Copa do Mundo? Não, obrigado

A Fifa conta, hoje, com 208 países-membro. Em tese, a todos eles agrada a idéia de disputar uma Copa do Mundo. Para Brasil, Argentina, Alemanha, Itália e outros – até para o México –, o compromisso quadrienal parece ser quase certo. Para seleções menos tradicionais, no entanto, o desafio de chegar ao Mundial é muito mais difícil. Há também aqueles times que não têm a menor chance de êxito, contentando-se com a participação nas Eliminatórias.

Abaixo da categoria dos que se satisfazem com a fase preliminar, existe o grupo dos desistentes – aquelas seleções que, por razão financeira, política ou técnica, preferem abdicar do direito de entrar nas Eliminatórias. No processo de qualificação para a Copa de 2010, chegou a oito o número de fujões. Ainda assim, a quantidade de países envolvidos (200) na briga (ou na mera figuração) é a maior de todos os tempos.

Das oito federações desistentes, cinco são asiáticas – Laos, Brunei, Filipinas, Guam e Butão. Duas pertencem à África (São Tomé e Príncipe e República Centro-africana), e a restante é da Oceania (Papua Nova Guiné). Laos, Brunei, Filipinas e Papua Nova Guiné não se inscreveram nas Eliminatórias, mas os outros quatro chegaram a fazê-lo. Por conta disso, as confederações asiática e africana tiveram de efetuar rearranjos na tabela, que havia sido definida por sorteio.

Alguns países, como Indonésia e Kuwait, foram beneficiados pelos citados abandonos. Sem seus adversários pela frente – Guam e Butão, respectivamente –, puderam pular a primeira fase das eliminatórias da Ásia. O lucro desse avanço direto, no entanto, foi pequeno, porque, se não tivessem deixado a competição, as equipes de Guam e Butão teriam sido, seguramente, batidas com facilidade.

Guam jamais conseguiu derrotar uma seleção filiada à Fifa. Em junho deste ano, esteve perto de mudar esse quadro, fazendo dois a zero nos oito primeiros minutos de um jogo contra a Mongólia, que acabou virando o placar para 5 a 2. Apesar de ter sofrido a pior derrota de sua história há apenas dois anos (21×0 para a Coréia do norte), é consenso que o futebol da ilha tem evoluído aos poucos. O japonês Norio Tsukitate, ex-técnico das categorias de base do Shimizu S-Pulse, tem a incumbência de preparar o time de Guam para o futuro.

Apesar da estabilidade econômica da ilha (o turismo é um dos responsáveis pelo equilíbrio), o motivo oficial da desistência de Guam foi de ordem financeira. Já a federação butanesa alegou “ausência de estádio apropriado”. O estranho é que a mesma federação havia insistido em inscrever-se nas Eliminatórias, após ter perdido o prazo. O registro acabou sendo aceito, mas, depois, com a renúncia de Butão ao direito de entrar na Copa, mostrou-se inútil.

“A outra final”
Butão, país montanhoso e isolado, onde se cultivam antigos costumes, filiou-se à Fifa em 2000. Em 2002, ocupava a lanterna do ranking da entidade, ao lado de Montserrat, ilha caribenha. O cineasta holandês Johan Kramer teve a sacada de propor um amistoso entre esses dois times de origens tão diversas e unidos pela precariedade no futebol. Melhor: o jogo ocorreria na manhã do dia em que Brasil e Alemanha iriam decidir a Copa do Mundo – daí o título do filme, “The Other Final”.

O jogo/filme foi realizado em Thimphu, capital butanesa. O time da casa venceu por 4 a 0, horas antes de o Brasil vencer a Alemanha. Foi o mais perto que Butão chegou de uma Copa do Mundo – uma das tradições do país é a de nunca ter ele disputado sequer as Eliminatórias de um Mundial de futebol.

Laos já teve essa experiência duas vezes. Somadas as campanhas de 2002 e 2006, cumpriu 14 jogos, tendo perdido 11 deles. A aventura das Eliminatórias para 2006 foi particularmente traumatizante. Antes da fase de grupos, Guam e Nepal, que fariam um dos duelos da etapa preliminar, desistiram da competição. O duplo abandono obrigou a Confederação Asiática a dar ao “melhor perdedor” da etapa preliminar (aquele que tivesse obtido o saldo menos negativo) uma vaguinha na fase de grupos. E foi assim que Laos, após uma derrota (0x3) e um empate (0x0) diante de Sri-Lanka, arrumou uma brecha.

