Entre o céu e o inferno

Uma vez um jogador pouco conhecido do grande público me fez uma confissão que mudou a minha forma de enxergar os atletas, principalmente do futebol.

Ele, em um tom de desabafo, me falou de toda dificuldade para se tornar um jogador de futebol.

Disse-me da família humilde que se sacrificava para ver o filho mais novo ir treinar todos os dias do outro lado da cidade, tendo que pegar quatro conduções, mas com dinheiro para apenas duas.

Ele me falou do orgulho que seus pais sentiram quando ele vestiu a camisa do time da cidade pela primeira vez em um jogo oficial. Todo mundo estava lá para vê-lo jogar e marcar o primeiro gol da carreira.

Com a voz embargada ele falou que pensou em desistir quando não conseguiu fechar um contrato com um clube maior, e também na vez que o empresário ficou com a porcentagem dele.

Mas a família também estava lá nessa hora e o fez seguir em frente.

Mesmo na pior contusão da carreira, mesmo nos seis meses parado, ele não desistiu, também já não podia mais, tinha duas famílias para sustentar, os seus pais e irmãos e agora a sua própria família. Agora tinha esposa e dois filhos.

Quando ele jogou pela primeira vez no Pacaembu a sua turma já somava mais de 25 pessoas entre familiares e amigos mais próximos.

Foi o céu dele. Entrar no Pacaembu, tudo bem, o estádio estava quase vazio, mas não importava, ele se sentiu realizado, era tudo que os pais dele tinham sonhado quando ainda era uma criança. Era tudo que ele sempre buscou com o máximo de seu esforço, com o máximo de sua vontade.

Ele ficou maravilhado em ver tudo aquilo, aquele cheiro de grama era diferente do da cidade dele, aquela marcação de cal era diferente, na cidade dele não tinha arquibancada, na cidade dele não tinha repórter, não tinha fotógrafo.

Ele quase nem percebeu quando o juiz apitou o começo do jogo, tiveram que gritar com ele tanto era a maravilha em seus olhos.

Aquele jogo era uma final de segunda divisão, por isso o palco escolhido foi o Pacaembu.
Tudo parecia tão certo, a dor, as dificuldades ficaram no passado quando aquele dia chegou, eram apenas etapas da vida que precisavam ser superadas.

O que ele não sabia era a distância tão curta entre o céu que ele estava vivendo e o inferno que aquela tarde se tornaria.

Foi a duração de uma partida de futebol o tempo que durou o céu desse jogador, culpado pela derrota, em um erro bobo, mas que custou o ano do clube e a ascensão da agremiação.
Culpado por todos os companheiros, pela comissão técnica e até pela mínima torcida, não teve como se defender e nada para argumentar.

Ainda no gramado depois do jogo, tirou a sua chuteira, pegou a sua mochila e saiu expulso do Pacaembu, como se tivesse sido expulso do próprio sonho.

Encerrou naquela tarde a sua carreira, sem saber se tinha mesmo realizado seu sonho ou se tinha vivido um pesadelo.

Ainda sem entender se pergunta, no esporte, qual a distância entre o céu e o inferno?

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Equipe Trivela

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