De neto para avô

Por Gustavo Ribeiro

A vida é pacata na pequena Paranavaí, norte do Paraná, em meados da década de 60, com raríssimas opções de diversão. Apenas a criançada, com criatividade, inventa brincadeiras para passar o tempo depois de passarem a manhã na escola. De vez em quando o circo aparece, mas logo vai embora. E a vida continua.

Mais um dia começa. A terra vermelha, coberta por um mar de cafeeiros, toma conta da paisagem, com o sol derretendo as gotas do orvalho nas pequenas folhas. Aos poucos o terrão começa a subir e o calor dá as caras. Hoje não tem escola, brincadeiras na rua, muito menos o circo. É dia de futebol! E mais que isso, é dia do time da capital visitar a cidade e enfrentar o simpático e pequeno Atlético Clube Paranavaí. O roteiro é de, claro, muitos gols do adversário e, quem sabe, algum tento a favor.

O torcedor sabe que hoje é dia. E já levanta anunciando para toda família e vizinhos que hoje é dia. A expectativa é grande e não consegue conter a animação. Um jogo tão importante assim é raro e quer ver o estádio abarrotado. Já imagina os lances de madeira cobertos de torcedores trajando o rubro e gritando para os jogadores dentro de campo. E seu lugar já está marcado: o alambrado.

O calor vai apertando e a ansiedade aumenta. Já é hora de ir para o estádio. A tiracolo leva a cria, envergonhada de ver o pai gritando e cantando. No caminho, sem pestanejar, vai pegando gente e mais gente para levar ao local da peleja. E a cria, mais envergonhada. A cambada toda chega no estádio e logo toma seu lugar atrás do gol, grudado no alambrado, pronto para incentivar seus jogadores e também estorvar os adversários. Hoje vale tudo.

O jogo começa e é aquele frenesi. Uma gritaria só. Praticamente narra o jogo, em voz altíssima, para todos escutarem. Afinal, o estádio nem é estádio, é sim um campo cercado de alambrado e alguns degraus de arquibancada. O grito ecoa por todo o terreno. “Sangue, sangue” é o canto que impera, pedindo raça aos seus jogadores, que não conseguem conter a superioridade da capital. Não desiste e continua querendo entrega dos atletas. Mas não tem jeito, mais uma derrota do vermelhinho.

A volta para a casa é melancólica. Quem estava ao seu lado vai ficando pelo caminho. Para o filho, além da derrota, o sentimento inocente da vergonha de ver o pai esbravejando e gritando no campo. Mas a vida continua. Para o torcedor fica a esperança de um dia, quem sabe, ver seu time vencer a força da capital. Nem é pedir demais. Mas o tempo passa, e com ele, a vida. A vida e a perpetuação do ser torcedor. O alambrado então se afasta da família.

O tempo continua passando. São mais de 40 anos, e aquela criança envergonhada, hoje é pai. Nutre uma paixão incontrolável pela cidade, mas não pelo futebol. Foi traumático tudo aquilo. Mas por linhas tortas, acaba se vendo novamente no estádio. Não aquele estádio, mas outro, na capital. Ao seu lado, o filho, este sim apaixonado por futebol.

Em campo a força da capital e o vermelhinho do interior, hoje especialmente de branco. O apito soa e o pai lembra daqueles tempos. “Que tolo eu era”, pensa. O jogo corre, a ansiedade cresce e o desespero vem junto. Sem querer se vê repetindo as palavras do pai, pedindo “sangue, sangue” para os jogadores. Palavras essas que se tornaram parte do hino do clube, em homenagem a seu pai.

No fim, o apito. E com ele tudo o que seu pai não teve a oportunidade de presenciar: o interior tomando conta da capital. Se a vitória era inalcançável, um título então, impensável. Mas veio.

E aquela criança envergonhada hoje se envergonha de ter sentido vergonha. E ao lado do seu filho tem essa certeza, pois vê-lo comemorar da mesma forma que seu pai, percebe que motivos não há. Queria naquele momento, a presença do pai, para que pudesse ver o que nunca pôde ver. E estava lá. O seu filho ao lado, que sequer conheceu o avô, teve a certeza de estar junto ao avô pela primeira vez.

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Equipe Trivela

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