Don Juan

Buenos Aires, 13 de outubro de 2007. A.D. Iniciam-se as eliminatórias para a Copa de 2010, aquela que será realizada em solo africano. O estádio Monumental de Núnez tem o privilégio de assistir sua seleção, a Argentina, contra a seleção chilena. Mais ou menos vinte e seis minutos do primeiro tempo. Para aqueles que vêem pela televisão, o time argentino ataca no campo esquerdo. Ali, pouco antes da entrada da área surge uma falta, exatamente na faixa esquerda do campo esquerdo. Roman se prepara para a cobrança…

Pela segunda vez em sua carreira, Roman conquistou a América no primeiro semestre desse ano que termina. Para alguns ele foi um dos principais responsáveis pela queda platina no Mundial de 2006. Teria sido omisso em solo germânico segundo alguns e anunciou sua aposentadoria da seleção logo depois. Em atrito com seu clube na Espanha, pediu para voltar ao Boca Juniors como reforço para a Libertadores de 2007. Ali ele se sente em casa. A camisa do Boca Juniors entra em simbiose com sua epiderme. Pela segunda vez em sua carreira ele vence a Taça Libertadores. Pela primeira vez, ao findar desse ano o mundo poderá ver o primeiro tetracampeão mundial interclubes, Boca ou Milan!

Venezuela, 15 de julho de 2007 A.D. Numa sequência de belíssimas apresentações a seleção argentina chega a final da Copa América contra a seleção brasileira. Roman foi convencido a voltar e fez parte do grupo. O Brasil vence por 3 a 0. Veron, Ayala, Crespo e Roman fazem parte de uma geração grandiosa que nada venceu. Veron, Ayala e Crespo fizeram parte da geração Passarela que pretendia moralizar o futebol argentino pós-Diego. Sucumbiram perante a Holanda em 1998 no mundial da França.

Buenos Aires, 13 de outubro de 2007 A.D. Roman de falta faz 1 a 0 Argentina. A seleção chilena vinha melhor. Uma cobrança de falta. Um chute apenas. Uma caprichosa trajetória desenhada pela bola que adentra a meta chilena. O goleiro nada pôde fazer. Passam–se dos quarenta minutos do primeiro tempo. Outra falta no campo esquerdo do ataque argentino. Dessa vez, um pouco mais ao centro e um pouco mais distante da área. Roman novamente se apresenta para cobrança…

Sapporo-Japão, meados de Junho de 2002 A.D. Comandados por Marcelo Bielsa a seleção argentina sequer avançou a primeira fase. Bielsa chegou ao oriente com um estranho grupo. ‘El Loco’ justificou seu apelido ao juntar num mesmo grupo atlétas que seguiram a proposta disciplinar de Passarela junto a outros que tinham péssimos antecedentes como Claudio Paul Caniggia. Cada louco a sua maneira. Passarela se recusava a convocar o lendário Fernando Redondo porque o mesmo insistia em ostentar sua longa cabeleira. ‘El Loco’ insistiu em deixar o jovem Roman de fora da convocação para o Mundial de 2002 por divergências táticas. Roman havia acabado de vencer a Libertadores da América pela primeira vez.

Buenos Aires, 13 de outubro de 2007 A.D. ‘El Loco’ Bielsa, treinador argentino é o atual técnico da seleção do Chile. Roman outra vez de falta marca para a seleção argentina. O Monumental de Nunez explode. Argentina 2×0 Chile. ‘É UM ARTISTA!’ grita o narrador da emissora que transmitia o jogo. O artista corre sozinho para comemorar seu feito. Ele nunca esteve tão só! Roman joga para si e nessa ocasião estava há três meses sem jogar. Em litígio com seu clube, o Villareal da Espanha, Roman também viu frustrada sua pretensão em continuar no Boca Juniors após a conquista da Libertadores. Estava sem atuar e Alfio Basile lhe confiou a camisa 10. Roman aquele que suscedeu Diego no Boca Juniors.

“Riquelme é uma pessoa que tem opiniões definitivas. Ou se está a favor ou contra alguma coisa – e é muito difícil que ele mude de opinião. Ele joga assim também. (…) É um jogador que, se vê que a bola vai sair pela linha e sabe que, por mais esforço que faça, não impedirá que ela saia, ele não se joga para ganhar os aplausos. (…) Esse tipo de coisa ajuda a ganhar o público – e ele não está preocupado com isso”, disse Jose Pekerman seu ex-treinador. Basile por sua vez sentenciou após o jogo: “Foi uma vitória de Riquelme”.

Roman nunca pretendeu ser o ‘novo Maradona’. Quando o amor acaba, quando cessam as glórias. Nos momentos mais dificeis, nas situações mais dolorosas. Carregando os maiores fardos tais como a camisa 10 argentina. Quando se é um artista, conquista-se a redenção. O que ele mais quer é jogar bola havendo um estádio cheio ou não. Seja num campo de terra, seja em La Bombonera. É aquilo que ele faz de melhor. Ele nunca quis ser Don Diego. Ele é Don Juan…Roman Riquelme!

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo