Derrota animadora

O apreciador de futebol experimenta, esporadicamente, a sensação de que esse esporte pode ser muito injusto. No acervo de sua memória, ele guarda alguns exemplos de vitórias ou derrotas imerecidas, que, de tão chocantes, marcaram profundamente o seu íntimo. Quase sempre há, nesse conjunto de resultados descabidos, um que se destaca, por ter provocado níveis especiais de estupefação. Eu já escolhi o meu destaque, até que venha outro e o derrube: Brasil 2×1 Uruguai, realizado na última quarta-feira, no Morumbi.

A seleção uruguaia teve mais posse de bola (55%), mais finalizações (12, contra 5 do Brasil), mais escanteios a favor (4, contra apenas 1 do Brasil), mais organização, mais garra, mais entrega, mais tudo. Ou melhor, houve um “menos”: a Celeste deu 15 passes errados, menos da metade dos equívocos do time brasileiro (33). Tudo isso jogando fora de casa, diante de 70 mil torcedores do adversário. Apesar da superioridade comprovada pelos números, o Uruguai saiu de campo derrotado. A situação na tabela das Eliminatórias ficou comprometida – a equipe charrua ocupa a sexta posição, com quatro pontos.

Não há, porém, motivo para desespero. Se conseguir manter o padrão do futebol apresentado diante do time de Dunga, o Uruguai garante vaga na Copa. E a juventude do time nos faz pensar que a tendência é não haver queda acentuada de rendimento. Jogadores como Maximiliano Pereira (23 anos), Walter Gargano (23 anos), Cristián Rodríguez (22 anos) e Luís Suárez (20 anos) podem oferecer muito à equipe uruguaia, cujo poderio foi observado por Marcelo Bielsa, antes do confronto com o Chile: “Este Uruguai atual é o que mais perto está de Argentina e Brasil”.

Graças a alguma influência do acaso, Oscar Tabárez encontrou uma formação muito interessante para o seu onze titular. Por conta das lesões dos meias Pablo Garcia e Diego Pérez (e também de Forlán, que atuou, contra a Bolívia, como meia ofensivo), o experiente técnico foi levado a lançar mão de Gargano, Ignácio González e Álvaro González, que constituíram um trio plenamente integrado com os homens mais avançados – Suárez, Abreu e Rodríguez. O time ficou mais fluido e, diante de atônita seleção canarinho, parecia ter anos e anos de entrosamento. Futebol tem dessas coisas – não raro, jogadores menos famosos, ou teoricamente mais fracos, dão a uma equipe o elixir de coletividade de que ela tanto precisava. Quando encontra estilos que se casam, o técnico deve valorizar isso.

Caso totalmente oposto se verifica no Brasil. Os setores do time sofrem com um complicado divórcio e, para piorar, as partes isoladas não demonstram nem um pingo de paixão. E, quando falamos em paixão, não estamos nos referindo ao patético pseudo-patriotismo insuflado por uma fatia da mídia. Falamos de disposição, garra, responsabilidade. Elementos que sobram, por exemplo, no raçudo Cristián Rodríguez. Elementos que enxergamos na Argentina. Já a seleção brasileira parece destituída de compromisso individual, de sentimento de grupo e de conexão com o seu técnico.

Mas Argentina e Uruguai perdem para o Brasil, responderia Dunga, para quem a seleção de 94 é o supra-sumo da história do futebol. De fato, na última quarta-feira, o placar do Morumbi mostrou vitória do eficiente terceto Júlio César /Luís Fabiano/Sorte. Na lembrança de quem viu a partida, entretanto, estará para sempre registrada a bela performance do onze uruguaio em solo estrangeiro.

A estranha estratégia de Erwin Sánchez

Na primeira rodada das Eliminatórias, a Bolívia encarou o Uruguai, no Centenário. Soliz e Lima compuseram a dupla de meio-campistas defensivos, enquanto Jaime Moreno e Marcelo Moreno foram titulares do ataque. No jogo seguinte, empate sem gols contra a Colômbia, em La Paz, o par de volantes foi Mojica/Reyes, e o de ataque, Arce/Andaveris. Veio a terceira rodada e nova mudança: García/Suárez à frente da zaga e Jaime Moreno/Cabrera na linha ofensiva. Três dias depois, diante da Venezuela (derrota por 5 a 3), García/Gómez foi o duo de contenção e Arce/Marcelo Moreno, o de ataque.

As múltiplas e radicais alterações não se limitam às posições citadas. Na curta campanha das Eliminatórias, já foram usados dois goleiros, quatro zagueiros, cinco laterais e quatro meias ofensivos. O procedimento de trocar várias peças de um jogo para o outro não tem surtido efeito – a Bolívia marcou apenas um ponto até agora. Embora o presidente da federação boliviana assegure que o trabalho do técnico Erwin Sánchez “também tem coisas positivas”, já começa a ficar difícil compreender que coisas são essas.

Seria absurdo cobrar de Sánchez a classificação para a Copa – proeza que foi possível em seu tempo de jogador – mas é inegável que o desempenho do time poderia ser melhor. E um dos fatores que emperram o progresso técnico da equipe é justamente o inexplicável troca-troca promovido por Sánchez. Há jogadores do time boliviano que, claramente, merecem ser titulares absolutos, casos dos atacantes Arce e Marcelo Moreno, por exemplo. O técnico prefere, porém, usá-los só de vez em quando, privando o time de significante parcela de seu potencial.

