Destaques improváveis

Nem Cristiano Ronaldo, nem Xavi, nem Iniesta, nem Robben, nem Ibrahimovic. Tampouco Buffon, Cech ou Casillas. Os personagens da primeira rodada da Euro 2012 não estão entre os melhores do mundo. Bem, um deles já esteve, mas parecia acabado. Também não foram os que melhor jogaram neste início de competição, longe disso. Não que lhes falte técnica. Pelo contrário, para um deles (o mesmo de três frases atrás, embora eu nada tenha contra o outro), sobra. Brilharam como que por uma questão de destino, acredite você em destino ou não. Se bem que o destaque de um deles veio mais por obra do acaso (sim, agora estou falando do outro).

Przemyslaw Tyton, o “outro”,  seria o terceiro goleiro da Polônia. Com a contusão de Fabianski, ascendeu ao posto de reserva direto de Szczesny. Não foi a primeira mudança de hierarquia vivida pelo arqueiro durante a temporada. Recém-chegado ao PSV, vindo do modesto Roda JC, colocou o sueco Isaksson (também titular de sua seleção na Euro) no banco, mesmo que tenha se afastado da titularidade por um tempo, em virtude de uma concussão sofrida em uma partida da Eredivisie. Um incidente menor perto do que viveu Szczesny em sua estreia na competição continental. Falhou feio no gol de empate grego e, para evitar a virada, fez um pênalti atabalhoado, pelo qual acabou expulso.

Poucas coisas divertem mais no futebol do que ver o reserva entrar nessas condições e defender a cobrança. Nem lembro se Tyton foi efetivamente testado no resto da partida, mas o momento histórico vivido por ele bastou e não será esquecido tão cedo. Com sorte, pode ser o início de uma grande amizade entre ele e a condição de titular da seleção polonesa. Mas mesmo que nada mais dê certo em sua carreira, contanto que ele não faça uma besteira muito grande por aí, é por este dia que será lembrado. Seria muito pouco para satisfazer um dos goleiros citados na abertura deste post. Mas é muita coisa para tantos e tantos futebolistas anônimos.

E na partida que fechava a rodada, outro anfitrião tomou para si os holofotes. Seu desempenho não garantiu um empate razoável, mas sim uma vitória empolgante e improvável. A desacreditada seleção ucraniana ainda é um patinho feio perto da França e um cisne desengonçado perto da Inglaterra, mas ganhou moral e chances de classificação com o triunfo diante da Suécia. E ninguém merecia mais ser o herói dessa história que Andriy Shevchenko, goleador clássico da década passada. O artilheiro estendeu a sua carreira para disputar uma Euro em casa. Passou a temporada toda entre lesões, mas toda dor ficou para trás e se tornou justificada.

Nos dois tentos marcados com a cabeça, Sheva mostrou a categoria de antigamente e deu uma aula de posicionamento e deslocamento a centroavantes com grande capacidade de finalização e enorme marra de achar que a bola tem de procurá-lo na área. Se a Ucrânia não seguir longe na competição, terá sido a última partida dele com a camisa de sua seleção (e, muito provavelmente, de sua carreira) em Kiev, cidade onde criou sua fama de matador. A saudação mútua entre público e jogador ao final da jornada deve ter nos proporcionado as imagens mais bonitas do torneio inteiro. Mas convém não duvidar que Shevchenko possa estender sua turnê de despedida, agora por Donetsk, onde sua equipe atua nas próximas rodadas.

A vida não tá fácil pra ninguém

Os favoritos tiveram resultados distintos na abertura da competição. O único a perder foi o que menos teria motivos para tal. A Dinamarca foi eficiente e equilibrada, atacou só na boa e conquistou uma justa vitória sobre a Holanda, mas esta teve espaço suficiente para empatar a partida, o que não conseguiu em virtude das péssimas finalizações. A Oranje desperdiçou uma apresentação inspirada de Sneijder e agora terá de encarar Alemanha e Portugal sem direito a cometer os mesmos erros. E com memórias nada boas das últimas vezes em que encarou ambas seleções.

A Alemanha venceu à moda antiga: com seriedade, mas sem espetáculo. O bom posicionamento lusitano impediu a intensa movimentação dos meias alemães. Por outro lado, os tedescos só foram ameaçados quando Portugal partiu para o tudo ou nada, após o gol do sempre oportunista Mario Gómez. A falta de opções de jogadas de uma equipe que depende demais dos lances de Cristiano Ronaldo e Nani pelas pontas fazem com que os Tugas se contentem mais em atrapalhar os outros do que em almejar uma grande campanha. Os alemães terão uma boa chance de mostrar seu vasto repertório contra os holandeses, que já dariam mais espaço naturalmente e agora terão de buscar a vitória a qualquer custo.

Por fim, a Espanha ficou no empate com a Itália, na melhor partida da Euro até aqui. O resultado não foi ruim, mas Del Bosque deveria refletir sobre suas opções. Na ânsia de não deixar nenhum de seus talentosos meias no banco, escalou a Fúria sem atacante de ofício. No primeiro tempo, os espanhóis irritaram com a incapacidade de transformar suas intermináveis trocas de passe em conclusões, algo que melhorou na etapa final, como prova o gol de centroavante de Fàbregas. Fernando Torres pode ter errado tudo que tentou, mas sua entrada provou que a Espanha precisa de uma referência. A qual tomo a liberdade de chamar de Llorente. Quem sairia para a entrada dele? Não me faça perguntas difíceis.

A supresa agradável e a retranca anunciada

A seleção que mais me agradou foi a Itália. Desde que assumiu a Azzurra, Prandelli já indicava que queria vê-la praticando um futebol mais atraente. Na falta de um trequartista que honre a tradição recente de Baggio, Del Piero e Totti, a solução foi recuar De Rossi para a zaga. Felizmente, a alteração só se mostrou defensivista na avaliação fria dos números do esquema tático. O volante da Roma teve grande atuação como líbero, o jogo fluiu e a Itália só perdeu o domínio da partida quando a Espanha se tornou mais objetiva. Empate com gosto de redenção para a Itália, que deixou a atuação desastrosa no amistoso contra a Rússia para trás. E varreu mais um escândalo no futebol local para debaixo do tapete surrado que teima em sair do lugar.

Aos apocalípticos que temiam a Chelseaficação do futebol mundial, a boa nova é que só uma equipe adotou o estilo. A Inglaterra bem que teria a companhia da Irlanda na turma do ferrolho, mas esta teve de abrir mão das suas convicções ao sofrer um gol prematuro. O English Team formou duas linhas de oito em frente à área e, ironicamente, só sofreu gol quando elas recuaram demais e Nasri arriscou de fora da área (ainda está permitido pela regra, Espanha). Você pode estar pensando: “Só oito recuados? Melhor que o Chelsea, que recuava nove!”. O detalhe é que Young e Welbeck, somados, multiplicados por dois e elevados à décima terceira potência, não formam um só Drogba. E olhe que o primeiro tem talento. Mas não posso dizer o mesmo do outro. Que não é mais o Tyton, preste atenção na leitura.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo