Espanha: Oito em um

Sábado, 24 de maio de 2008. A Argentina entrou no gramado do Camp Nou para um amistoso de preparação e sua seleção olímpica. A Espanha poderia ser a adversária, em um jogo que seria muito útil para dar entrosamento ao time que vai à Eurocopa. Mas a equipe da casa era a Catalunha, que até dois anos atrás só podia montar seu time para amistosos na semana entre o Natal e o Ano-Novo.

O fato de os catalães estarem jogando em maio é um sinal do aumento de autonomia. Eles não estão sozinhos. Nos últimos anos, as seleções autonômicas eram limitadas a Catalunha e País Basco. Hoje, Múrcia, Galícia, Andaluzia, Comunidade Valenciana, Navarra e Aragão já disputam partidas com suas equipes próprias. Em comum, elas têm o fato de usarem jogadores nativos e terem o apoio da torcida local, que aproveitam muitas vezes para mostrar seu nacionalismo e alguma vontade de independência do poder de Madri.

A RFEF (federação espanhola) autoriza essas partidas uma vez por ano (sempre nas semanas das festas de fim de ano) e, excepcionalmente, ao final da temporada. A bilheteria e a venda dos direitos de transmissão desses jogos ajudam a sustentar as federações das regiões, que organizam torneios de categorias de base e os grupos regionais a partir da quarta divisão espanhola. Desse modo, a RFEF não pode diminuir os repasses às entidades regionais. É uma questão polêmica, pois, ao mesmo tempo que ajuda a sustentar as federações menores, a RFEF dá a chance de se manifestarem contra o que ela própria representa.

O surgimento dessas equipes se deu de modo natural dentro da estruturação do futebol espanhol. O esporte se organizou regionalmente, mais ou menos como no Brasil. Assim, as federações regionais e os campeonatos regionais apareceram antes da seleção espanhola e do Campeonato Espanhol. Essa realidade só mudou na década de 1930, quando o general Francisco Franco aumentou a repressão contra as manifestações de nacionalismo das diversas regiões da Espanha e proibiu a realização de partidas de seleções autonômicas.

Elas só retornaram após a morte do ditador, na década de 1970. Desde então, eram partidas isoladas e sem muito compromisso. O problema é que, nos últimos anos, Catalunha e País Basco já se rebelaram. Em outubro de 2006, realizaram um amistoso entre si (os jogos autorizados sempre são contra seleções estrangeiras) em Barcelona. Sem o consentimento da RFEF. Após esse duelo, os catalães falaram com mais força em independência futebolística.

Dificilmente ocorrerá. Ainda que a Catalunha afirme que uma seleção local poderia ter algum sucesso internacional, ela não pretende fazer uma independência total. Ou seja, os Clubes catalães continuariam disputando o Campeonato Espanhol. Afinal, criar um Campeonato Catalão é diminuir o Barcelona, que se transformaria em potência única de uma liga nacional irrelevante. De qualquer modo, a pressão faz que a RFEF dê mais liberdade para as federações autonômicas.

Ainda que a seleção espanhola não esteja em risco, esse crescimento de seleções regionais tira a força da Fúria. Historicamente, não se pode falar em falta de amor à camisa de catalães ou bascos (alguns dos maiores jogadores que a Espanha já teve vieram dessas regiões). Mas é sintomático o fato de a seleção nacional não mandar partidas em Barcelona ou Bilbao.

Parece uma situação sem saída. Dar autonomia às federações regionais ajuda a reduzir a pressão por independência, mas acaba minando o próprio poder central. A RFEF terá de encontrar uma solução para esse dilema. E não pode demorar muito.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo