Diário de uma crise – versão do jogador

Janeiro, fevereiro e março

As férias foram ótimas, esse tempo com a minha família realmente me ajudou a esquecer os últimos meses que enfrentei em campo. A torcida pegou demais no meu pé a partir de outubro, só porque o time caiu de produção e acabamos perdendo a chance de jogar o campeonato continental desse ano. E me elegeram pra Cristo! Por que só eu como culpado?

Mas, deixa isso pra lá, é passado, bola pra frente. Fiz uma promessa no ano novo: vou esquecer tudo que a torcida me falou, as ofensas pessoais e as ameaças, e tocar minha vida pra frente. Torcedores, eu os perdôo. Tenho Deus no coração e quero voltar a ser herói, não vilão, pra vocês.

Xi, mas esse novo técnico é chato mesmo! Me chamou de gordo logo quando bateu o olho em mim. “Você está imenso”, foi a primeira frase dele, antes mesmo do bom dia. Me fez correr o dia inteiro, nem vi a cor da bola. Aliás, será que alguém viu? Sinceramente, não vi tanta gordura assim em mim, mas a avaliação física foi implacável. Tive o pior desempenho de todos. Fui o que mais abusei nas férias.

E esse técnico desaforado já foi logo dizendo: “Você não ganhou quilos, e sim toneladas”. Ele mesmo nunca deve ter se olhado no espelho. Não gostei dele. Os outros já estão treinando com bola, eu continuo dando voltas pelo gramado, como um carro de Formula Indy.

Abril, maio e junho

Aquele cretino me pôs no banco! Como ele pôde? Artilheiro da temporada passada, melhor jogador do primeiro semestre e… reserva! Absurdo! Blasfêmia! E tudo por quê? Eu estou “gigantesco”, nas palavras do maioral. Ele é louco. Ele tem o dobro do meu peso e eu sou o obeso. “Você está longe do seu peso ideal. Bem longe. Você precisa perder ainda dez quilos.” Dez quilos? De onde ele tirou esse número? Qual conta ele fez para chegar a essa conclusão? Eu nunca tive esse peso ideal ao qual ele tanto se refere, nem mesmo quando era criança! E isso porque eu perdi muito peso extra em um mês. O que ele acha? Que eu dobrei de tamanho nas férias?

Ele não deve gostar de mim há muito tempo. Será porque ele, quando era técnico do time rival, perdeu muitos jogos contra o meu time no ano passado? E, principalmente, porque eu marquei a maior parte dos gols? Ele foi demitido de lá no final do ano, mas acho que isso não tem relação.

Vi do banco o meu time perder muitos pontos no campeonato estadual. Jogos ruins, fracos, sem chances. Fiz de tudo para poder entrar em campo, pelo menos no segundo tempo. Começava a fazer aquecimento com vinte minutos da primeira etapa. Ele nem olhava pra mim. Virava o intervalo, e ele preferia colocar zagueiro em campo a apostar no meu futebol. Até a imprensa estranhou:
– Por que o craque do time do ano passado não está em campo? – um jornalista questionou. Até um tanto irritado, esse técnico borra-botas respondeu, desaforado:
– Ele não vem em boa fase, não foi o craque da equipe no final da temporada, e ainda não voltou a ser. Mas, o maior problema não é esse. A gordura não o deixa ficar em campo. Podem confundi-lo com a bola caso eu o coloque pra jogar.

E foi assim até junho. Nunca senti tanta dormência na bunda em minha vida. Esquentei tanto o banco que ele virou uma chapa. Posso fritar ovo nele. E só consegui pegar na bola no final do mês. Uma injustiça. E a justificativa daquele patife? “Só agora você perdeu a semelhança com a bola. Ainda está gordo, mas não mais redondo”.

Pra piorar, perdemos a vaga para as finais do estadual. Não estava em campo, mas até assim saí como vilão da história. Disseram que eu não recupero mais a minha boa forma porque ando saindo demais de madrugada, e dando churrascadas em casa no domingo. E que nas últimas semanas, ando convidando meus companheiros para as festinhas. Quem anda me seguindo? Será que é esse técnico alucinado?

