Dentro ou fora?

Quando as Eliminatórias da América do Sul eram disputadas no sistema de grupos, já era difícil pensar em Brasil e Argentina fora de uma Copa do Mundo. O perigo, porém, era maior. A pequena quantidade de jogos e de adversários podia transformar uma ocasional zebra num passo para a morte. Assim, os argentinos acabaram se ausentando da Copa de 1970, enquanto os brasileiros passaram por apertos na qualificação para 1994.

A partir das Eliminatórias para a Copa de 1998, a tarefa das potências ficou sobremaneira facilitada. As esporádicas mancadas ficam hoje diluídas nos longos dois anos de competição, durante os quais se jogam dezoito partidas. Esse modelo oferece a Brasil e Argentina uma espécie de certeza vitalícia quanto à presença em Mundiais. Só um catastrófico declínio técnico poderia, no futuro, fazer uma das quatro vagas diretas não pertencer a uma das duas maiores forças do futebol sul-americano.

Com Brasil e Argentina praticamente lá, resta saber quem vai acompanhá-los. Nas duas últimas Copas, Equador e Paraguai abocanharam as outras vagas diretas, ao passo que o Uruguai, quinto colocado em ambas as ocasiões, encarou duas repescagens contra a Austrália, tendo fracassado em uma delas. Esse quadro vai mudar ou a tendência é que o grupo de representantes sul-americanos permaneça o mesmo? O início da batalha por 2010 já deu algumas pistas para a resposta.

Mais longe

A Bolívia parece ser carta fora do baralho. Revelou-se equivocada a estratégia de poupar jogadores como jogadores como o lateral Gatti Ribeiro e o atacante Arce contra o Uruguai, a fim de que eles voassem contra a Colômbia na altitude de La Paz. O que se conseguiu com isso foi uma estréia desanimadora (5 a 0 para os uruguaios) e um péssimo empate em casa. Em alguns momentos do confronto com a seleção charrua, o time boliviano parecia estar em plena consonância com o nome de seu quarto-zagueiro (Amador).

O Peru, que, tal qual a Bolívia (e o Brasil), tem no banco um ídolo pouco experimentado na função de técnico (o ex-jogador Guillermo Del Solar), também demonstra estar inclinado à desclassificação. Na defesa e no meio-campo, não soa convincente a mistura de veteranos, como Acasiete, Jayo e Solano, com jovens pertencentes a em times inexpressivos da Europa, como Paolo de la Haza (Chernomorets, da Ucrânia). No ataque, há qualidade, no entanto a equipe não marcou gol nas duas primeiras rodadas.

O terceiro integrante desse rol de times fadados à eliminação é a Venezuela. Por mais que a Vinotinto tenha evoluído, ainda não parece ser a sua hora. A vitória sobre o Equador, em Quito, foi, inegavelmente, um grande resultado, mas, nas Eliminatórias para 2006, um triunfo ainda mais surpreendente, obtido em pleno Estádio Centenário, não impediu que a Venezuela ficasse atrás do Uruguai na classificação final.

Mais perto

Desde 1998 fora das Copas, o Chile tem boas chances de retornar ao torneio em 2010. A escolha de Marcelo Bielsa para o cargo de treinador tem estreita relação com esse prognóstico. Seu esquema de estimação, o 3-3-1-3, pode funcionar muito bem caso conte com as peças certas. Algumas delas estão, por variados motivos, distantes da seleção, e um eventual retorno poderá ser importante para as pretensões chilenas.

O caso mais grave é o de David Pizarro, volante da Roma, que executaria com eficácia o papel de elemento central ou canhoto da segunda linha de três da equipe de Bielsa. Em outubro de 2005, Pizarro decidiu não mais vestir a camisa “roja”. Até hoje, mantém-se irredutível. Bielsa já deixou claro que pretende chegar a um entendimento com o meia, a fim de poder contar com seus serviços na luta por um posto na próxima Copa.

Além de Pizarro, estão fora do time os jogadores punidos por indisciplina na Copa América, entre eles Valdivia e Navia. Quando estiverem livres da pena, tornarão mais ricas as opções de Bielsa. Outro nome que pode vir a figurar nas próximas convocações do “Loco” é o de Milovan Mirosevic, talentoso meia de 27 anos que ajudou o Beitar Jerusalém a se sagrar campeão em Israel. Foi dele o gol de empate contra a Argentina na primeira rodada das Eliminatórias para 2006.

O Paraguai de Gerardo Martino, bem-sucedido técnico do Libertad nas últimas temporadas paraguaias, está igualmente bem cotado para ir à África do Sul. O empate sem gols em Lima e o êxito caseiro diante do Uruguai mostraram um time bastante organizado no aspecto defensivo. Vera e Riveros, os dois meias abertos da segunda linha de quatro do 4-4-2 idealizado por Martino, trancam os flancos do campo e obrigam os adversários a procurarem o meio, onde também encontram sólido bloqueio.

