Era uma vez em Nasseia

 – Aí ele deu uma carretilha no goleiro e completou de cabeça para selar o placar da final. Foi assim que ganhamos o tetra.

– Ué, Fabinho, mas da última vez você disse que seu primo fez o gol do título de letra

– Você deve estar se confundindo

Fabinho era o menino rico da paupérrima Nasseia, interior do Piauí. Ainda fora das ondas do rádio, Nasseia confiava na família de Fabinho, dona do único jornal da cidade, para saber o que ocorria fora de suas fronteiras. Como quatro em cinco nasseios não sabiam ler, Fabinho praticamente narrava a história do pequeno povoado. Como seis em cinco nasseios eram apaixonados por futebol, não chega a causar estranheza o fato de várias das histórias do guri gravitarem em torno do universo futebolístico.

Foi por intermédio de Fabinho que Nasseia ficou sabendo do jogaço disputado entre Brasil e Polônia na copa de 38, em que Wilimowski marcou quatro vezes e Leônidas anotou sem chuteira. O menino jura de pé junto ter sido carregado nos ombros por Domingo da Guia durante as comemorações.

Além de porta-voz dos acontecimentos externos, Fabinho era generoso nos relatos de causos domésticos. Ninguém esquecia os 1487 gols anotados por Nhô Fernando, avô do menino e fundador do Correio de Nasseia. Ou do tio Adriano, que em viagem a São Paulo ensinou a Leônidas como aplicar uma bicicleta Feito este que fez de titio o presidente do Nasseia Futebol Clube, justamente na época da inolvidável excursão que a equipe fez a Milão para enfrentar a Inter de Giuseppe Meazza em 39. As fotos foram roubadas por ciganos búlgaros em Trieste, mas há quem jure ter visto os ingressos do embate.

Era impressionante a variedade de assuntos dominados pelo pimpolho. Fabinho sabia tudo de rádio, de xadrez, de peão, de bafo, de armadilha para pegar tatu, de buraco em banheiro pra ver menina pelada, de esconderijo no mato e de futebol de botão. Justiça seja feita, o menino era um ás com estas fichinhas. De acordo com o Correio de Nasseia, Fabinho vencera seis dos últimos sete campeonatos piauienses nas modalidades pré-mirim, mirim e infantil.

Tamanho sucesso levou o menino a se arriscar nas peladas da cidade. Rápido, ambidestro, criativo e dotado de instinto goleador, impressionou a todos logo de cara. Passou a jogar com meninos dois anos mais velhos e mesmo assim fazia deles gato e sapato.

Dez meses após arriscar suas primeiras embaixadas, Fabinho reforçou o Nasseinha, tradicional saco de pancadas do campeonato local. Fez a diferença e se tornou um divisor de águas no sertão piauiense. Anotou oito gols em sete jogos e levou o Nasseinha ao título inédito. Coberto de glórias, foi convocado para a seleção estadual.

A ascensão foi meteórica e quando abriu os olhos Fabinho tinha levado o Piauí à final contra o Rio de Janeiro, após atuações de gala contra gaúchos nas quartas e paulistas nas semifinais. O primeiro jogo da decisão foi disputado na capital do país e, sob um verdadeiro dilúvio, os pequenos heróis piauienses seguraram um inacreditável 0x0 em São Januário. Descrente de qualquer possibilidade de hospedar um jogo desta magnitude, a prefeitura de Teresina nem se preocupara em providenciar um estádio, o que causou um deus nos acuda às vésperas da decisão. Após verdadeiro mutirão entre os sertanejos, a pequena Picos foi eleita para receber a finalíssima.

Ironicamente, tamanho esforço foi quase em vão para os nasseios. Os 400 quilômetros que separavam Nasseia de Picos eram quilômetros demais para que os locais pudessem prestigiar seu ídolo mirim. Alheio a tudo isso, o garoto comeu a bola. Em jornada inspirada, Fabinho foi às redes duas vezes, de falta e de cabeça. Os cariocas tinham mais time e empataram o duelo a quatro minutos do fim. O balde de água fria não abateu a seleção do Piauí, que entrou compenetrada na prorrogação. O lance decisivo foi narrado assim por Fabinho aos seus amigos alguns dias depois, no banco da praça de Nasseia:

– O Jaime bateu o tiro de meta curto pra mim. Quando veio o primeiro, enfiei entre as canetas. Disparei e levei o segundo com um drible da vaca. Cruzei a linha do meio de campo e passei no meio de dois. A bola começou a quicar e tirei o volante deles com um chapéu. O zagueiro veio, joguei na frente e, antes de fazer o gol, fintei o goleiro com um drible de corpo. Logo na saída de bola dos cariocas o juiz apitou e ficamos com o título.

O ambiente foi tomado por gargalhadas:

– Fabinho, pelo amor de deus. De todas as suas mentiras, esta consegue ser a mais ridícula. E olha que isto é muito difícil. Ou alguém aqui conhece história de jogador que driblou sete adversários antes de fazer, no final da prorrogação, o gol do título? Não me leve a mal, mas acho mais fácil acreditar naquela do seu tio baixando as calças do Mussolini no estádio do que numa baboseira dessas.

Devastado e sob uma saraivada de risadas, o menino afastou-se e foi jogar futebol de botão contra si mesmo.

A centenas de quilômetros dali, numa roda, quatro garotos jogavam peão e ouviam atentamente um deles contar o que parecia ser um feito e tanto:

– Quando ele colocou na frente, vocês precisavam ver o goleiro se estatelando com o zagueiro. Foi o gol mais lindo que eu vi na minha vida.

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Equipe Trivela

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