O onze que mais se aproximou do ideal foi o que Sánchez escalou contra a Venezuela, e, não por acaso, o time, ao menos no aspecto ofensivo, realizou boa partida. A Bolívia fez 3 a 2 depois da metade do segundo tempo e parecia próxima dos três pontos fora de casa. Foi aí que o esgotado Marcelo Moreno teve de ser substituído. Sánchez podia ter colocado um defensor no lugar do cruzeirense, mas optou pelo também atacante Jaime Moreno. A imprensa boliviana acusa Sánchez de inexperiência – um treinador com mais bagagem teria sabido como agir para segurar o ótimo resultado.

O ex-meia dá a impressão de estar, realmente, um tanto perdido. Esse é, aliás, um dado comum aos técnicos destas Eliminatórias que tiveram pouca ou nenhuma experiência na função de dirigir times de futebol – Del Solar passa por problemas na seleção peruana e Dunga, não obstante alguns bons resultados, está a anos-luz da unanimidade.

Em junho de 2008, Sánchez terá, contra Chile e Paraguai, duas oportunidades, ambas na altitude de La Paz, para provar que pode fazer a Bolívia evoluir. Claro que isso só será possível se ele for mantido no cargo. Críticas advindas de membros da própria federação boliviana têm sido ouvidas. O vice-presidente Mauricio Méndez, por exemplo, lembra que os clubes do país têm colaborado muito com a seleção, cedendo seus jogadores por longo tempo, e reclama que essa vantagem não tem sido bem aproveitada.

A sorte está lançada!

No dia 25, em Durban, cidade da costa leste da África do Sul, será realizado o sorteio dos grupos das Eliminatórias da Europa, da África, da Ásia e da Concacaf. Veja, abaixo, a composição dos potes de cada uma dessas confederações.

Europa (oito grupos de seis seleções e um de cinco)
Pote 1: Itália, Espanha, Alemanha, República Tcheca, França, Portugal, Holanda, Croácia e Grécia
Pote 2: Inglaterra, Romênia, Escócia, Turquia, Bulgária, Rússia, Polônia, Suécia e Israel
Pote 3: Noruega, Ucrânia, Sérvia, Dinamarca, Irlanda do Norte, Irlanda, Finlândia, Suíça e Bélgica
Pote 4: Eslováquia, Bósnia, Hungria, Moldávia, País de Gales, Macedônia, Belarus, Lituânia e Chipre
Pote 5: Geórgia, Albânia, Eslovênia, Letônia, Islândia, Armênia, Áustria, Cazaquistão e Azerbaijão
Pote 6: Liechtenstein, Estônia, Malta, Luxemburgo, Montenegro, Andorra, Ilhas Faroe e San Marino

África (doze grupos de quatro)
Pote A: Camarões, Nigéria, Costa do Marfim, Marrocos, Gana, Tunísia, Egito, Guiné, Senegal, Mali, Angola e Togo
Pote B: Zâmbia, África Do Sul, Cabo Verde, RD Congo, Argélia, Burkina Faso, Benin, Moçambique, Líbia, Etiópia, Congo e Zimbábue
Pote C: Uganda, Botswana, Guiné Equatorial, Tanzânia, Gabão, Malaui, Sudão, Burundi, Libéria, Ruanda, Eritréia e Namíbia
Pote D: Gâmbia, Mauritânia, Quênia, Chade, Lesoto, Ilhas Maurício, Niger, Suazilândia, Seychelles, Serra Leoa, Madagascar e Djibuti

Ásia (cinco grupos de quatro)
Pote A: Austrália, Coréia do Sul, Irã, Arábia Saudita e Japão
Pote B: Bahrein, Uzbequistão, Kuwait, Coréia do Norte e China
Pote C: Jordânia, Iraque, Líbano, Omã e Emirados Árabes
Pote D: Catar, Síria, Tailândia, Turcomenistão e Cingapura

Concacaf
Antes da definição dos grupos, haverá uma fase preliminar disputada pelas 22 seleções mais fracas da Confederação. Os times que figuram entre a 14a e a 24a posições do ranking local enfrentam as equipes que vão da 25a à 35a.
Pote 1: Barbados, Suriname, Bermuda, Antígua e Barbuda, Saint Kitts e Nevis, República Dominicana, El Salvador, Bahamas, Nicarágua, Granada e Santa Lúcia
Pote 2: Turks e Caicos, Antilhas Holandesas, Ilhas Virgens Americanas, Dominica, Ilhas Cayman, Porto Rico, Anguilla, Belize, Ilhas Virgens Britânicas, Montserrat e Aruba.

CURTAS

– Pelas Eliminatórias da África, Madagascar, Djibuti e Guiné-Bissau faturaram as vagas da etapa preliminar, eliminando Comores, Somália e Serra Leoa, respectivamente.

– Na Ásia, Turcomenistão, Síria, Cingapura e Tailândia vão à fase de grupos, após terem batido Hong Kong, Indonésia, Tadjiquistão e Iêmen. A se destacar, a goleada da Síria sobre a Indonésia: 7 a 0.

– Também aconteceram goleadas nas Eliminatórias da Oceania: a Nova Zelândia, que lidera o quadrangular, fez 4 a 1 em Vanuatu; Nova Caledônia venceu Fiji por 4 a 0.

– Seleção da terceira rodada das Eliminatórias da América do Sul:
Bravo (Chile); Vera (Paraguai), Mosquera (Colômbia), Juan (Brasil) e Vargas (Peru); Mascherano (Argentina), Cáceres (Paraguai), Riveros (Paraguai) e Riquelme (Argentina); Suárez (Uruguai) e Messi (Argentina).

– Seleção da quarta rodada das Eliminatórias da América do Sul:
Júlio César (Brasil); Pereira (Uruguai), Hurtado (Equador), Da Silva (Paraguai) e Morel (Paraguai); Gargano (Uruguai), Ignácio González (Uruguai), Méndez (Equador) e Rodríguez (Uruguai); Marcelo Moreno (Bolívia) e Messi (Argentina).

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