Como se fosse a primeira vez

Honduras foi à Copa de 1982. Quatro anos depois, a seleção do Canadá esteve no Mundial do México. Em 1998, sob a batuta do técnico René Simões, a Jamaica alcançou a Copa disputada na França. Nesses três casos, foi a primeira vez. E a última.

Honduras, Canadá e Jamaica buscam, nestas Eliminatórias 2010, uma segunda chance no espetacular torneio quadrienal. E estão na mesma chave, que é encabeçada pelo México, veteraníssimo em Copas e favorito ao primeiro lugar. Os dois primeiros do grupo partem para a fase final, junto com mais quatro times que sairão das outras duas chaves – uma delas é composta por Estados Unidos, Cuba, Guatemala e Trinidad e Tobago, e a outra, por Costa Rica, El Salvador, Haiti e Suriname.

Fica evidente, quando se olha a constituição dos grupos, que o mais forte é o que serve de tema para esta coluna. Não só pela qualidade das equipes, como também pela tradição – o Grupo 2 das Eliminatórias da Concacaf é o único que não tem nenhum país querendo estrear em Copas. Todos já conhecem o caminho (o México, de cor) e, para voltarem a traçá-lo, precisam vencer a etapa que começa na próxima quarta-feira, dia 20, com os confrontos Canadá x Jamaica e México x Honduras.

A Jamaica, 108a colocada do ranking divulgado pela Fifa no início de agosto, tem, teoricamente, o time mais fraco do grupo. Não se classificou para a Copa Ouro de 2007 e tomou, nesse mesmo ano, uma vexatória goleada – 8 a 1 para o Irã, em jogo realizado na capital do país asiático. A derrota fez parte de uma série de insucessos em amistosos que acabou decretando a demissão do técnico sérvio Bora Milutinovic, ainda em 2007.

Para o lugar de Bora, a Federação Jamaicana investiu em Renê Simões, um dos grandes responsáveis pela histórica façanha de levar os Reggae Boyz à França, uma década atrás. René, que acabara de reconduzir o Coritiba à série A do Brasileirão, aceitou o desafio. Aportou em Kingston no mês de janeiro e revitalizou o ânimo dos jamaicanos, que confiam muito em seu trabalho. No primeiro obstáculo sério que teve pela frente – o mata-mata anterior à fase de grupos –, o bigodudo treinador brasileiro cumpriu a tranqüila missão de passar por Bahamas. Isso já era esperado, mas a forma como ocorreu (vitórias por 6×0 e 7×0) mostra que o time está com um apetite descomunal.

Na convocação para o jogo contra o Canadá, primeiro compromisso da fase de grupos, Simões optou por um equilíbrio entre jogadores que atuam na liga local e aqueles que defendem clubes do exterior. Entre os “estrangeiros”, destacam-se alguns nomes da Premier League, como o meia Demar Phillips, do recém-promovido Stoke City, e o capitão Ricardo Gardner, defensor que está no Bolton há vários anos e integrou o grupo que foi à França em 1998. Outros três jogadores do atual time participaram, tal qual Gardner, da última Copa do século XX: Ian Goodison, Andy Williams e Dean Burton.

Esses dois últimos foram, na verdade, resgatados por Renê Simões. Andy Williams, que defende o Real Salt Lake, dos Estados Unidos, havia anunciado sua aposentadoria da seleção após a fracassada campanha nas Eliminatórias para 2006. Com o regresso de Simões, o jogador reformulou seus planos. Dean Burton, atacante do Sheffield Wednesday, não vinha sendo chamado por Bora Milutinovic, e ficou contentíssimo com a lembrança do técnico que lhe permitiu participar, com 20 anos de idade, da inolvidável jornada de 1998.

Será que dá, Canadá?

Tyrone Marshall é um dos convocados de Renê Simões para o duelo com o Canadá. Como alguns jogadores do time canadense pertencem ao Toronto FC, que toma parte na Major League Soccer, pode-se dizer que um dos mais valiosos espiões de Renê é justamente Tyrone: ele é zagueiro do Toronto FC. Aliás, há também um hondurenho no time canadense, que poderá fornecer informações ao técnico Reinaldo Rueda. Trata-se do meia Amado Guevara.

