuva de papel picado, desfile em carro aberto e tudo mais.

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Equipe Trivela

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