Esquentando os Tamborins – parte 2

E se os 4 grandes clubes do Rio de Janeiro virassem escolas de samba? Torceríamos para que a Marquês de Sapucaí não bancasse o Engenhão e mantivesse seus refletores acesos durante o desfile? Ou o sambódromo passaria por uma superfaturada reforma a cada 2, 3 anos, tal qual o Maracanã? Para ler a primeira parte dessa saga, com os 4 grandes de São Paulo caindo na folia, clique no nome do blog e busque-a no arquivo. Por sua conta e risco.

G.R.E.S. Estação Primeira de Baderna

Dizem que não se deve temer a Mangueira (gaste seus trocadilhos antes de continuar a ler, por favor) quando ela desfila rica e luxuosa, mas sim quando ela vem modesta e cafona, criando forte identificação com o povão e apostando no que tem de melhor: a emoção. Da mesma forma, a Baderna claramente não dá liga quando os salários estão em dia e a diretoria faz uma administração responsável e criteriosa. Até porque a escola nunca teve uma diretoria assim.

Dona da maior e mais bipolar torcida, a agremiação terá dificuldades para manter o foco de seu diretor de bateria, Mestre Ronaldinho, que, se deixarem, desfila como ritmista em todas as coirmãs. De volta da Ucrânia, a madrinha de bateria Vágner Love promete enfeitiçar os foliões com seu cabelo trançado e seus olhos de ressaca, de cigana oblíqua, dissimulada e feia, muito feia.

Destaque também para o retorno do carnavalesco Joel, que nas horas vagas também atua como intérprete. Não como puxador, intérprete de tradução simultânea mesmo. Ao contrário de seu antecessor, Joel não é chegado num “pojeto” de macumba. Ele se recusa a fazer despachos com cachaça, ignorando as recomendações de pais de santo. Afinal, é desperdício de aguardente. Não pode to be.

G.R.E.S. Estação Segunda de São Januário

Muitos achavam que a cruzmaltina não conseguiria se recuperar da terra arrasada que virou a sua quadra depois da passagem de Dom Eurico, patrono que um dia levara a escola ao topo, mas depois a jogou morro abaixo. Um venerado integrante da Velha Guarda assumiu a direção, mas isso não foi o suficiente para impedir uma breve passagem da escola pelo Grupo de Acesso. De volta à elite, voltou a ser respeitada pelo que faz na avenida, embora, nos bastidores, mantenha péssimos hábitos da gestão anterior.

Entre os componentes da agremiação, destaca-se o passista Dedé, que ataca de mestre-sala e porta-bandeira ao mesmo tempo. Uma missão complicada para a direção de harmonia será convencer Diego Souza a desfilar no sambódromo, já que ele gosta de “pipocar” e só quer saber de pular atrás dos trios elétricos de Salvador, sempre do lado de fora do cordão de isolamento.

Dupla veterana de carnavalescos, Felipe e Juninho se revezam no setor de criação, para evitar a fadiga. Mas a vida deles não é fácil. Com o dinheiro do patrocínio demorando pra cair na conta, o grande trem-bala da colina do abre-alas pode ter de ser substituído por um bondinho capotado de Santa Tereza.

Não vou entregar aos cruzmaltinos a cabeça de quem sugeriu o nome da escola vascaína, mas você pode descontar sua falta de espírito esportivo nos comentários do Ubiratanices, aqui mesmo na Trivela.

G.R.E.S. Usuários do Plano de Saúde

 

Dinheiro não falta pelas bandas da Vila Unimed, a favela-chic emergente que se formou dentro do tranquilo bairro onde a pomposa agremiação nasceu. O patrono da Usuários não economiza, quer tudo do bom e do melhor. Gasta os tubos para ter o melhor puxador, o diretor de bateria mais inventivo e o carnavalesco da moda. Com uma torcida tida como de elite, seus ensaios são conhecidos pelo desenfreado consumo de caipissaquê.

A mesma opulência não se manifesta na hora de contratar o pessoal que carrega o piano, empurrando os carros alegóricos. Esses até recebem seus salários vindos de outra fonte, a própria conta da escola, o que vez por outra acarreta atrasos no pagamento. Uma disparidade de tratamento que sempre coloca em risco a harmonia da escola.

Também no quesito evolução a Usuários pode apresentar problemas, já que muitos profissionais foram contratados para executar a mesma função, o que pode embolar o meio-de campo e atravessar o samba. O excesso de medalhões também pode atrapalhar o desenvolvimento das revelações de sua escola mirim, a Dependentes de Xerém.

G.R.E.S. Solitários de Botafogo

 

No Carnaval que passou, a azarada escola de General Severiano pôs tudo a perder ao demitir seu carnavalesco a apenas três semanas do desfile. Com pouco investimento, os alvinegros poderiam até ter alcançado uma vaguinha no desfile das campeãs, mas quiseram dar um passo maior que as suas pernas (tortas, em referência ao seu maior baluarte) e se arrastaram tal qual cortejo fúnebre até a dispersão. Tá bom que o carnavalesco era bruxo, com diploma de Hogwarts e tudo, mas haja magia pra fazer a Solitários  retomar sua época de glórias.

Enquanto outras escolas apostam nos efeitos de iluminação em neon, nos movimentos made in Parintins, nas alegorias coreografadas e em outras modernidades (e frescuras), a agremiação, que tem como símbolo a estrela solitária (emo e com tendências suicidas), prefere manter seu visual austero, barroco e tradicional. Para não dizer ultrapassado.

O toque de loucura fica por conta do seu puxador de samba uruguaio, uma figuraça conhecida por mexer com a galera das arquibancadas e dar merecidas respostas atravessadas aos repórteres que lhe perguntam bobagens. É na voz dele que ganhará vida o já clássico refrão do “tem mimimi no chororô”, que é a cara (de choro) da escola.

Enquanto isso, na Sapucaí…

 

Quem quiser ser campeão, tem de ganhar da Beija-Flor. Aliando competência e força política, a escola de Nilópolis está para o Carnaval carioca assim como o Bayern está para a Bundesliga: de vez em quando, outros ganham; quase sempre, é ela quem festeja. A Beija-Flor voltará a usar monstros e cenas de sofrimento, um estilo já desgastado, mas que funciona. Seu maior adversário deve ser o Salgueiro, que deve fazer um desfile bem mais alegre, com enredo sobre a literatura de cordel. No ano passado, a escola entrou com cara de campeã e perdeu pra si mesma, ao ver carros empacando na concentração.

Sempre uma incógnita é a Unidos da Tijuca. Boa em todos os quesitos, mas seus resultados acabam atrelados demais à interpretação do trabalho de seu carnavalesco. Em futebolês: Paulo Barros seria apelidado de “El Loco” caso fosse um técnico argentino. Suas invenções costumam mexer com o público, mas colocar Elvis e Michael Jackson num enredo sobre Luiz Gonzaga não é lá muito prudente. O quarteto de favoritas se completa com a Grande Rio, que pode até não aparecer pra desfilar, mas mesmo assim ficará entre as campeãs.

Apostando na força dos melhores sambas do ano (e dos últimos dez anos), vêm a Portela e a Vila Isabel. Podem surpreender. E seria irresponsável descartar a Mangueira, apesar do mistério que cerca o seu barracão, o único não fotografado até aqui. Imperatriz, Mocidade e União da Ilha também podem aparecer entre as seis que voltam no desfile das campeãs, mas mais que isso já é quase impossível. Se eu tivesse de apostar, diria que dá Salgueiro. Com Beija-Flor e Vila mordendo seus tornozelos.

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Equipe Trivela

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