No entanto, talvez o serviço desses “agentes infiltrados” não tenha tanta importância, já que as principais armas dos “Canucks” não estão no Toronto FC, e sim no futebol europeu. Os experientes Paul Stalteri (Tottenham) e Tomasz Radzinski (ex-Everton, atualmente no Skoda Xanthi, da Grécia), os meias Hutchinson (Kobenhavn) e Julián de Guzmán (Deportivo La Coruña) e o atacante Rob Friend (Borussia Mönchengladbach) jogaram na derrota por 3 a 2 para o Brasil, no fim de maio, e estão no grupo selecionado para encarar a Jamaica. A boa quantidade de jogadores radicados em ligas importantes do Velho Continente não é, porém, garantia de boa campanha nas Eliminatórias. Muitos dos jogadores citados estiveram na qualificação para o Mundial de 2006, em cuja fase de grupos os canadenses ficaram em último lugar, atrás de Costa Rica, Guatemala e Honduras.

Desde meados de 2007, o técnico do Canadá é Dale Mitchell, maior artilheiro da história da seleção nacional, com 19 gols. O ex-atacante fez parte dos Canucks que disputaram a Copa de 1986. Antes de se tornar técnico do time principal do Canadá, ele dirigiu a equipe sub-20, que, aliás, fez um papelão no Mundial da categoria, no ano passado. Jogando em casa, os jovens “Maple Leafs” não pontuaram, tampouco marcaram gol. Deixaram a competição com três derrotas e muitas incertezas quanto à capacidade de renovação.

Dentro de poucos anos, provavelmente Radzinski, Stalteri e outros veteranos – o meia Daniel Imhof, de 30 anos, e o goleiro Pat Onstad, de 40, por exemplo – não estarão mais no barco. Como há escassez de novos valores, a tendência é que o Canadá encontre mais dificuldades nas Eliminatórias para 2014. O momento pede, portanto, que se aposte tudo numa ida à África do Sul.

Honduras e México

Honduras esteve perto de conseguir vaga para a Copa de 2002. Ficou apenas três pontos atrás dos EUA, que terminaram o hexagonal final na terceira colocação. Poucos meses antes da dolorosa eliminação, aquele bom time humilhara o Brasil na Copa América, na qual ingressara como substituta da desistente Argentina. Com um 2 a 0 nas quartas-de-final, regido pelo meio-campista Julio César Leon, hoje no Parma, os Catrachos expulsaram o Brasil de Felipão do certame.

O goleiro Noel Valadares, os meias Danilo Turcios e Amado Guevara, o já citado Leon e o atacante Saul Martinez, que estão entre os jogadores convocados para o jogo com o México, são os remanescentes daquela bizarra noite de inverno. Técnico da seleção de Honduras, o colombiano Reinaldo Rueda conta, ainda, com Maynor Figueroa e Wilson Palacios, ambos do Wigan, da Inglaterra. Mas seu maior trunfo é o atacante David Suazo, ex-Cagliari, hoje na Inter.

O desempenho recente de Honduras em amistosos é muito bom. Equador, Colômbia e Paraguai, por exemplo, foram batidos nos últimos meses pelos Catrachos. Outro dado animador vem do retrospecto hondurenho nos confrontos diretos com dois de seus três adversários do grupo das Eliminatórias: ao longo da história, experimentou mais triunfos do que dissabores diante de Canadá e Jamaica. Contra o México, claro, a situação é diferente.

A primeira batalha de Honduras vai ser exatamente contra o bicho-papão da Concacaf, fora de casa. O jogo marcará a estréia oficial do sueco Sven Göran-Eriksson no comando da “Tri”. O ex-técnico do English Team chamou o veterano Blanco para a partida. De resto, o único nome realmente surpreendente foi o do brasileiro Leandro Augusto, ex-Sport, Botafogo e Internacional, que joga no futebol mexicano há oito anos.

Com uma liga local forte, um técnico gabaritado e diversos jogadores espalhados por clubes importantes da Europa, o México deve avançar ao hexagonal final. E ir à Copa, como quase sempre acontece. Todavia, não deverá ter, nesta fase de grupos, a moleza que teve na qualificação para 2006, quando venceu todas as partidas contra Trinidad e Tobago, São Vicente e Granadinas e São Cristóvão e Névis. A campanha dentro da chave pode, desta vez, apresentar alguns percalços.
 

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