Devagar com os andores

Os clubes mais populares geralmente têm torcidas exageradas, que se revezam entre a empolgação e o desespero. Sim, chamo de exageradas, porque a bipolaridade é um assunto sério, por mais que tenha virado quase uma gíria, servindo de desculpa para adolescentes (e adultos menos evoluídos emocionalmente) justificarem os seus erros e surtos de histeria. “Bipolar” tornou-se um falso sinônimo de “menininha maluca e moleca, que age sempre guiada pelo coração”, veja só. Não sendo só cara de pau, pode até ser uma doença, mas aí teria outro nome. Não me perguntem qual, porque não estou autorizado a dar pitaco nesta área. Nem em nenhuma outra, dirão meus leitores mais intransigentes.

Crítica social rasa à parte, não dá para esperar reações diferentes à seleção brasileira, que cada vez é menos popular, mas, bem ou mal, ainda mexe com dezenas de milhões de pessoas. Depois de muito tempo, os amistosos da canarinho voltaram a chamar a atenção, mesmo que tenham sido partidas não lá muito carismáticas (como todo e qualquer amistoso que se preze). Por três motivos complementares: 1) o Brasileirão parou para a data Fifa (o que já deveria ser praxe, o mundo todo faz assim) e o torcedor ficou órfão do seu clube; 2) há uma nova geração em campo, com a imagem ainda não desgastada; 3) a equipe voltou a jogar bem.

Não adianta tentar desmerecer as boas partidas que o Brasil fez contra a Dinamarca e os Estados Unidos. Foram vitórias categóricas sobre seleções medianas, um avanço para quem andava se enrolando para bater seleçoes de quinta como a do Gabão. Por mais que os escandinavos parecessem excessivamente dispersos para quem está às vésperas de uma Euro e os yankees ainda estejam nos devendo a evolução “prometida”, a equipe de Mano Menezes apresentou uma postura diferente, pressionando a saída de bola adversária e inaugurando um período onde teremos a certeza de sempre entrar com onze em campo: a era pós-Ronaldinho, a qual o flamenguista aguarda com ansiedade.

A derrota para os efetivos (e não muito mais que isso) mexicanos foi boa para diminuir a euforia de alguns com Hulk e, principalmente, Oscar. Hulk, como bem disse o comparsa trivelista Pedro Venâncio, é uma espécie de Robben. Não vai adiantar mudá-lo de lado e pedir pra ele chegar à linha de fundo, ou colocá-lo de centroavante. O forte dele é jogar espetado na ponta direita e cortar para o meio, fazendo uso de sua potente perna esquerda. Não há nada de errado nisso, contanto que a jogada funcione com frequência, o que é o caso dele, fundamental nos títulos recentes do Porto. Será muito útil na seleção, mas não é exatamente uma solução.

A grande mídia não gosta de pessoas de carne e osso, mas sim de bons personagens. Da mesma forma que lhe é interessante transformar Neymar em atrevido ídolo teen e Lucas em bom moço respeitador, ameaça reduzir também Oscar a uma caricatura: o pobre rapaz que foi impedido de jogar, mas deu a volta por cima. O meia do Inter é talentoso, mostrou-se dedicado na marcação e tem futuro com a camisa amarela. Mas não devemos cair no exagero de já apontá-lo como o 10 de 2014, por mais que ele pareça ter mesmo tomado a frente, no momento, já que Kaká pouco joga no Real e Ganso, o mais criativo dos três, se mostra apático taticamente. Se até Neymar ainda tem o que provar na seleção, imagine o Oscar.

Nem os dois viraram carruagens da noite pro dia, nem voltaram a ser abóbora ao primeiro tropeço. A oscilação é normal em qualquer time em formação e esperada quando boa parte dele é jovem. O melhor para a seleção é ter uma evolução gradual. Se começar a jogar o fino, pode dar as costas para os defeitos e sentir o peso deles quando as dificuldades voltarem a aparecer. Se voltar a atuar mal, jogadores promissores podem ser tratados como enganações, o que realmente não são. Falta rodagem. As Olimpíadas podem ser fundamentais nesse sentido, forjando a base de um time vencedor. Ou jogando tudo para o alto, em caso de derrota e demissão, justa ou não, do treinador.

Enquanto isso, mais ao sul…

Próximos adversários do Brasil, os argentinos jogaram muito contra o Equador. OK, sua limitadíssima defesa não foi testada, já que os equatorianos pouco criaram. Mas do meio para frente, com Messi de “falso nove”, as coisas parecem entrar nos eixos. Di María se sacrificou, compondo o meio-campo, e o mesmo esforço foi visto em Higuaín, menos centralizado do que de costume. A equipe jogou em função do melhor do mundo, que foi aquele das arrancadas de Barcelona. Só me pergunto até quando teremos de ouvir que Messi desencantou pela Argentina, quando ele já provou não ser o problema faz tempo. Se é que um dia deixou dúvidas disso.

O desafio de Alejandro Sabella é criar um time seguro, para que Messi, Agüero e companhia resolvam. A Argentina já se mostra bem mais organizada e o mérito é dele, que recentemente completou ínfimos dez meses no cargo. Mas sabendo como nossos vizinhos são passionais, imagino que um tropeço também coloque seu trabalho em risco, como acontece por aqui. Qualquer que seja o resultado do clássico, teremos reações exageradas de parte a parte. É importante relativizá-las, porque as duas equipes são rascunhos, ainda a alguma distância da arte final.

A diferença é que o Brasil de Mano é olímpico, precisa estar pronto em agosto. A Argentina de Sabella, salvo complicações imprevistas nas eliminatórias, só precisa estar no ponto daqui a dois anos. Eu preferiria estar na pele do argentino.

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Equipe Trivela

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