Crônica de uns dias na Bahia – parte um

Costa do Dendê, Costa do Cacau, baba, babinha, Zói, Nóia, Nego Panda, gato, gordo, Ribeirão, Silveirão. Uns rápidos diazinhos na Bahia revigoram e transformam. A trabalho, viajei até Ilhéus, peguei um carro alugado, liguei o som e a música já me lembrava como a Bahia é divertida. Não lembrava exatamente da letra, mas que era hilária até minha vaga memória tinha como certa. Daí a achar no Google o hit “Motel Disfarçado”, com as seguintes pérolas: Carro parado com vidro embaçado / Cuidado, cuidado, é motel disfarçado / Carro parado, carro balançando / Subindo e descendo, tem gente ficando.

Na primeira noite, procurei onde assistir ao Vasco e Alianza, já que o meu “hotel”, na cidade de Camacan, tinha menos estrelas que a camisa do Botafogo. Sendo assim, seria pedir demais que ainda tivesse Fox Sports, né? Pois bem. Fui parar no Bar do Jorge, que depois vim a saber é o point dos boleiros da cidade – na mesa que não falavam de futebol do Rio, ouvi sobre um time antigo do Bahia, com Andre Catimba, Frito (“batia uma falta, era um craque”), Picolé, Douglas e Natal. Este, por acaso, o único que tinha escutado falar. 

Bem em frente ao bar, inclusive, mora a família de uma “revelação” da cidade que hoje joga na Itália. Parei em frente a essa casa, pedi uma refeição, que era feita na hora, com churrasqueira na calçada, feijão tropeiro e arroz. Delícia. Melhor só as duas cagadas de Fellipe Bastos e sua trupe – participação especial de Renato Silva.

O seu Jorge, graças a Deus não aquele (imagina, peço a conta e o cara: “eu não sei parar de te olhar” – péssima…), era vascaíno doente. Quando cheguei, passei do ponto, mas voltei na contramão. Sem saber, é claro. Eis que um rapaz, um senhor, na verdade, muito simpático, me avisou.

– A polícia vai te pegar assim. Faz a volta ali na frente.

Feita, conversamos. Ele me apresentou o dono vascaíno e sentei para tomar umas poucas. Contou que era ex-muambeiro que vivia de viajar sempre para o Paraguai. Mas como a situação para as bandas de lá apertou, resolveu virar bicheiro. E mostrou os talões de jogo do bicho na mão.

O jogo até que foi tranquilo. Sentei de frente para a TV, xinguei bastante o time, que fez uma partida ridícula, mas venceu. Tinha um ou dois secadores – leiam-se flamenguistas -, mas foi tudo na paz. Baiano, até que me provem o contrário, é mais pacífico no futebol que os cariocas. Bem mais.

Parêntese: minha família é da Bahia e nunca esqueço do Ba-Vi, gol de Agnaldo, o Agnight, com Petkovic ainda no Vitória, em 1998. A cena mais violenta que vi naquele dia na Fonte Nova foi um torcedor do Vitória passando com bandeira correndo na frente da arquibancada do Baêa e um menino tacando uma lata ou qualquer coisa que não machucasse: “Ordinááário”, gritou. E só. Fecha parêntese.
 
Na noite seguinte assisti ao primeiro tempo do Flamengo contra o Emelec. Numa TV, da parte direita do bar, passava o Mengón, na da esquerda, Inter e Santos. A vibração saía com tudo que era gol. Houve também exclamação quando Nei fez um golaço de falta (imagino o quanto, fiz algo parecido no efeito Bastos do dia anterior). Não fiquei até o fim para ver a tragédia e a zoação que deve ter virado aquele pedaço de Camacan. Nem esperava que aquele time do Joel vencesse o Vasco dias depois com gol de Ronaldinho Gaúcho e presepada ridícula do presidente Roberto Dinamite. Mentira, esperava sim. Clássico de “opostos”, como a imprensa adora de chamar, quase sempre dá aquele time que está em “crise”. Mas deu até preguiça. Preciso voltar logo para a Bahia.

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Equipe Trivela

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