Clássicos de peso e equilíbrio

Equilíbrio. Essa palavra pode resumir a rodada dos jogos de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões. Sem favoritos ou times que se destacaram de longe, os confrontos das duas últimas semanas na Europa foram marcados por placares magros e em que nenhuma equipe saiu com vantagem de mais de um gol para o retorno.

Dois confrontos chamaram especialmente a atenção e explodiram em expectativas: Milan e Manchester United que, em San Siro, encerraram em um 2 a 3 favorável aos ingleses, e Internazionale e Chelsea, em uma partida que deixou muito mais dúvidas do que certezas para a próxima etapa, em Stamford Bridge. Dois duelos de quatro gigantes, dois duelos com os grandes “favoritos” a levar a tão sonhada taça.

Em Milão ficou difícil lançar mão de uma opinião consolidada sobre o que esperar do jogo. De um lado, um Milan que começou não dando esperanças a ninguém, e que fechou a fase de grupos com uma expressiva melhora no desempenho, e um Manchester United de Alex Ferguson tão poderoso, mas ainda deixando leve receio pela saído de Cristiano Ronaldo do elenco.

Ficou ainda mais claro no confronto que o substituto do português não sentiu nem um pouco o peso da responsabilidade de ícone do time. Pelo contrário. Assumiu para si a tarefa de carregar os Red Devils, e tem liderado e decidido como ninguém para o grupo. O inglês já aquiriu a confiança e a frieza para ser a estrela nos momentos mais difíceis, e provou seu valor ao salvar o United de uma perigosa derrota.

O Milan, inspirado por Ronaldinho Gaúcho, despontou à frente com apenas dois minutos de jogo, fazendo 1 a 0 e chacoalhando os ingleses, no susto. Susto? Paul Scholes conseguiu com muita sorte contar com uma falha de Dida, e igualou, em uma primeira etapa burocrática. Após o intervalo, a muralha de Edwin van der Sar parou o sedento brasileiro, e Rooney respondeu ao chamado da pequena torcida de Manchester, e, duas vezes de cabeça, completou três gols para seu time. Seedorf ainda chegou a balançar as redes (com assistência de quem? Claro, Ronaldinho Gaúcho), e diminui a vantagem dos visitantes.

Apesar de não contar mais com um elenco tão poderoso como em temporadas passadas, o manager Ferguson possui um grande equilíbrio técnico entre seus pupilos, com a exceção de Rooney, que já se mostra disparado à frente dos colegas e rivais. Já Leonardo precisa rezar para que seus talentos individuais apareçam ao mesmo tempo e que o time jogue em harmonia. O técnico brasileiro tornou-se dependente de lampejos de genialidade de Gaúcho ou da qualidade de Nesta, que ficou parte da temporada machucado, ou contar que Thiago Silva, Seedorf e Pato estejam inspirados. As laterais são as fraquezas gritantes do Milan, e Dida já deixa a desejar no gol há muito tempo, cometendo erros bobos com cada vez maior frequência.

Mas o resultado não alimenta muitas esperanças dos rossoneri. Os italianos têm plena consicência de que a volta será um bocado complicada, e que Old Trafford pode ser o palco da eliminação dos milanistas, que precisam de uma vitória por dois gols de diferença.

Mais em San Siro

Jogo mais aguardado que Milan x Manchester United talvez tenha sido só Inter x Chelsea. Frente a frente, a tetracampeã italiana e o líder da Premier League, em uma campanha em que mostra muita força. Didier Drogba, um dos monstros da temporada, foi parado por uma muralha brasileira que teve uma noite brilhante: Lúcio. O zagueiro nerazzurro desarmou sem perigo, organizou a defesa e ainda deixou seu toque em arrancadas para o ataque.

Foi um confronto muito disputado, e que, sem dúvida, viu prevalecer um equilíbrio de forças. A equipe de Milão, sedenta pelo título europeu tão sonhado, tentou de tudo contra um gigante inglês, dentre os favoritos a levar a taça europeia para casa.

Assim como o confronto do Milan em San Siro na semana anterior, o da semana passada também teve gol muito rápido, logo no comecinho do jogo. Diego Milito recebeu pela esquerda e conseguiu deixar John Terry para trás, finalizando para as redes. Apesar de Samuel Eto’o ter feito uma partida muito fraca, o argentino fez sua parte e deu trabalho, com as jogadas criadas por Sneijder e um meio-campo protegido por três volantes, Stankovic, Cambiasso e Thiago Motta.

A frieza dos ingleses falou mais alto mais uma vez, e o time não se abalou. Manteve sua força no ataque e batalhou pelo empate (inclusive com um pênalti a seu favor, mas não concedido pelo árbitro), que veio no início da segunda etapa, com Kalou. Porém, a alegria dos Blues durou apenas quatro minutos, tempo do Cambiasso colocar outra vez a Inter na frente. A entrada de Balotelli no lugar do volante Thiago Motta, deixando a Inter como que num espelho tático do adversário, foi mais um sinal da intenção ofensiva da dona da casa, o que fez os ingleses encerrarem a partida mais protegidos e conformados com o resultado.

Um aspecto muito positivo e importante a ser destacado foi a postura dos italianos em campo. Que dos ingleses já se esperava que não se intimidassem, o mesmo não se pode dizer dos nerazzurri, que acabaram ganhando a fama de “amarelar” em grandes decisões europeias, e acabarem sempre sendo eliminados no mata-mata, sem chances de erguer a taça. O time de Jose Mourinho enfrentou de igual pra igual o Chelsea, e arrancou uma merecida vantagem – mínima, é evidente, mas ainda assim importantíssima. O duelo em Londres está completamente aberto.