O terceiro e último componente desta turma é o Uruguai. O time ainda não tem o mesmo apuro tático de Paraguai e Chile, porém dispõe de mais valores individuais. Alguns deles, como Recoba e Chevantón, não participaram dos primeiros embates destas Eliminatórias.

No meio do caminho

Embora ocupe neste momento a lanterna, com duas derrotas, o Equador não merece ser descartado. A exibição contra o Brasil foi respeitável até meados do segundo tempo, quando um gol acidental – tão acidental quanto o que resultou da bomba do venezuelano Rey, na partida anterior – abriu as portas de sua retaguarda. Se não se deixar abater pelo começo ruim, a seleção equatoriana poderá voltar ao grupo dos mais fortes postulantes às vagas para a Copa.

Finalizemos este panorama com a Colômbia, talvez a maior interrogação destas Eliminatórias. A falta de sintonia entre o técnico Jorge Luís Pinto e alguns jogadores bem colocados no futebol europeu (caso do zagueiro Córdoba) provocou o afastamento voluntário destes, após a Copa América. A desavença privou a equipe de talento e bagagem internacional, principalmente no setor defensivo. Para o ataque, Pinto tem boas opções ainda inexploradas, como a aposta em Juan Pablo Pino, destaque do último Sul-americano sub-20.

Bilhões em ação – Parte II

Dos 17 confrontos da primeira fase das Eliminatórias asiáticas, 13 foram apresentados na última edição desta coluna. Os quatro restantes, que aparecem abaixo, terão jogo de ida no dia 21, e o de volta uma semana depois.

Mongólia x Coréia do Norte

Gengis Khan foi o grande líder do Império Mongol, erigido no século XIII. Conhecido pela sua maestria nas táticas de guerra, até hoje Khan exerce grande influência sobre quem nasce na Mongólia. O aeroporto do país tem o seu nome. Já a seleção nacional não decola de jeito nenhum, tampouco tem estratégias eficazes para destruir os adversários. Em sua deprimente história, venceu apenas três jogos, todos contra Guam, que, aliás, desistiu de participar das Eliminatórias para 2010, sem que se precise explicar por quê.

Entre 1960 e 1998, o selecionado mongol não disputou partida alguma. Depois, sob a batuta do técnico Ishdorj Otgonbayar, dono do cargo até os dias atuais, saiu por aí colecionando derrotas. Nas Eliminatórias para a Copa de 2006, foi devastado pelas Ilhas Maldivas – 12×0 e 1×0. No duelo que se avizinha, contra a Coréia do Norte, novo fracasso é esperado. Em julho, as duas equipes se enfrentaram num amistoso e deu Coréia, fácil: 7 a 0.

Não dá para prever outro desenlace que não seja a eliminação da Mongólia, mesmo com o oponente sendo a Coréia mais fraca no futebol. Excetuando-se os “zainichis” (integrantes da comunidade norte-coreana no Japão), os jogadores da Coréia do Norte não podem jogar em ligas estrangeiras, o que impõe certos limites a sua evolução. Ainda assim, há sinais de que o futuro pode ser mais vencedor – a rapaziada sub-20 não fez feio no último Mundial, empatando com a República Tcheca e perdendo por apenas 1 a 0 para a Argentina. Nada que se equipare ao êxito de 1966, quando a seleção principal derrubou a Itália em plena Copa do Mundo, mas já é um bom incentivo para bater a Mongólia de forma convincente e tentar segurar as pontas nas fases seguintes.

Sri-Lanka x Qatar

No mais recente Mundial, Sri-Lanka foi vice. Obviamente, não estamos falando de futebol. O esporte em questão é o críquete, disparadamente o mais popular no país. Até os jogadores da seleção de futebol são grandes apreciadores de críquete. Escassez de fãs e pouca exposição na mídia são dois dos problemas em que o “beautiful game” esbarra no antigo Ceilão. O desempenho da seleção cingalesa é condizente com o interesse que desperta: fraco. Fraquíssimo. Em toda a sua trajetória, disputou 25 jogos de Eliminatórias de Copa. Perdeu 17 e empatou 5. Fez 19 gols e tomou 61. De suas três minguadas vitórias, uma foi contra Filipinas e outra contra Laos, países que nem ousaram entrar na briga por 2010. Sri-Lanka entrou, mas deve sair logo, logo. O Qatar, embora não esteja num bom momento – desapontou nas últimas Eliminatórias e na Copa da Ásia –, tem mais time, mais tradição e mais dinheiro.

O time catariano, campeão da Copa do Golfo em 1992 e 2004, tem jogadores como o atacante Hussain Yasser, primeiro do país a jogar na Inglaterra. Fracassou no Manchester City, é verdade, mas manteve-se na Europa (joga atualmente no Braga, de Portugal). O treinador do Qatar é Jorge Fossati, que não conseguiu levar o Uruguai à Copa de 2006. Fossati fez grande sucesso no Al Sadd, onde conquistou todas as competições do futebol catariano na última temporada.

