Cruel necessidade

Naquele dia os meninos acordaram cedo.

A madrugada foi de giros na cama e olhos abertos, ensaiando quais jogadas fazer, que dribles executar.

Um roteiro escrito com a imaginação.

A 'peneira' é uma crueldade necessária do futebol. O garimpo é a mais antiga forma de os craques se mostrarem ainda pequeninos.

É um vestibular em que não há número de vagas.

Pode haver cem. Pode não haver nenhuma.

E muitas vezes não se permite segunda chance. A reprovação ceifa as esperanças dos aspirantes a jogador.

É o 'não' que não se esquece jamais.

Dessa vez eram 300 sonhos perfilados.

Sentados à beira do gramado, garotos se olhavam desconfiados. São concorrentes por todos os lados.

Qualquer detalhe chama a atenção: uma chuteira surrada intimida. É sinal de que o menino vive nas canchas do subúrbio. A meia novinha de um outro traduz confiança.
 

E por ai vai a esquizofrenia de quem está mergulhado na ansiedade.
 

A espera pelo técnico dói. Ao mesmo tempo em que todos torcem para que ele chegue logo, ninguém nega que existe um sentimento esquisito. Também querem que o treinador demore uma eternidade.
 

Assim, continuam a sonhar… sem restrições.
 

Mas o boné e prancheta chegam logo. O treinador está exatamente travestido de treinador. Como todos imaginavam.
 

Começa a formação dos times. E todos querem entrar logo. Aqueles 22 primeiros, por alguma razão que nenhum dos 300 saberia explicar, são privilegiados.
 

A escolha é aleatória. Obedece ao acaso.
 

O técnico chama por posição.
 

Em meio a todos, um se destaca.
 

Não pelo talento. É a versatilidade que o diferencia.
 

– Quem é zagueiro?, grita o técnico.
 

– Lateral? Atacante? Volante?, completa.
 

– E goleiro?, brada.
 

De calção azul, meião branco e chuteiras pretas, um dos meninos permaneceu com o braço erguido nas 11 posições.
 

Enfim, foi chamado para ser quarto-zagueiro.
 

Com a bola rolando, foi o mais típico camisa 9.
 

O garoto não passou. Ouviu a doce e mais agressiva das justificativas. Deixou o campo com aquele “não desista” na cabeça.
 

E foi embora chorando.
 

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Equipe Trivela

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