Chievo: A Cinderela suburbana

Imagine se um clube de uma cidade do interior chegasse à primeira divisão do Brasileiro. Não, não um Botafogo-SP ou um Juventude, mas o segundo time da cidade (como, nos casos acima, um Comercial ou um Caxias). Esse time nunca chegou à divisão máxima. Aí, na terceira rodada, líder com duas vitórias, ele vai pegar o maior time do país (para efeito de comparação, o Flamengo ou o Corinthians), na casa do adversário (que por sinal, tem um dos melhores times do mundo) e por pouquíssimo não vence.

Numa semana em que as histórias foram absolutamente irreais, o Chievo Verona, time menor da cidade da região do Veneto ganhou as manchetes esportivas, pelo menos até o atentado terrorista em NY. O Davi que desafiava Golias conseguiu mais uma vez colocar todo mundo de um lado da torcida.

Chievo é um bairro da cidade de Romeu e Julieta, a romântica Verona. Um bairro que tem aproximadamente 2.500 habitantes e que jamais viu seu time 'quase de bairro' jogar na divisão maior. Com uma campanha irrepreensível no ano passado, a fábula virou verdade. Basta dizer que o clube conseguiu vender 4.600 carnês de ingressos para a temporada – quase o dobro da população estimada das cercanias de onde provém.

Fundado em 1929, o time com sede na Via Aeroporto Ângelo Berardi ficou sempre à sombra do Hellas Verona, time também provincial, mas que chegou ao 'scudetto' em 1985. Como um legítimo time de várzea, o campo do Chievo era um terrão desgramado, onde os jogadores tinham de enfrentar urtigas e buracos para poder jogar.

O primeiro 'jogo' oficial do Chievo foi somente em 1931, tal era o amadorismo de seus fundadores, pessoas rigorosamente comuns. O adversário era o não mais famoso Domigliara. Já na primeira partida, o time veronese teve um resultado impugnado (o time da casa venceu por 1 a 0).

No decorrer da história 'gialloblú' (amarelo e azul: o time tem as mesmas cores do rival Verona – as cores da cidade), nunca o clube e a cidade tinham de enfrentar o drama de subir ou não para a primeira divisão. 'Café pequeno', o pobre Chievo tinha de se contentar em tomar pouco ferro.

Finalmente, o sonho

Na década de 90, a história do clube começou a mudar. Foi no Chievo que apareceu para o futebol o ex-técnico do Parma, Alberto Malesani (hoje no Verona – exatamente: no maior rival), quando este levou o time de bairro à Série B (fato não inédito, mas digno de nota), no campeonato de 1993/4. Em 1997, o clube esteve às portas da primeira divisão. Mas a tão sonhada vaga viria somente em 2001.

O Chievo de Luigi Del Neri está fazendo história porque tem ingredientes raros hoje em dia: joga junto há tempos, tem um grupo unido e encara a Aglianese e a Juventus da mesma forma. Se não tem nenhum craque, tem jogadores rodados (Corini e D'Anna, por exemplo) e não usa máscara. Numa época em que os valores pagos no esporte perderam o contato com a realidade, o time mostra que camisa não ganha jogo.

Curiosidades

– Devido à onda fascista da década de 20, o Chievo teve seu nome alterado logo depois da sua fundação para Ond Chievo.

– A inscrição do clube na Federação custou 25 liras.

– Em 1933, uma passagem curiosa: o clube veneto venceu a partida contra a Pescantina (na casa do adversário) por “sumiço premeditado da bola”.

– Entre 1935 e 45, o clube não teve atividades. Era a guerra…

– O maior artilheiro do clube foi Bruno Vantini, que jogou nas décadas de 1950, 60 e 70 (20 temporadas), marcando 159 gols com a camisa do time.

– As cores azul e amarelo não foram sempre as endossadas pelo Chievo. De 1929 até 1955, o clube era branco e celeste.

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