Quanto ao dinheiro, esse jorra mesmo, e em forma de petróleo. Recentemente, o Qatar e a cidade de Dubai (dos Emirados) compraram quase metade da bolsa de Londres. A grana preta respinga no futebol e já levou para lá veteranos como Batistuta, Okocha, Hierro, Desailly, Signori, Romário e os irmãos De Boer. Esse contato com o talento estrangeiro ainda não foi suficiente para alçar o Qatar à condição de potência futebolística da Ásia. Para ganhar de Sri Lanka, no entanto, não é necessário ser potência.

Bahrein x Malásia

O favoritismo pertence a Bahrein. Orientada pelo experiente Milan Macala (tcheco que já comandou a seleção de seu país e as de Omã, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Kuwait), a seleção que perdeu, no play-off contra Trinidad e Tobago, a chance de ir à Alemanha em 2006, também tem no currículo a quarta colocação na Copa da Ásia de 2004. Na de 2007, empacou na fase de grupos, mas deve-se levar em conta o fato de ter caído na mesma chave de Arábia Saudita e Coréia do Sul.

Uma pequena crise gerada pela difícil liberação dos “estrangeiros” obrigou Macala a convocar alguns jovens da seleção olímpica. Mas o principal jogador bareinita, A`ala Hubail, do Al Kuwait, está confirmado. Ele é o maior artilheiro da seleção nacional em todos os tempos, com 30 gols.

Na seleção da Malásia, a crise não pode ser considerada pequena. Os “Tigres”, que dividiam o trono do leste asiático com a Coréia do Sul nos anos 70, ficaram excessivamente mansos nos últimos tempos. Uma das anfitriãs da última Copa da Ásia, a Malásia tomou pau nos seus três jogos da fase de grupos. O fiasco em casa provocou a queda do técnico Norizan Bakar, substituído por B. Sathianathan. O novo comandante resolveu dar chance, nos jogos contra Bahrein, aos jogadores do time sub-23 que venceram a Copa Merdeka. O efeito da renovação não será imediato, mas, como disse o próprio Sathianathan, “Não dá para piorar”.

Timor Leste x Hong Kong

O Timor Leste entra pela primeira vez nas Eliminatórias de uma Copa. Filiado à FIFA desde setembro de 2005, o país ocupa a última posição do ranking da entidade, ao lado de Samoa Americana e outras seis fragílimas seleções. O último jogo dos timorenses remonta a 2004, quando perderam para a Tailândia por 8 a 0. O capitão e principal jogador da equipe é o defensor Alfredo Mozinho Esteves, que nasceu em Lisboa e joga no Minnesota Thunder, da segunda divisão do futebol norte-americano.

Nem todo o exacerbado nacionalismo gerado pela recente independência deverá ser suficiente para fazer o Timor Leste superar Hong Kong, que, nas Eliminatórias para 2006, levou sete da China, mas derrotou duas vezes a Malásia. Em outras palavras: apesar de muito limitado, o time de Hong Kong não está entre os piores da Ásia.

Todos os jogadores da seleção de Hong Kong defendem clubes da liga local. Os que mais cederam atletas para as partidas contra o Timor Leste foram o Happy Valley, o South China e o Convoy Sun Hei. Gerard Ambassa Guy, atacante nascido em Camarões, e o zagueiro brasileiro Cristiano Cordeiro (com o perdão da rima) são dois dos principais membros da equipe. Cristiano, de 34 anos, é, inclusive, o seu capitão. Fora da turma naturalizada, o jogador mais importante é Lee Sze Ming, autor do único gol de Hong Kong no amistoso disputado contra o Brasil, em 2002, que acabou com vitória tupiniquim por 7 a 1.

Curtas

– Seleção da primeira rodada das Eliminatórias sul-americanas:

– Júlio César (Brasil); Zuniga (Colômbia), Rey (Venezuela), Milito (Argentina) e Fucile (Uruguai); Amaya (Colômbia), Perez (Uruguai) e Riquelme (Argentina); Messi (Argentina), Forlán (Uruguai) e Rodríguez (Uruguai).

– Seleção da segunda rodada das Eliminatórias sul-americanas:

– Galarza (Bolívia); Maicon (Brasil), Demichelis (Argentina), Juan (Brasil) e Morel (Paraguai); Vera (Paraguai), Kaká (Brasil) e Riveros (Paraguai); Suazo (Chile), Valdéz (Paraguai) e Robinho (Brasil).

– Na fase pré-grupos das Eliminatórias da África, disputada pelas seleções mais fracas do continente, Madagascar derrotou Comores por 6 a 2 e Serra Leoa bateu Guiné-Bissau por 1 a 0. Os jogos de volta acontecerão no dia 17 de novembro.

– Djibuti e Somália, que também participam dessa fase, decidirão a vaga nas chaves africanas em jogo único, no dia 16 de novembro.

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Equipe Trivela

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