Maldição das oitavas

Na França, foi a vez dos galácticos decepcionarem. O Real Madrid manteve sua tradição no Gerland e perdeu por 1 a 0 para o Lyon. A bruxa das oitavas continua atormentando o time de Manuel Pellegrini, que poderá ter sua sexta eliminação seguida nesta etapa da Liga dos Campeões, mesmo com nomes valiosíssimos no elenco.

Jogando em casa, o Lyon de Claude Puel não ousou e nem fugiu do comum, entrando com apenas um atacante. Manteve seu time de sempre, com Delgado, Makoun e Govou, e com homens de confiança no banco, como Michel Bastos, Éderson, Källström e Bafé Gomis. Do lado de lá, Kaká, Cristiano Ronaldo, o talentoso Higuaín, e um banco com Raúl e Benzema. Nada mal, no papel.

A rápida movimentação dos merengues no início do jogo obrigou os lioneses a recuar nos primeiros minutos. Mas não adiantou, e quem marcou foi Makoun, para os franceses, na segunda etapa. Os espanhóis não controlaram seus ânimos e, afoitos, não furaram a barreira defensiva do Lyon. Assim, para o jogo de volta, más notícias para os merengues: não terão nem Xabi Alonso, nem Marcelo, que estão suspensos.

Mais um motivo de alegria para os franceses foi a postura aguerrida de um time que também sofre da “maldição das oitavas”…

Surpresa na Alemanha

Se dava para apontar um favorito gritante dentre os confrontos sorteados era o Barcelona. O atual campeão europeu, de talentos e capacidade incontestável, caiu nas oitavas com o modesto Stuttgart que, num grupo extremamente fraco, deixou para se classificar na rodada final, em grande sufoco. Outra vez no papel, tudo que os blaugranas sonhavam para uma fase tranquila na Liga dos Campeões.

Mas, não foi bem assim. O líder do Campeonato Espanhol, de jogadores de primeira linha, ficou apenas no 1 a 1 contra o oitavo na Bundesliga – que se recuperou após estar ameaçado de rebaixamento e trocar de treinador.

O grupo de Pep Guardiola esteve irreconhecível no primeiro tempo. Não encontrou espaços na fechada defesa dos alemães, viu seu craque Lionel Messi apagado, Xavi jogando no sacrifício e Iniesta penando fora de sua melhor posição. A facilidade do Stuttgart de ameaçar a meta guardada por Victor Valdés foi assustadora – tanto que chegou ao gol, com Cacau.

Na segunda etapa, o gol que impediu uma feia derrota veio com Zlatan Ibrahimovic. Seu único lampejo de boa sorte na partida.

Porém, se o jogo de ida surpreendeu pelo desempenho abaixo da média dos catalães, a volta em Camp Nou não promete menos que uma vitória mais tranquila dos espanhóis. E o favoritismo tem tudo para prevalecer.

Falhas grotescas em Portugal, inteligência na Alemanha

As outras partidas da Liga dos Campeões também se mantiveram abertas. O Porto recebeu o Arsenal e leva a ligeira vantagem do 2 a 1 para a volta na Inglaterra, com algumas boas esperanças de derrotar os Gunners. Apesar do equilíbrio em campo e do placar, a verdade é que os dois gols sofridos pelos ingleses vieram de jogadas ridículas, e de falhas ainda mais feias por parte do goleiro do time de Arsène Wenger.

Fabianski bobeou feio no primeiro tento dos portugueses, enquanto o segundo veio de um lance em que todo mundo se olhou, ninguém entendeu nada, mas que o gol valeu. Num recuo de bola indevido, o arqueiro pegou abola com as mãos e, antes mesmo de concluírem suas reclamações pela marcação do árbitro, os jogadores do Porto já cobravam o tiro livre indireto e colocavam a bola nas redes, enquanto Fabianski caminhava para guardar a sua meta.

Já na Allianz Arena, o Bayern de Munique recebeu a Fiorentina e também saiu na frente pelo mesmo placar de 2 a 1. A Viola, comandada por Cesare Prandelli, porém, não facilitou. Os italianos mostraram porque deixaram um conturbado Liverpool para trás na fase de grupos e mereciam uma chance no mata-mata europeu. Postando-se de modo inteligente em campo, a equipe conseguiu impor uma marcação por pressão, especialmente no segundo tempo, tirando a pompa e excesso de confiança dos bávaros.

A Viola saiu na frente e, no aperto, sofreu o empate e a virada, mas dando muito trabalho para o Bayern. O jogo de volta em casa, ao menos com o futebol que os italianos mostraram, deve ser motivo de esperanças sim para a Fiorentina, que já revelou em sua inteligência em campo que há chances de uma vaga nas quartas.

Por fim…

O trunfo do Bordeaux sobre o Olympiacos não foi lá muita surpresa. Os gregos se classificaram com facilidade porque os concorrentes eram fracos, mas o time de Laurent Blanc demonstrou uma força inesperada logo na primeira fase, e ficou fácil para os franceses ditar a nota no jogo fora de casa. Vitória de 1 a 0, e decisão da vaga levada para o confronto na França. Sorte dos girondinos.

Para fechar os confrontos das oitavas, outro equilíbrio: empate em 1 a 1 entre CSKA e Sevilla também deixou o confronto em aberto para o retorno na Espanha. A vantagem é mínima para o jogo no Ramon Sánchez Pizjuan, mas o resultado do Exército Vermelho, mesmo pior do que o esperado, não os deixa em situação tão desconfortável.

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