Julho, agosto e setembro

Não há mais a desculpa de que estou enorme. Meses de jogos e treinamento, e finalmente o capitão reconheceu que estou tinindo. Pelo menos fisicamente. “Há muito tempo você não joga futebol. Faz alguma coisa parecida, mas não é futebol”. Isso está ficando pessoal. O que será que eu fiz para ele me odiar tanto?

Ele não age assim com mais ninguém no grupo, só comigo. E os outros acham que a marcação é minha: “ele adora você”, todos comentam comigo. Eu sou barrado, tratado a ferraduras, e ele está certo, e ainda gosta de mim.

Meu traseiro já tem calos de tanto sentar. Poderiam tornar o banco de reservas algo mais confortável, não? Cadeiras estofadas, com encosto macio e suporte para a cabeça. O sofrimento por não jogar seria bem menos doloroso. Realmente, ser suplente é padecer no fogo do inferno.

Até o início do semestre deste jeito. Mas, dessa vez, pelo menos, encontrava a bola nos treinos. Matava um pouco a saudade. Mas eu queria mais: estar em campo, sendo ovacionado pela torcida. Ah, essa época no ano passado! Bons tempos, e nem tão distantes! Eu era feliz e não sabia. A cobrança era grande, mas era tudo tão fácil! Gols, arrancada, explosão… Não precisava esforço, eu pensava e acontecia. Mas, e hoje? Com esse carrasco me explorando, eu não tenho liberdade nem de ir ao banheiro. Ele quer saber tudo: o que eu como, com quem eu ando, onde e quando durmo… Daqui a pouco, vai querer interferir nas minhas fisiologias.

Mas, as coisas parecem querer mudar. No último jogo de setembro, eu vi, pela primeira vez, o técnico olhar para mim durante uma partida. E, no segundo tempo, eu estava lá: de novo no campo. Gramado, aqui me tens de regresso! Estou de volta. E fiz gol e tudo, nosso time ganhou com o meu gol. Foi um tento um tanto atípico, reconheço, mas é meu, está na minha contabilidade. Agora sim, ele vai ter que me engolir.

Outubro e novembro

Amarguei três bancos seguidos logo no início do trimestre. Paguei pela minha caneta – ele leu o “vai ter que me engolir” em algum lugar que escrevi. Não gostou. E na reportagem, desrespeitou o meu gol. “Um lance de sorte. Algo que não ocorreria caso ele estivesse na forma física ideal.

A bola veio e bateu no seu traseiro, que ocupava aquele espaço exatamente porque estava maior do que deveria. Se o jogador estivesse no peso certo, a bola passaria reto e não bateria em parte alguma do corpo dele. Muito menos na bunda”. Gol é gol. Nosso time ganhou. Eu fiz, deveriam agradecer às minhas nádegas, pois nosso time não vai tão bem assim.

O nacional entrou na reta final e as vagas para o que interessa estão quase preenchidas. Ser campeão não dá mais. Falta definir quem vai jogar o continental do ano que vem, e tem uns oito times na briga por três vagas. Nós somos um deles, mas somos os piores deles na tabela.

Ai, banco, meu eterno companheiro nessa fase difícil. Quantas confissões já não fiz a você, nos momentos mais dramáticos? Mas, dessa vez, fui mais assíduo em campo. Joguei todas nesse mês, mas só do segundo tempo em diante. Mas, a bola anda tão de mal comigo que não consigo mais fazer gols. Nem aqueles mais fáceis, que a minha irmã de cinco anos faria sem qualquer esforço.

Às vezes sonho que, num momento de profunda raiva e desilusão, estou cortando fora minhas pernas. Nunca tive um jejum tão grande de gols, nem quando quebrei a perna quando tinha 12 anos e fiquei seis meses fora das peladas da rua.

