Declaração de independência

Real Madrid e Milan, os dois recordistas de títulos europeus, estão fora da Liga dos Campeões. Os times, que somam 16 troféus, foram eliminados, respectivamente, por Roma e Arsenal, que somam… nenhum. Depois das exibições desta semana, será difícil achar argumentos para descredenciar suas chances de levantar a taça pela primeira vez.

É possível traçar um paralelo entre a razão do sucesso das duas equipes, além do fato de ambas apresentarem um futebol vistoso.

O Arsenal disputa sua primeira temporada sem Thierry Henry, e os resultados e atuações desde então provam que isso é a melhor coisa que poderia ter acontecido aos Gunners. Se a campanha até a final de 2006 tem de ser colocada em grande parte na conta do craque francês, a boa temporada do time de Arsène Wenger em 2007/8 é fruto do esforço coletivo de um elenco em galopante amadurecimento.

Cesc Fàbregas é a mola mestra da equipe, mas sua relação com o resto do grupo é diferente. Antigamente, passava-se a impressão de que todos faziam sua parte, mas no fim das contas era Henry quem tinha a obrigação de resolver. Agora, os garotos não podem mais transferir responsabilidades. A vitória sobre o Milan em San Siro foi a prova definitiva que o time se encontra muito bem com a nova realidade.

A transformação da Roma ocorreu de forma mais gradual, e não envolveu a saída do jogador mais badalado. Até o ano passado, era comum ouvir que “quando Totti não anda, a Roma não anda”. De fato, os giallorossi dependiam muito da forma de seu capitão, e isso lhes bastava na maioria das vezes, já que Totti fez uma boa temporada em 2006/7 e terminou com a Chuteira de Ouro ao marcar 26 gols na Série A. No entanto, lições duras como os 7 a 1 de Old Trafford provaram que seria necessário mais do que isso para dar o salto de qualidade na Europa.

Roma-bis: Bernabéu calado

O técnico Luciano Spalletti, que não deve nada aos papas da função no continente, entendeu o recado. Pior para o Real Madrid, que foi derrotado por duas vezes, mesmo sem enfrentar um Totti inspirado.

Alberto Aquilani, meio-campista cada vez mais pronto para a seleção italiana, foi um líder em campo na partida do Santiago Bernabéu. Apareceu com freqüência no ataque, acertou bolas na trave, deu trabalho a Casillas. Taddei e Mancini foram ameaças constantes. Se muitos, inclusive este colunista, acreditavam que a Roma seria obrigada a abdicar de sua vocação ofensiva se quisesse voltar com a vaga, Spalletti foi fiel a seu estilo de jogo.

Os danos que a Roma era capaz de causar com seus contra-ataques fizeram com que o Real Madrid não se sentisse confortável para exercer a pressão que deveria para buscar a vaga. A expulsão de Pepe, um misto de erro de julgamento do zagueiro e falha na cobertura defensiva, foi aproveitada quase imediatamente com o gol de Taddei. Nem mesmo o gol (impedido) de Raúl abalou a segurança da Roma, que saiu com a merecida vitória graças ao gol de Mirko Vucinic nos acréscimos.

O montenegrino, aliás, é uma das razões para o fim da Totti-dependência. Quando o capitão estava lesionado, Vucinic o substituiu muito bem. E quando tem de coexistir em campo com Totti, sacrifica-se em uma função mais recuada, à qual tem se acostumado.

O público no Bernabéu parecia consternado no fim do jogo, como se não acreditasse na quarta eliminação consecutiva da equipe nas oitavas-de-final da LC. Em um clube que gosta de medir sua grandeza por sua posição continental, é um duro golpe. “Seis anos são muitos”, dizia o Marca na edição do dia seguinte, referindo-se ao tempo passado desde o último título, o do gol histórico de Zidane, contra o Bayer Leverkusen.

Classificado como “máquina de jogar” e “melhor time do mundo” em declarações recentes do presidente Ramón Calderón, o Real Madrid sofreu um duro choque de realidade. Os milhões investidos em contratações não foram capazes de oferecer uma alternativa ofensiva na ausência do lesionado Ruud van Nistelrooy.

No ano passado, Fabio Capello conquistou “só” o Campeonato Espanhol e acabou demitido. Agora, o máximo que Bernd Schuster pode conseguir nesta temporada é igualar seu antecessor – e, para isso, terá de controlar os danos do trauma da LC e da evidente queda física do time nas últimas semanas.

Arsenal para a história

Nenhum time inglês havia sido capaz de bater o Milan em San Siro até a última terça-feira, quando o Arsenal fez 2 a 0 e carimbou sua ida para as quartas-de-final. Falar em um Milan envelhecido para minimizar o feito dos Gunners não é uma alternativa – os rossoneri não eram garotos quando despacharam o Manchester United com um 3 a 0 no ano passado.

O Arsenal fez história justamente quando parecia sofrer uma crise de jogo. Havia sido goleado por 4 a 0 pelo Man Utd na Copa da Inglaterra e empatado partidas consecutivas contra Birmingham e Aston Villa na Premier League. Nada disso foi suficiente para abalar a confiança dos rapazes de Wenger, que em momento algum se intimidaram com o Giuseppe Meazza lotado e jogaram melhor que o Milan, como já tinham feito no Emirates Stadium.