Cobra-se mais daqueles a quem muito se dá: foi essa a tônica da participação de Laos na mencionada fase de grupos. Seis derrotas em seis jogos, com 3 gols feitos e 33 sofridos. As fraquíssimas performances, associadas à incômoda pecha de “melhor perdedor”, podem ter incentivado o futebol de Laos a se preparar para o futuro, preservando-se mais no presente. Não deve ser mero acaso o fato de o atual treinador da seleção principal, Xaysana Savadty, ter comandado anteriormente a equipe sub-14 do país.

Filipinas segue essa mesma linha. A federação avisou, antes de 2006, que se entregaria ao desenvolvimento do futebol no país, almejando, a médio prazo, algum progresso nas disputas externas. Para 2010, a ausência nas Eliminatórias está ligada, também, a fatores políticos. Atentados terroristas e guerrilhas internas dão à atual condição do arquipélago uma feição perturbadora. Caso a paz se instaure, e jovens como o atacante Phil Younghusband (atacante do Chelsea emprestado ao Esbjerg, da Dinamarca) e o meia James Hall (reserva do Everton) sejam capazes de alavancar o futebol do país, poderemos esperar algo dos filipinos para as Eliminatórias 2014.

Antes de focalizarmos as ausências africanas, fechemos as asiáticas com Brunei, cuja maior vitória deu-se justamente contra Filipinas, em 1985: 4 a 1. Em Eliminatórias de Copa, Brunei esteve presente em duas ocasiões (1986 e 2002), nas quais colecionou somente derrotas. A inexistência de um campeonato profissional no país dificulta um pouco a constituição de uma seleção, mas não está ligada a falta de recursos, já que o petróleo garante a prosperidade da nação.

O caso africano
A República Centro-africana saiu do páreo por razões político-econômicas. O baixíssimo índice de desenvolvimento humano e os sangrentos conflitos entre rebeldes e forças do governo atrapalham não apenas o futebol, mas quaisquer esboços de vida razoavelmente normal.

São Tomé e Príncipe, um dos paises de língua portuguesa da África, passou por problemas na reestruturação do Estádio Nacional 12 de julho, onde a seleção jogaria. A Fifa chegou a pensar na possibilidade de exigir da federação local a devolução do dinheiro doado para a reforma a arena. Esse não foi o único entrave à participação do país na Copa. A longa inatividade da seleção constitui outro obstáculo – o último jogo aconteceu em 2003, nas Eliminatórias para 2006. Nessa ocasião, a derrota por 8×0, frente à Líbia, teria levado um dirigente a esmurrar o técnico português José Ferraz, que se mandou clandestinamente para a terra natal.

Além desses problemas, há também o da descontinuidade do calendário. Não houve campeonato local em 2002, 2005 e 2006, por exemplo. E o campeão de 1996 foi o Caixão Grande (!).

A frustração de Marcos Gusmão
Devido a uma rixa entre o presidente do comitê olímpico e o presidente da federação de futebol de Papua Nova Guiné, o país acabou não tendo a oportunidade de ingressar no torneio de futebol dos Jogos do Pacífico Sul, que valia, também, como primeira fase das Eliminatórias da Oceania para a Copa de 2010. O leitor da Trivela pôde acompanhar, nos últimos meses, com exclusividade, duas entrevistas com Marcos Gusmão, ex-técnico da seleção papuásia. Na primeira, Gusmão, ainda ocupando o cargo, parecia empolgado e fazia planos. Na segunda, já no Brasil, comentou, muito desapontado, a tola desavença que o impediu de tentar levar Papua Nova Guiné à Copa.

CURTAS

– Do primeira fase das Eliminatórias da Ásia, saíram 17 times, que se somaram a Kuwait e Indonésia. Desse conjunto de 19 seleções, 11 avançaram diretamente à terceira fase – as 11 mais bem posicionadas num ranking elaborado pela federação asiática. As oito seleções restantes vão concluir, no dia 18/11, o mata-mata que define mais quatro vagas no terceiro round.

– Nos jogos de ida, os resultados foram os seguintes: Iêmen 1×1 Tailândia, Cingapura 2×0 Tadjiquistão, Indonésia 1×4 Síria e Hong Kong 0x0 Turcomenistão.

– As Eliminatórias da África também terão atividades no (nosso) feriadão. Comores recebe Madagascar (ida: 6×2 para Madagascar), Guiné-Bissau recepciona Serra Leoa (ida: 1×0 para Serra Leoa) e Djibouti encara Somália em jogo único.

– Pelas Eliminatórias da Oceania, ocorrem neste sábado, dia 17, dois confrontos do quadrangular que definirá o representante da Oceania no play-off contra o quinto lugar da Ásia. São eles: Vanuatu x Nova Zelândia e Fiji x Nova Caledônia.

– Nos próximos dias, rolarão mais duas rodadas das Eliminatórias da América do Sul, as quais serão analisadas na próxima edição desta coluna.

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Equipe Trivela

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