Nem o fato de começar algumas partidas como titular melhoraram. Fiquei tão feliz que pensei: agora sim, a maré vai mudar. Mudar o quê? Corria como um louco no primeiro tempo, aos quinze do segundo me faltava o ar. Por que será? Isso não acontecia no ano passado… E nada de gols… Saía sempre no meio do jogo, sem aplausos, sem vaias, sem nada. A indiferença dói ainda mais.

unca fui tão humilhado pela torcida como agora. Me chamam de burro, soltam palavrões cabeludíssimos, atacam a minha moral e questionam até a sexualidade da minha família. Lembram, na chacota, daquele gol de ânus que eu fiz, o único da temporada. Eu não mereço isso, eu acho. Acho não, tenho certeza!

Dezembro

Voltei novamente a campo na partida-chave para definir a última vaga para o torneio continental do ano que vem. Saí do banco de novo, mas pelo menos ele me colocou pra jogar, e no primeiro tempo. Precisamos ganhar, e ainda torcer por tropeços dos rivais. Mas, acho que aquele técnico não quer mesmo me ver pela frente. Ele deve ter feito algum “trabalho” contra mim, não é possível. Escanteio para o time adversário, a bola bateu e rebateu e eu, quando chutei pra tirar da área, peguei na orelha da pelota, ela ganhou um efeito esquisito, foi para trás e… entrou.

Vinte minutos para virar o jogo: o pessoal correu, lutou e conseguiu. 2 a 1. E até o último minuto do jogo, a vaga era nossa, mas na outra partida, o mandante deixou o visitante descontar, e tirou a nossa vaga no saldo de gols. Se tivéssemos ganhado por 2 a 0, a gente estaria classificado. Saí do campo embaixo de vaias, palavrões e copos cheios de um troço amarelo e fedido. E o técnico, ao invés de me confortar, crucificou: “gol ridículo, não?”

Simplesmente fugi da cidade depois disso. Já estava oficialmente de férias mesmo, ninguém vai querer me contratar depois de um ano tão ruim… Abandonei o barco mesmo, tenho família. “Vou te pegar lá fora” foi a coisa mais carinhosa que eu ouvi da torcida após aquele jogo lamentável. Andam dizendo que eu fiz dois gols na temporada: um de bunda a favor e outro de orelha, contra.
Tenho medo que não queiram sequer renovar o meu contrato. Sem clube no ano que vem, quem vai pagar minhas contas?

]Preciso de férias mesmo, urgentes, para esquecer esse ano. Acho que estive durante todo o tempo tomado por um espírito, ou um encosto, algo que me fez andar pra trás, desaprender tudo. Preciso exorcizar tudo isso. Que venha logo esse ano novo, e que suma, ou melhor, queime na maior fogueira criada pelo homem esse tenebroso ano que passou.

Janeiro

O homem está mais manso ou eu é que voltei diferente das férias? Se tive um quarto da cobrança na reapresentação de hoje em relação à do ano passado foi muito. Desliguei-me do time durante todas as férias, não quis me encontrar nem com os outros jogadores mais chegados. Quase desisti do futebol, mas no banco ou não, eu ganho dinheiro. Então, aqui também me tens de regresso. E sempre me terá.

Ele não me achou imenso dessa vez. Elogiou a minha boa forma, disse que eu me cuidei durante o “período da engorda”. Realmente, cuidei para comer menos, mas não fui o mais zeloso dos jogadores. Hibernei durante boa parte das férias, se não comi muito foi também porque pouco estive acordado. A inconsciência foi a minha maior aliada para sepultar o ano que se foi e me deixar alheio das notícias que insistiam em chegar.

Mas, eis que voltei e, com contrato renovado e tudo. E com o mesmo técnico, que eu achava (e torcia) que seria despedido. Não, foi mantido. Aliás, o grupo todo. Deram os parabéns, e em nenhum instante, o meu passado obeso foi mencionado. Testes físicos e: desempenho acima da média para quem está começando pré-temporada.

E, olha como as coisas mudam: “você será a referência do meu time para esse ano. Eu conto muito com você”. Palavras do técnico para a minha pessoa!… Sinto que as coisas para essa temporada serão diferentes. É, nada melhor do que um ano após o outro.

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Equipe Trivela

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