Desfalcado de Seedorf, o Milan se viu carente de opções ofensivas. Kaká, voltando de um problema no joelho, estava distante de seu melhor jogo. O Arsenal secou as saídas dos donos da casa, marcando Pirlo com maestria e garantindo que a bola nunca chegasse redonda a Pato e Inzaghi. Carlo Ancelotti não tinha muito o que fazer para mudar o panorama. Suas opções no banco de reservas não condiziam com a de um atual campeão do torneio – ou de qualquer time que sonhasse com o título.

Fàbregas teve uma atuação de encher os olhos, correndo de área a área, passando com maestria e ainda marcando o primeiro gol, aos 39 minutos do segundo tempo. Naquele momento, Theo Walcott já havia entrado para explorar o cansaço da defesa, e de uma jogada do prodígio inglês saiu o golpe final, marcado nos acréscimos por Adebayor.

O Milan aceitou a derrota com o cavalheirismo comum aos habituados a vencer, e agora volta suas atenções para a difícil corrida por uma vaga na LC para a próxima temporada. A diferença na Série A para a Fiorentina, quarta colocada, é de quatro pontos. Restam doze rodadas, ou seja, há tempo. Mas será preciso reforçar o elenco em praticamente todos os setores para que esta eventual volta não termine da mesma forma.

Olho no Chelsea

Apontado como favorito nos anos Mourinho, o Chelsea tem sido visto com desconfiança nesta temporada, apesar dos bons resultados sob o comando de Avram Grant. A vitória por 3 a 0 sobre o Olympiacos foi uma prova de força, nem tanto pelo adversário, mas pela boa atuação da equipe, sobretudo de Lampard e Ballack. Os Blues têm um time capaz de vencer qualquer rival em um bom dia.

O Manchester United sofreu mais do que devia para eliminar o Lyon. Vitória magra por 1 a 0, e os Red Devils poderiam até ter sido forçados a jogar uma prorrogação, já que Keita acertou uma bola na trave no segundo tempo. Ainda que se trate do hexacampeão francês, o Lyon não é mais o mesmo de outros tempos e deveria ter sido eliminado com mais facilidade.

O Barcelona encarou o jogo contra o Celtic como mera formalidade, depois da vitória de Glasgow, e o gol logo no início reforçou esta tese. Sem esforços que julgava desnecessários, o campeão de 2006 venceu por 1 a 0, mas a partida acabou marcada pela lesão que tira Messi das duas partidas das quartas-de-final.

Festival de pênaltis

Desde a criação da Champions League, em 1992, apenas dois confrontos em ida e volta haviam sido decididos nos pênaltis: PSV x Lyon, em 2005, e Liverpool x Chelsea, ano passado. Só esta semana foram outros dois. Melhor para Fenerbahçe e Schalke 04, que eliminaram Sevilla e Porto, respectivamente, fora de casa.

Os dois times eliminados podem se lamentar por não terem matado os confrontos em casa nos jogos de volta. O Sevilla chegou a abrir 2 a 0 nos minutos iniciais, com duas falhas incríveis do goleiro Volkan Demirel. O time espanhol ainda teve vantagem de 3 a 1 no segundo tempo, mas permitiu que o Fenerbahçe chegasse ao gol que forçou a prorrogação. Nas penalidades, Volkan se redimiu e pegou três cobranças.

No caso do Schalke, o goleiro Manuel Neuer foi herói desde o tempo normal. A ele deve se atribuir o fato de o Porto não ter feito nos 90 minutos a diferença necessária para eliminar os Azuis Reais. Neuer ainda pegou dois pênaltis e classificou a equipe de Gelsenkirchen pela primeira vez para as oitavas-de-final.

Inevitavelmente, Schalke e Fenerbahçe serão o desejo dos outros times no sorteio. E também serão o desejo um do outro.

Sorteio das quartas

Na terça-feira, Internazionale e Liveprool definem o último classificado em San Siro. Os Reds lideram o confronto por 2 a 0.

O sorteio das quartas-de-final será na sexta-feira, dia 14. Não haverá cabeças-de-chave e serão permitidos confrontos entre times do mesmo país. Em resumo: todo mundo pode se enfrentar.

Copa Uefa

O Bayern de Munique enfim teve uma atuação à altura de seu favoritismo na Copa Uefa, na goleada de 5 a 0 sobre o Anderlecht em Bruxelas. Agora, é só deixar o tempo passar no jogo de volta e esperar o adversário nas quartas.

Getafe e PSV também venceram como visitantes. O “EuroGeta” bateu o Benfica por 2 a 1 no estádio da Luz, beneficiado pela expulsão do atacante Óscar Cardozo logo aos 9 minutos de jogo. O PSV, com grande atuação de Gomes, fez 1 a 0 no Tottenham em White Hart Lane.

Fiorentina e Rangers conquistaram vantagens importantes com vitórias por 2 a 0 sobre Everton e Werder Bremen, respectivamente. Também é boa a situação do Olympique de Marselha, que fez 3 a 1 no Zenit St. Petersburg.

O Bayer Leverkusen fez 1 a 0 em casa sobre o Hamburg, no jogo de ida do confronto alemão, e o Sporting arrancou um empate por 1 a 1 na visita ao Bolton.

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Equipe Trivela

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